Free shipping to the Eurozone and USA14-day returns, no questions askedSecure payment by cardDesign inspired by Spain
O piercing nas culturas do mundo: significados e história ao longo das épocas

O piercing nas culturas do mundo: significados e história ao longo das épocas

Introdução: um adorno com seis mil anos de história

Em 1991, nos Alpes do Tirol, apareceu o corpo de um homem que ali tinha morrido por volta do ano 3300 a. C. Chamaram-lhe Ötzi. Os estudos revelaram muitas coisas surpreendentes: lesões graves sofridas em vida, pontos de tatuagem traçados com precisão nas costas e nas pernas, uma faca na bainha, um arco. Mas para os historiadores do piercing, o pormenor mais impressionante foi este: Ötzi tinha os lóbulos das orelhas perfurados, com aberturas de até 11 milímetros de diâmetro. É a primeira evidência física de piercing na história da humanidade. Há seis mil anos, um homem na Europa já dilatava os lóbulos até um tamanho considerável, o que implica uma tradição cultural estabelecida e períodos prolongados de alargamento gradual.

Quando uma rapariga hoje faz um septum num estúdio de Lisboa ou do Porto, muitas vezes vive-o como uma escolha pessoal, um gesto de rebeldia perante a geração dos pais, uma declaração de modernidade. Isso é verdade, mas é também algo mais. O septum tem seis mil anos de história, que começa com a nobreza mesopotâmica e passa pelos guerreiros maias. Um nath na aba do nariz de uma mulher indiana não é simplesmente um "acessório", mas parte de um ritual nupcial com mil anos de história. Os lóbulos dilatados de uma pessoa polinésia não são uma "moda de subcultura dos anos 2000", mas um marcador de iniciação e estatuto social com raízes profundas.

Este guia reúne os significados e a história do piercing nas culturas do mundo. Não para transformar o leitor em antropólogo, mas para dar profundidade ao adorno que usas ou tencionas usar. Quando compreendes as raízes do teu septum ou da tua perfuração na aba do nariz, a tua relação com esse piercing muda. Deixa de ser um capricho de moda e passa a ser participação numa tradição viva.

Se quiseres primeiro um mapa geral dos piercings corporais, lê o guia completo de tipos de piercing corporal. Para tudo o que diz respeito à orelha em particular, consulta o guia de tipos de perfuração na orelha. Este guia centra-se no contexto cultural, na história e nos significados.

Porque vale a pena conhecer os significados culturais do piercing

Algumas razões pelas quais conhecer a história e o contexto se revela genuinamente útil.

Profundidade na escolha. Quando escolhes um piercing conhecendo a sua história, a decisão ganha uma dimensão adicional. Um septum dialoga com os guerreiros maias, com a nobreza indiana, com o feminismo global contemporâneo. O brinco visível é apenas a camada superficial.

Respeito pela tradição. Se escolheres um piercing com um significado cultural profundo dentro de uma tradição viva (o nath num casamento indiano, o labret entre os mursi, o septum em certas comunidades africanas), conhecer o contexto ajuda a relacionar-se com essa tradição de forma consciente.

Proteção contra decisões superficiais. Quando sabes que um septum tem seis mil anos de história, a ideia de o fazer por uma aposta ou para uma fotografia torna-se trivial. Este adorno convida a uma atitude reflexiva.

Melhores respostas às perguntas. Às vezes alguém pergunta: "Porque fizeste o septum?" Com contexto cultural, a resposta é mais substancial do que "gostava do visual".

Escolhas mais precisas. Saber que um helix tem um significado em termos subculturais e outro como símbolo de iniciação na tradição polinésia permite escolher com compreensão.

Ligação às próprias raízes. Se tens raízes culturais (ibéricas, celtas, mediterrânicas), podes escolher piercings que remetam para essas tradições em vez de copiar formas emprestadas.

Uma só argola no lóbulo grita mais do que cinco juntas. A orelha não é um porta-chaves, tira alguma.
Encontra o teu piercing
1 / 5
O que te atrai no piercing?

Como usar o piercing

Ao longo de anos de rodagens e passerelles montei dezenas de looks à volta dos piercings. Reúno aqui o que de facto funciona, ocasião a ocasião.

Como uso um piercing no dia a dia? Para o dia recomendo o minimalismo: um ou dois brincos pequenos ou uma argola fina no lóbulo, um aro discreto na aba do nariz. Quanto mais sóbria for a roupa, mais se vê a joia, por isso aconselho um top liso com o pescoço à mostra e o cabelo apanhado. Mantenho o metal numa só gama: ouro amarelo quente para peles morenas e bronzeadas, prata branca para tons frios e claros.

Um piercing é apropriado no escritório? É, desde que se use em surdina. Recomendo um brinco com uma pedra pequena ou uma argola limpa, e para o septum escolho um aro em tom de pele ou um retentor quase invisível. Sob o colarinho da camisa e o blazer o piercing lê-se como um pormenor leve, não como uma declaração. Se quiseres compor a orelha, aconselho uma linha vertical pela borda, sem pendentes.

Como monto um look de noite? À noite pode subir-se o volume. Aconselho um pendente comprido no lóbulo com um decote aberto e o cabelo apanhado, um aro de nariz maior, uma composição marcada na cartilagem. O tecido profundo e saturado (bordô, esmeralda, grafite) realça o ouro e as pedras. A melena solta esconde metade das joias, por isso recomendo apanhar um dos lados.

O que escolho para uma ocasião especial? Para um casamento, uma festa ou uma rodagem a lógica inverte-se: a joia passa a ser o centro do look. Escolho os motivos étnicos deste guia, um nath com corrente à têmpora ou brincos pesados de ar nórdico, ali onde o resto do conjunto os sustenta.

Como combino vários piercings ao mesmo tempo? Quando componho uma orelha mantenho um ritmo: o acento grande em baixo no lóbulo, as peças finas para cima, e nunca mais do que uma pedra chamativa de cada vez. Sobre o comprimento aconselho isto: um pendente até ao maxilar alonga o rosto, um curto no lóbulo arredonda-o. Um piercing expressivo numa linha limpa ganha sempre a uma orelha carregada como uma árvore de Natal.

Experimente as joias Zevira online
Experimente a joia em si, diretamente no seu navegador.
Experimente as joias Zevira online

Ligue a câmara, escolha uns brincos, um pendente ou um anel, e veja a peça em si em tempo real.

Muda de modelo com um toque.

Tudo funciona no seu navegador: nenhuma foto ou vídeo é enviado para lado nenhum.

A pré-história: Ötzi e os piercings mais antigos conhecidos

A primeira evidência física de piercing data de cerca do ano 3300 a. C. É o já mencionado Ötzi, o homem do gelo dos Alpes. Os seus lóbulos estavam dilatados entre 7 e 11 milímetros, o que indica uma tradição de piercing desenvolvida na Europa neolítica.

O que diz a arqueologia

Para além de Ötzi, foram documentados numerosos achados pré-históricos.

Discos de pedra e pendentes com uma antiguidade de até 8000 a. C. Os achados de Çatalhöyük (atual Turquia) mostram tampões de pedra e osso que poderão ter sido usados em perfurações dilatadas de orelha ou lábio.

Anéis de conchas e âmbar de entre 5000 e 6000 a. C. aparecem em sepulturas por toda a Europa. A sua posição junto ao crânio sugere que eram usados em orelhas perfuradas.

Presas de animais perfuradas de antes do ano 10000 a. C. Estes "troféus" eram usados em piercings de orelha, nariz ou lábio.

Estatuetas de argila dogu (Japão, período Jōmon, aprox. 14000 a 300 a. C.) representam pessoas com piercings nas orelhas, no nariz e nos lábios. Não são evidência direta de piercings reais, mas mostram que a prática era um fenómeno visualmente reconhecido naquela cultura.

Porque o faziam

Não podemos saber com certeza porque é que as pessoas pré-históricas se perfuravam. As hipóteses principais:

Funções protetoras. Muitas tradições relacionam os piercings com a proteção contra espíritos malignos através da "selagem" das aberturas vulneráveis do corpo (orelhas, nariz). Em comunidades que mantêm crenças tradicionais, esta motivação continua viva.

Estatuto social. O tamanho da perfuração, o material do adorno, o número de piercings poderão ter refletido posição, idade ou ocupação.

Ritos de iniciação. O piercing como parte de um ritual de passagem a uma nova etapa da vida.

Estética. Adorno corporal simples, sem carga simbólica particular.

Marcadores tribais. Uma forma de reconhecer os membros do próprio grupo no contacto entre diferentes comunidades.

Na prática, uma mesma comunidade podia manter várias destas motivações ao mesmo tempo, e os significados transformavam-se ao longo das gerações.

Que tradição cultural ressoa com o teu piercing?
1 / 4
O que é mais importante para ti num piercing?

Usa o símbolo, não te limites a ler sobre ele. Disponíveis agora:

Envio grátisDevolução em 14 dias sem perguntasPagamento seguro

O Antigo Egito: faraós, estatuto, divindade

O Egito deixou as evidências materiais mais impressionantes do piercing antigo. O clima seco preservou múmias, joias e textos que permitem reconstruir os significados.

Estatuto social e material

O piercing de orelha no Antigo Egito era um poderoso indicador de estatuto. Os faraós e a alta nobreza usavam brincos de ouro, lápis-lazúli, turquesa e cornalina. O povo comum usava cobre, faiança e pedra vulgar.

Tutankhamon, faraó da XVIII dinastia, foi sepultado aos dezoito anos com pesados brincos de ouro nos lóbulos. A máscara de Tutankhamon tem orifícios para brincos nas orelhas, e o jovem faraó usou piercings em vida. É um testemunho excecional, porque geralmente vemos os brincos apenas através da arqueologia, não associados a um rosto concreto.

Piercing de umbigo

No Antigo Egito existia o piercing de umbigo, mas era um privilégio exclusivo das mulheres nobres. As esposas dos faraós e as sacerdotisas usavam adornos de ouro para o umbigo com incrustações de pedras preciosas. Só a nobreza era considerada digna de adornar a "zona divina" do umbigo.

Simbolismo religioso

Os brincos em forma de disco solar ou símbolo de Hórus ligavam quem os usava a uma divindade específica. As sacerdotisas de Hathor usavam brincos de argola especiais que representavam o círculo solar.

Contexto médico

No Papiro de Ebers egípcio (por volta de 1550 a. C.) aparecem referências a piercings de orelha com unguentos curativos que continham mirra, incenso e óleo de cedro. É um precursor do piercing profissional moderno com cuidados conscientes do processo de cicatrização.

Suméria e Mesopotâmia: primeiras tradições joalheiras

A civilização suméria deu ao mundo alguns dos primeiros brincos de grande ostentação.

Os túmulos reais de Ur

Nos Túmulos Reais de Ur (por volta de 2500 a. C.) foram encontrados brincos de argola de ouro e prata de extraordinária execução. A rainha Pu-abi, cuja sepultura foi escavada nos anos vinte do século XX, estava adornada com pesados brincos de ouro com incrustações de lápis-lazúli e cornalina.

As dimensões de alguns destes brincos (até 7 ou 8 centímetros de diâmetro) sugerem que os lóbulos já estavam dilatados no momento do enterro.

A deusa Inanna

A deusa suméria do amor e da guerra, Inanna (equivalente babilónico: Ishtar), era representada com pesados brincos de ouro como símbolos do seu poder. Nos mitos sobre a sua descida ao submundo, ao passar pelas sete portas vai despojando-se de vestes e joias, e os brincos são um dos símbolos centrais de autoridade divina.

Piercing nasal

A Mesopotâmia oferece evidência precoce de piercing nasal, sobretudo entre mulheres da nobreza. Delicados pendentes de lápis-lazúli e cornalina eram usados na aba do nariz. Esta tradição alastrou mais tarde pelas rotas comerciais até à Índia, onde ficou integrada nos rituais nupciais.

A Antiga Grécia e Roma: guerreiros, escravizados, aristocratas

O mundo greco-romano teve uma relação complexa e por vezes contraditória com o piercing.

A Antiga Grécia

Na Grécia clássica, o piercing de orelha era habitual entre as mulheres, especialmente em Atenas. Usavam-se argolas, pendentes e cachos. Entre os homens era menos frequente e costumava associar-se a influências orientais (persas, trácios).

Em alguns estados-cidade, o piercing de orelha num homem podia assinalar o pertencimento a certos cultos, como o de Mitra. Os mistérios mitraicos incluíam uma perfuração simbólica como parte da iniciação.

A Antiga Roma

Em Roma, a atitude em relação ao piercing dependia do sexo, do estatuto e da época.

Mulheres. As mulheres romanas livres usavam argolas e pendentes como adorno padrão. As nobres usavam ouro; as mulheres do povo comum, cobre e prata.

Homens. Na República inicial, o piercing masculino era considerado afeminado e impróprio. no Império tardio, especialmente após os contactos com as províncias orientais, os homens da elite começaram a usar brincos, o que foi criticado pelo setor conservador da sociedade.

Escravizados. Em alguns casos, aos escravizados perfurava-se a orelha e inseria-se uma argola com o nome do proprietário como marcador de posse. Após a alforria, a argola era retirada, mas a orelha perfurada permanecia como recordação do estatuto anterior.

Gladiadores. Certos tipos de gladiadores usavam piercings como parte da sua imagem de combate. Era estética, não um marcador social.

Simbolismo

Os brincos em forma de meia-lua (lunula) serviam de amuletos protetores, especialmente para mulheres e crianças. O piercing em si não tinha significado mágico; a forma e o material do adorno é que eram decisivos.

Índia e ayurveda: nath, karna vedha, ritos espirituais

A tradição indiana do piercing é uma das mais desenvolvidas e praticadas de forma contínua no mundo.

Karna Vedha: o piercing de orelha

Brinco antigo para perfuração de orelha
Brinco. A perfuração da orelha e a joia criada para ela surgem em culturas muito distintas como sinal de estatuto e parte de um rito de passagem à idade adulta. Museu de Arte de Cleveland, CC0.Earring. Cleveland Museum of Art, CC0

O Karna Vedha (literalmente "perfurar a orelha") faz parte dos dezasseis ritos obrigatórios (Shodasha Samskaras) do ciclo de vida hindu. A perfuração realiza-se na primeira infância, normalmente em meninas de 1 a 3 anos; nos rapazes, o momento varia consoante a região.

Na tradição ayurvédica, o ponto da perfuração é escolhido tendo em conta as terminações nervosas. Acredita-se que certos pontos da orelha estão ligados a órgãos específicos do corpo. Perfurar o ponto correto na infância favoreceria a saúde ao longo de toda a vida, segundo esta teoria. A medicina moderna não a sustenta, mas a tradição permanece viva.

Na Índia contemporânea, o Karna Vedha costuma combinar-se com uma cerimónia festiva a que acorre a família alargada. Um artesão (geralmente um joalheiro ou especialista em rituais) realiza a perfuração com uma agulha de ouro ou um instrumento específico.

Nath: o piercing nasal

O nath é uma argola de ouro ou prata na aba do nariz, atributo tradicional da noiva na maioria das regiões da Índia. A perfuração realiza-se habitualmente durante a adolescência, antes de começarem os preparativos matrimoniais.

O tamanho e a forma do nath variam consoante a região.

Rajastão. Naths de grande tamanho, por vezes de 7 a 10 centímetros de diâmetro, sustentados por uma corrente que vai até à têmpora ou ao cabelo para não puxar a aba do nariz.

Maharashtra. Naths em forma de grande flor com pendentes.

Sul da Índia (Tamil Nadu, Karnataka). Naths mais pequenos mas mais elaboradamente decorados, com elementos pendentes.

Bengala. Naths finos e minimalistas, por vezes duas perfurações na mesma narina.

O nath não se usa diariamente. A noiva usa-o durante toda a época de casamentos e depois apenas em celebrações. Na Índia urbana contemporânea, o nath foi deslizando para o decorativo, mas conserva o seu significado ritual.

Perfuração da aba nasal esquerda no ayurveda

A teoria ayurvédica associa a perfuração da aba nasal esquerda à saúde do sistema reprodutor feminino. A medicina moderna não confirmou esta ligação, mas a tradição está tão enraizada que na maioria das regiões indianas se perfura a esquerda, mesmo sem uma explicação explícita.

Os textos ayurvédicos também mencionam o piercing de umbigo e, em casos raros, o de lábio com fins terapêuticos. Estas práticas não se generalizaram, mas conservam-se em certas escolas de medicina tradicional.

Mulheres indianas na diáspora

As mulheres indianas da diáspora (no Reino Unido, Estados Unidos, Canadá ou nos Emirados Árabes) muitas vezes perfuram-se para o nath como símbolo de ligação às suas raízes. Em cidades como Londres ou Nova Iorque abriram estúdios especializados em piercing nasal indiano tradicional com joalharia de ouro e cerimónias que incluem a bênção de um sacerdote ou mestre.

Sudeste asiático: Tailândia, Laos, Birmânia

No sudeste asiático, o piercing tem raízes profundas e em algumas comunidades conserva o seu significado ritual.

Tailândia

O piercing de orelha tailandês tradicional realiza-se na primeira infância para todas as crianças, como parte de um ritual tailandês-budista destinado a proteger a criança dos maus espíritos. Os brincos costumam ser de ouro, em formas simples.

Nas comunidades sino-tailandesas, o piercing de orelha conserva significado de estatuto: o tamanho e o peso dos brincos refletem o bem-estar familiar.

Os karen e outros povos das colinas da Tailândia praticavam a dilatação dos lóbulos até tamanhos consideráveis. Entre certos grupos karen (conhecidos como "karen de orelhas longas"), os lóbulos dilatados de 10 a 15 centímetros eram uma norma histórica que hoje vai diminuindo.

Laos

As mulheres laosianas usam tradicionalmente brincos de ouro nos lóbulos perfurados. O estilo tende para formas mais pesadas e elaboradas do que os brincos tailandeses. Os brincos em forma de flor de lótus são especialmente apreciados.

Entre os povos das montanhas do Laos (hmong, khmu) encontram-se múltiplas perfurações numa mesma orelha, com diferentes pendentes consoante a idade.

Birmânia (Myanmar)

O povo padaung (parte dos karen) é conhecido pela dilatação dos lóbulos a par do alongamento do pescoço através de argolas de bronze. O piercing de orelha entre os padaung fazia parte dos ritos de maturidade e implicava adornos de bronze que iam aumentando gradualmente.

Os povos shan da Birmânia usam brincos de barra de ouro como marcador do estatuto de casado.

Camboja

Na tradição khmer, o piercing de orelha estava ligado a rituais budistas. Os baixos-relevos dos templos de Angkor mostram figuras com pesados brincos em lóbulos dilatados, que era a norma cultural daquela época (séculos XII e XIII).

China e Japão: estatuto e o declínio das tradições

As tradições orientais do piercing têm uma história complexa, com períodos de florescimento e supressão.

A China antiga

Durante a dinastia Han (a partir de 206 a. C.), o piercing de orelha estava difundido, sobretudo entre os povos nómadas da fronteira norte. Os próprios chineses han tendiam a ver o piercing como um costume estrangeiro ou "bárbaro" e na sua maioria não o praticavam.

Durante a dinastia Tang (618-907 d. C.), os brincos tornaram-se um acessório de moda para as mulheres da aristocracia. Os pesados brincos de ouro com incrustações passaram a fazer parte da vida cortesã.

Sob a dinastia manchu Qing (a partir de 1644), o piercing ficou estabelecido como prática feminina padrão. As mulheres manchus usavam várias perfurações numa mesma orelha, por vezes cinco ou seis com diferentes adornos.

O piercing nasal na China aparece entre algumas minorias étnicas (especialmente no Yunnan), mas não entre os han.

O Japão antes da era Meiji

No período Jōmon (aproximadamente 14000-300 a. C.), o piercing era habitual entre os povos indígenas das ilhas japonesas. As estatuetas dogu representam pessoas com piercings nas orelhas, no nariz e nos lábios.

No período Yayoi (a partir de 300 a. C.), o piercing manteve-se parcialmente, mas foi sendo progressivamente considerado "bárbaro" sob a influência das normas culturais chinesas continentais que alastravam à elite japonesa.

Com o período Heian (794-1185 d. C.), a aristocracia japonesa tinha abandonado por completo o piercing. Qualquer alteração da integridade corporal era considerada imprópria. Esta norma manteve-se durante o milénio seguinte.

Os ainu

O povo ainu, os habitantes indígenas de Hokkaido e Sacalina, manteve a tradição do piercing de orelha até ao século XIX. As mulheres ainu usavam brincos de madrepérola, metal e osso. Praticavam-se também tatuagens nos lábios, o que gerava uma rejeição particular por parte das autoridades japonesas.

A era Meiji e a supressão das tradições ainu

Na era Meiji (a partir de 1869), o governo japonês proibiu as tatuagens faciais e os piercings entre os ainu, como parte de um programa de assimilação cultural apresentado como "civilização". No início do século XX, a tradição tinha quase desaparecido. As últimas mulheres ainu com tatuagens nos lábios e piercings nasais faleceram nos anos sessenta e setenta.

O Japão contemporâneo

O piercing moderno no Japão começou nos anos noventa sob influência ocidental. Uma geração de jovens japoneses, especialmente em Tóquio, Osaka e Quioto, começou a perfurar orelhas, narizes e lábios de forma ativa. No final dos anos 2000, o piercing tinha-se tornado algo quotidiano e neutro na maioria dos meios urbanos.

O âmbito empresarial continua mais conservador. Em grandes bancos, instituições estatais e empresas tradicionais, o piercing visível ainda pode gerar problemas.

O renascimento ainu

Desde os anos noventa cresceu um movimento de revitalização da cultura ainu. Os ativistas ainu foram restaurando tatuagens, piercings e vestuário tradicionais como símbolos de identidade cultural. O reconhecimento oficial dos ainu como povo indígena por parte do Japão em 2019 conferiu ao movimento legitimidade adicional.

Coreia e os ainu: tradições pouco conhecidas

A Coreia antiga

O piercing de orelha na Coreia aparece em fontes desde a época dos Três Reinos (séculos I a VII d. C.). Foram encontrados brincos de ouro do estilo coreano característico com cachos de pendentes. Nos túmulos reais de Silla (Gyeongju), os brincos eram um dos principais tipos de joias da nobreza.

Com a ascensão do neoconfucionismo durante a dinastia Joseon (a partir de 1392), o piercing foi perdendo estatuto. A ideia confuciana de que o corpo é uma dádiva dos pais tornava moralmente questionável perfurá-lo. Pelo século XVII, o piercing tinha praticamente desaparecido entre a nobreza.

A Coreia contemporânea

O piercing moderno na Coreia do Sul reviveu nos anos noventa sob a influência da cultura pop ocidental. Na década de 2010, Seul tornou-se um dos principais centros mundiais do piercing estético, especialmente nos bairros de Hongdae, Gangnam e Itaewon.

A escola coreana de ear curation é conhecida pela sua estética kawaii: tons pastel, adornos em miniatura, esmalte em cores suaves, formas de coração e flor. A influência da música pop coreana espalhou este estilo por todo o mundo.

Opiniões de clientes

A Zevira é uma joalharia real. Pagamentos, envios e agradecimentos de clientes autênticos.

100% compra verificadaencomendas reais para Espanha, França e EUA
Capturas de pagamentos e agradecimentos
Encomenda enviada por correio, Espanha
A nossa peça num cacifo dos Correos
Pagamentos reais dos últimos dias
Um cliente a agradecer-nos no WhatsApp
Sempre disponíveis no WhatsApp e TelegramNão é para ti? Reembolso em 14 dias, sem perguntas
🥰🥰🥰 gracias
Colgante Navaja Jerezana Mini
Pedro L. · Jaén, España
Compra verificada
Ok, ¡gracias! 🙂
Pendiente Navaja
Raphaël C. · Toulouse, France
Compra verificada

América pré-colombiana: maias, astecas, incas

As civilizações da Mesoamérica e dos Andes tinham tradições de piercing muito desenvolvidas, muitas das quais foram suprimidas após a conquista espanhola.

Os maias

Entre a nobreza maia, o piercing era uma parte obrigatória da identidade social. Perfuravam-se orelhas, nariz e lábio, e por vezes outros pontos.

Piercing de orelha. Lóbulos dilatados com grandes discos de jade, obsidiana e cerâmica. Os diâmetros podiam alcançar 3 a 5 centímetros.

Labrets. Perfurações do lábio inferior com adornos de jade, obsidiana e ouro. A alta nobreza usava labrets de jadeíte, considerado o máximo símbolo de estatuto.

Septum. Perfuração do septo nasal com um adorno pendente, geralmente de ouro. Entre sacerdotes e guerreiros, o septum costumava decorar-se com elementos que assinalavam o pertencimento a uma casta.

Os astecas

Entre a nobreza asteca, o labret era um poderoso marcador da posição guerreira. Após a vitória em determinados combates, um guerreiro obtinha o direito de perfurar o lábio inferior e usar um labret de um tipo específico.

Labrets de obsidiana para guerreiros de posição inferior.

Labrets de jade para posição superior.

Labrets de ouro para estatuto muito elevado (embora menos comuns, pois o ouro tinha menos valor do que o jade na cultura asteca).

Acreditava-se que o labret que atravessava o lábio inferior simbolizava o direito do guerreiro a falar em nome dos deuses. Esta ligação entre a fala e o piercing labial é um conceito asteca específico sem paralelos diretos noutras culturas.

Os incas

No Império Inca (séculos XV e XVI), o piercing de orelha era obrigatório para todos os homens da casta governante. Os grandes brincos de ouro ou prata nos lóbulos dilatados eram o marcador oficial de pertencimento aos "homens de orelhas grandes" (Orejones).

O grau de dilatação do lóbulo determinava a posição: quanto maior o tamanho, maior o estatuto. O próprio Sapa Inca usava brincos de até 5 a 7 centímetros de diâmetro.

A supressão colonial

Após a conquista espanhola (século XVI), a Igreja Católica suprimiu ativamente as tradições de piercing por "pagãs". Os labrets, brincos e septums foram retirados à força e o seu uso foi proibido. Em poucas gerações, estas tradições tinham praticamente desaparecido na maioria das regiões.

Em zonas de difícil acesso (o altiplano da Guatemala, o norte da Argentina, o sul do México), algumas tradições sobreviveram de forma encoberta e chegaram até ao presente.

América Latina contemporânea: o renascimento da nariguera

Desde finais do século XX, na América Latina cresce um movimento de revitalização das tradições indígenas, incluindo o piercing.

México

Em Chiapas e Oaxaca (sul do México) podem encontrar-se mulheres mais velhas de comunidades indígenas a exibir septum tradicional. Não é moda, mas herança cultural viva. Os jovens mexicanos de origem indígena por vezes fazem um septum como símbolo das suas raízes.

Os designers mexicanos contemporâneos incorporam o motivo da nariguera (o adorno pré-colombiano para o septum) nas suas coleções, recuperando formas perdidas. Este movimento é especialmente visível na Cidade do México e em Guadalajara.

Guatemala, Peru, Bolívia

Em países com grande população indígena, a revitalização do piercing tradicional avança com maior intensidade. Os estúdios de Lima, Cusco e Cidade da Guatemala especializam-se muitas vezes em formas de adorno pré-colombianas: labrets, septums e brincos de estilo inca.

Brasil

Entre os povos amazónicos (yanomami, kayapó), o piercing tradicional de lábio e nariz persiste até hoje. Os discos de madeira no lábio e as penas no septo nasal fazem parte da aparência quotidiana. A cultura brasileira contemporânea recorre por vezes a estas formas como "estética indígena" no design.

África subsariana: massai, mursi, himba

As tradições africanas de piercing estão entre as mais diversas e mais bem conservadas do mundo.

Massai (Quénia, Tanzânia)

Os lóbulos dilatados e os piercings de cartilagem são marcadores de idade e estatuto social. Entre as mulheres massai, os lóbulos dilatam-se gradualmente desde a infância até alcançar na maturidade entre 5 e 10 centímetros de diâmetro.

Nos lóbulos dilatados inserem-se espirais de metal de cobre ou ferro envoltas em couro ou tecido. A cor e o tipo de espiral refletem:

Acrescentam-se piercings de cartilagem com pendentes de contas. O conjunto completo numa única orelha de uma mulher mais velha e casada pode incluir uma espiral no lóbulo, três a cinco piercings de cartilagem e brincos pendentes.

Mursi e surma (Etiópia)

Entre os mursi e surma do sul da Etiópia, as mulheres recebem em crianças um labret no lábio inferior e vão-no dilatando progressivamente. Um pequeno disco inserido na infância vai sendo substituído por discos cada vez maiores, até que na idade adulta pode alcançar entre 10 e 15 centímetros de diâmetro.

O tamanho do disco entre os mursi refletia tradicionalmente o preço da noiva, calculado em cabeças de gado. Quanto maior o disco, mais gado correspondia à família da noiva.

O governo etíope e as missões cristãs locais tentam muitas vezes reduzir esta prática, mas nas aldeias tradicionais mantém-se como marcador de identidade cultural.

Himba (Namíbia)

O povo himba do norte da Namíbia pratica o piercing de orelha com pesados adornos de metal e ocre vermelho. Os brincos e piercings fazem parte de um código estético complexo que inclui também tingir o cabelo e a pele com ocre vermelho.

As jovens himba recebem os primeiros brincos na puberdade, e o número de adornos aumenta com a idade.

Karamojong (Uganda)

Entre os karamojong, mantém-se a tradição do labret masculino que simboliza a iniciação guerreira concluída. Até há pouco tempo, um homem sem labret era considerado imaturo e sem direito a participar plenamente na vida comunitária.

Bacia do Congo e África Central

Na bacia do Congo e na África Central encontram-se diversas tradições de piercing de lábio, nariz e orelha. Adornos de madeira, osso e cobre. Em algumas comunidades, a mulher recebe um piercing ao nascer o seu primeiro filho, como marcador da maternidade.

Norte de África: berberes, tuaregues, núbios

Berberes (Marrocos, Argélia, Tunísia)

As mulheres berberes usam brincos em lóbulos perfurados como marcador do estado civil de casada. Os pesados brincos de prata pendentes com esmalte verde e coral são um elemento clássico do enxoval de casamento berbere.

Em alguns grupos berberes (especialmente no Alto Atlas de Marrocos), sobrevivem tradições de tatuagens faciais e piercing nasal em mulheres. São consideradas parte da beleza e da identidade cultural.

Tuaregues

Os tuaregues, povo nómada do Sara, têm uma sólida tradição de joalharia de prata que inclui piercings de orelha em homens e mulheres. Os homens tuaregues costumam usar um brinco mais pequeno, muitas vezes em forma de cruz (a chamada "Cruz de Agadez"), enquanto os das mulheres são maiores e mais elaborados.

Núbios

As mulheres núbias do Sudão e do sul do Egito mantêm a tradição do piercing de orelha com grandes brincos de ouro e do piercing nasal com uma pequena estrela de ouro. Entre os núbios, os brincos costumam transmitir-se de geração em geração como tesouro familiar.

Polinésia e Oceânia: maoris, havaianos, samoanos

As tradições polinésias de piercing estão estreitamente ligadas à tatuagem (moko, tatau) e formam um complexo unitário de adorno corporal ritual.

Maoris (Nova Zelândia)

Os maoris perfuravam tradicionalmente as orelhas e usavam brincos de osso de baleia (reo), pedra verde (pounamu) e madrepérola. O piercing de orelha nos homens maoris fazia muitas vezes parte da iniciação guerreira e acompanhava-se da tatuagem facial moko.

A cultura maori contemporânea vive um renascimento, e os brincos tradicionais de osso de baleia voltam a ser fabricados segundo modelos antigos. Usam-se em atos formais e cerimónias como sinal de identidade maori.

Havaianos

No Havai, perfurar a orelha esquerda associava-se tradicionalmente à casta guerreira, a direita ao sacerdócio, e ambas as orelhas assinalavam um mestre de múltiplos papéis ou quem tinha passado por várias etapas. Os brincos faziam-se de madrepérola, dentes de tubarão e osso.

Após a cristianização do século XIX, a prática diminuiu, mas no renascimento cultural havaiano contemporâneo está a regressar como parte da identidade cultural.

Samoanos

Em Samoa, o piercing de orelha fazia parte da cultura quotidiana. Os brincos de madrepérola e tartaruga eram usados por homens e mulheres desde a primeira infância.

Com a chegada dos missionários, algumas tradições foram suprimidas, mas na Samoa contemporânea o piercing está a regressar como parte da identidade cultural, especialmente entre os jovens.

Tonga, Fiji

Tradições semelhantes de piercing de orelha e nariz. Entre os fijianos, o piercing de orelha muitas vezes combinava-se com a tatuagem e fazia parte dos rituais nupciais.

Austrália: aborígenes e piercings nasais

Entre os aborígenes australianos, o piercing do septum fazia parte dos ritos de iniciação masculinos. A perfuração realizava-se na adolescência e inseria-se um osso ou pena através do septo nasal para simbolizar a passagem à idade adulta.

Após a colonização britânica, muitas tradições foram suprimidas, mas nas comunidades aborígenes contemporâneas existe um movimento de revitalização. Alguns homens aborígenes estão a restaurar o septum tradicional como símbolo de identidade cultural.

O piercing feminino entre os aborígenes era menos comum, mas em alguns grupos o piercing de orelha nas jovens marcava a transição para a maturidade.

Viquingues e o norte da Europa

A Escandinávia na época viquingue

Entre os viquingues, o piercing de lóbulo encontrava-se sobretudo em guerreiros masculinos. Os brincos de argola de prata e ouro aparecem em sepulturas ao longo de toda a Escandinávia e em povoações viquingues (Grã-Bretanha, Irlanda, Islândia).

O tamanho e o peso de alguns brincos (alguns chegavam aos 50 gramas) teriam exigido lóbulos consideravelmente dilatados.

Os brincos viquingues serviam também de função monetária: em caso de necessidade podiam fragmentar-se e usar-se como meio de pagamento. Foram encontradas sepulturas onde partes de brincos estão separadas e guardadas em bolsinhas como moeda.

Povos bálticos

Entre os povos bálticos (prussianos, lituanos), o piercing de lóbulo feminino está documentado até ao século XVI. Os brincos tinham motivos vegetais e animais, muitas vezes com pendentes de guizo.

Após a cristianização do Báltico (séculos XIII a XV), a tradição foi diminuindo sob a pressão da Ordem Teutónica e depois dos príncipes lituanos.

Tradições finlandesas e sami

Entre os sami (ou lapões), o piercing de orelha conservou-se como parte da cultura tradicional. Brincos de prata ou estanho com pendentes e sininhos. A perfuração costumava realizar-se na infância como parte de um rito protetor.

As tribos germânicas da época das Migrações

Entre as primeiras tribos germânicas, o piercing de orelha em mulheres era uma prática padrão. As sepulturas visigóticas e lombardas fornecem brincos de ouro e prata com granadas e âmbar. Isto fazia parte de uma rica cultura ornamental que incluía também fíbulas elaboradas.

10% no teu primeiro pedido

Deixa o teu email e enviamos o código de desconto. Sem spam, cancelas com um clique.

O código chega por email, válido no teu primeiro pedido.

A Europa medieval: proibição e regresso

Alta Idade Média (séculos V a X)

Após a queda do Império Romano, a tradição dos brincos sobreviveu sobretudo entre os povos "bárbaros" (godos, lombardos, francos nas suas primeiras etapas). As mulheres nobres germânicas usavam brincos com âmbar e granada.

Com a expansão do Cristianismo, a Igreja começou a exprimir a sua desaprovação do piercing como "costume pagão". Surgiram sermões contra o "adorno da orelha com ouro e prata, pois isso é idolatria do corpo".

Plena Idade Média (séculos XI a XIV)

Os brincos quase desapareceram do uso europeu. As orelhas ficavam cobertas por toucados (véus, coifas, francalete), e o próprio piercing tornou-se culturalmente invisível. Isto afetava sobretudo as mulheres casadas, para quem ter as orelhas descobertas era considerado indecoroso.

Em algumas regiões (especialmente na Itália e no sul de França), os brincos conservaram-se entre as mulheres comuns e as camponesas, mas não entre a nobreza.

O regresso no Renascimento (séculos XV e XVI)

O Renascimento devolveu os brincos à moda. Nos retratos dos séculos XVI e XVII, os cortesãos masculinos aparecem frequentemente com um único brinco pendente no lóbulo. Isto era considerado o auge da moda e do gosto refinado.

William Shakespeare, retratado no chamado retrato Chandos, usa um brinco de ouro na orelha esquerda. Era um acessório típico de um homem instruído do seu círculo. O mesmo vemos nos retratos de Francis Drake, Walter Raleigh e outros aristocratas e navegadores isabelinos.

O piercing feminino também regressou, embora de forma mais discreta: pequenas pérolas pendentes, longos brincos de granada.

O Renascimento: moda cortesã e Shakespeare

Um olhar mais atento sobre uma das épocas mais interessantes do piercing europeu.

A moda masculina

Desde a década de 1550 até aos anos 1650, o brinco masculino na orelha esquerda tornou-se sinal de instrução, refinamento cultural e pertencimento aos círculos artísticos ou cortesãos. Preferiam-se pendentes de pérola ou de pequeno diamante.

Artistas, poetas e atores tinham especial predileção por este estilo. Acreditava-se que o brinco ajudava a "ver o mundo com maior agudeza" e estava ligado a um olhar criativo.

A tradição marinheira

Com a era dos grandes descobrimentos geográficos (a partir de finais do século XV) formou-se entre os marinheiros uma tradição de piercing de orelha. Para os marinheiros, um brinco assinalava ter concluído uma viagem por certos pontos de referência (o equador, o cabo Horn, o cabo da Boa Esperança), marcando o estatuto de marinheiro experiente.

Circulavam também explicações práticas: um brinco de ouro na orelha de um marinheiro afogado devia pagar o seu funeral se o corpo desse à costa. Entre os piratas, um brinco de ouro muitas vezes assinalava ter concluído determinado rito pirata ou ter participado na captura de um grande navio.

Diferenças por países

Inglaterra e Escócia. Forte tradição masculina, especialmente nas cidades portuárias.

Espanha e Portugal. Piercing masculino generalizado, especialmente entre marinheiros. Manteve-se também a tradição feminina (que nunca desapareceu por completo).

Itália. Brincos em homens e mulheres por igual, especialmente em Veneza e no sul da Itália.

Alemanha e Norte da Europa. Menos difundido, mas presente entre as classes mercantis.

O século XIX: marinheiros, piratas, ciganos e bairros portuários

O século XIX é um dos períodos mais interessantes da história social do piercing.

Marinheiros e piratas

A tradição marinheira atingiu o seu auge. Em finais do século XVIII, quase todos os marinheiros ingleses tinham pelo menos um brinco. Os brincos tornaram-se sinal de experiência e fraternidade marinheira.

Os piratas usavam brincos como símbolo de ofício: o tipo, o material e o lado em que se usava tinham significado na cultura pirata. Barba Negra (Edward Teach) é descrito com pesados brincos de ouro em ambas as orelhas.

Ciganos

Entre os ciganos de origem centro-europeia e ibérica, o brinco masculino fazia parte da cultura tradicional. Um menino cigano recebia muitas vezes um brinco como proteção contra os maus espíritos e como marca de pertencimento à família.

O tamanho do brinco, o material e o lado refletiam o estatuto e o papel dentro da comunidade. Em algumas famílias, o brinco transmitia-se de pai para filho.

Artistas de circo e feira

No século XIX formou-se uma subcultura específica de artistas de circo com piercings faciais (sobrancelha, nariz, lábio). Para além do aspeto estético, isto fazia parte da identidade profissional.

Bairros portuários e classes trabalhadoras

Em Londres, Paris, Hamburgo e Antuérpia, os registos da época indicam que certos piercings em mulheres (especialmente mamilos e umbigo) se associavam às trabalhadoras dos bairros portuários. Foi um marcador ocupacional que depois se difundiu.

Diásporas africanas e asiáticas

Os imigrantes de África, da Índia e do sudeste asiático mantiveram as suas tradições de piercing nas cidades europeias. Em finais do século XIX, nos bairros indianos e árabes de Londres, Paris e Berlim, o piercing tradicional era uma parte ordinária da vida quotidiana.

O século XX: punks, cultura gay, feminismo

O século XX transformou o piercing de marcador subcultural em fenómeno de massas.

Anos sessenta: hippies e contracultura

Os hippies dos anos sessenta recuperaram o piercing de orelha como parte da sua rejeição da cultura dominante. Costumavam ser argolas finas ou pequenos pendentes de estilo oriental (mandalas, flores de lótus, símbolos yin-yang).

Muitos hippies viajaram à Índia, Nepal e Marrocos e trouxeram de lá tradições de piercing nasal, septum e por vezes labial. Isso formou a "estética hippie" com elementos tomados das tradições orientais.

Anos setenta e oitenta: punk e pós-punk

O punk britânico e norte-americano dos anos setenta mudou radicalmente a relação com o piercing. O septum, a sobrancelha, o lábio, o industrial e os piercings de cartilagem tornaram-se marcadores de identidade punk. Fazer um septum em Lisboa em 1977 era uma declaração tão contundente como fazer uma tatuagem facial hoje.

Músicos punk destacados (Sid Vicious, Poly Styrene, membros dos The Exploited) popularizaram diversas formas de piercing através das suas imagens.

Comunidades gay

Nos anos setenta e oitenta, as comunidades gay desenvolveram os seus próprios códigos de piercing. Um brinco na orelha direita de um homem podia assinalar naquela época a homossexualidade. Os piercings de mamilos e de outras zonas do corpo tornaram-se parte da cultura BDSM e de certas subculturas.

Estes códigos foram-se dissolvendo nos anos noventa, quando o piercing se tornou fenómeno de massas e perdeu a sua sinalização sexual específica.

Feminismo da terceira vaga

As feministas dos anos noventa usaram muitas vezes o piercing como ato de apropriação do próprio corpo. O umbigo, o septum e os piercings de peito tornaram-se formas de dizer "este é o meu corpo e sou eu que decido o que faço com ele".

Moda de massas nos anos noventa e dois mil

Em finais dos anos noventa, o piercing tinha saído por completo do nicho subcultural para se tornar moda de massas. As estrelas da pop popularizaram diversas formas de piercing na televisão.

No final dos anos 2000, o piercing de orelha, umbigo e nariz era quase padrão na moda adolescente.

Anos dez: renascimento como joalharia

Na década de 2010, o conceito de ear curation transformou o piercing de marcador subcultural num componente da alta joalharia. Para mais informação sobre este fenómeno, consulta o guia ear stack: como compor um conjunto de piercings.

Septum em diferentes culturas: significados
CulturaPeríodoSignificadoMaterial típico
Mesopotâmia2500 a.C.Linhagem nobreOuro, lápis-lazúli
Maiaséculos VI-IXValor guerreiro, direito de falar pelos deusesJade, obsidiana, ouro
Aborígenes australianosMiléniosIniciação masculina à idade adultaOsso, madeira, pena
Índia do sulDa Antiguidade ao presentePertencimento tribalOuro, prata
Punk ocidental1970-80Rebelião contra o dominanteAço, bijutaria
Moda moderna2010-2020Acessório estético neutroTitânio, ouro 14K

Significados religiosos: islão, hinduísmo, judaísmo, cristianismo

As religiões relacionam-se com o piercing de maneiras diferentes, o que por vezes influencia as decisões pessoais.

Islão

Na tradição muçulmana existe uma distinção por género.

Mulheres. O piercing de orelha para meninas é permissível e muito praticado. Diferentes escolas do direito islâmico mantêm posições distintas sobre o piercing nasal: as escolas hanafita e malikita são mais liberais; a xafeíta e a hambalita são mais estritas.

Homens. A maioria das escolas considera o piercing para homens não permitido, por o considerar imitação das mulheres. Não obstante, nas comunidades muçulmanas da Europa e da América do Norte, muitos jovens muçulmanos perfuram-se sem problemas religiosos.

Na Turquia, no Irão e nos países do Golfo, o piercing de orelha em mulheres foi tradicionalmente muito difundido.

Hinduísmo

No hinduísmo, o piercing tem raízes religiosas profundas. O Karna Vedha (piercing de orelha) faz parte dos Shodasha Samskaras (os 16 ritos obrigatórios). O nath (piercing nasal) está intimamente ligado aos rituais nupciais.

Os xivaítas e os vixnuítas podem usar piercings específicos que simbolizam o pertencimento à sua seita.

Judaísmo

No judaísmo tradicional, o piercing de orelha para mulheres é permissível. O masculino é menos comum e por vezes gera debate: algumas interpretações da Torá proíbem qualquer modificação corporal, enquanto outras são mais liberais.

O judaísmo liberal e reformista contemporâneo aborda o piercing com neutralidade.

Cristianismo

Ortodoxia. O piercing de orelha para mulheres é permissível e difundido. O masculino historicamente não foi incentivado, mas na Igreja moderna aborda-se com neutralidade.

Catolicismo. Posição semelhante. O piercing de orelha para mulheres é norma; o masculino foi historicamente menos comum.

Protestantismo. Depende muito da denominação concreta. As denominações liberais (anglicanismo, luteranismo no norte da Europa) abordam todos os piercings com calma. As conservadoras (evangélicas, fundamentalistas) podem considerá-lo inadequado.

Na cultura cristã contemporânea, o piercing perdeu praticamente toda a sua carga religiosa. Um sacerdote com piercing de orelha já não escandaliza nas paróquias modernas.

Budismo

O budismo em geral não tem regras estritas sobre o piercing. As representações do Buda mostram muitas vezes lóbulos alongados (sinal da sua origem nobre como príncipe Sidarta), o que aponta implicitamente para a aceitação cultural do piercing.

Nos países budistas (Tailândia, Sri Lanka, Birmânia), o piercing de orelha em mulheres é a norma, frequentemente ligado a cerimónias protetoras budistas.

Irão e Pérsia: uma tradição feminina milenar

A civilização persa produziu algumas das tradições de joalharia e piercing mais refinadas do mundo, que sobrevivem até hoje.

A Pérsia antiga

Desde o período aqueménida (séculos VI a IV a. C.), as mulheres nobres persas usavam brincos pendentes de ouro com incrustações de turquesa e cornalina. Os relevos de Persépolis mostram figuras com brincos nas orelhas, o que evidencia a difusão da tradição.

No período sassânida (séculos III a VII d. C.), as formas dos brincos tornaram-se especialmente complexas: pesados pendentes, composições em várias camadas, incrustações de pedras semipreciosas. O piercing nasal também aparece, embora com menor frequência.

O período islâmico

Após a islamização do século VII, a tradição do piercing entre as mulheres continuou sem mudanças significativas. O islão xiita (predominante no Irão) aborda o piercing feminino com neutralidade. O piercing de orelha para meninas realiza-se cedo, habitualmente na primeira infância.

O piercing nasal no Irão e nas culturas vizinhas (Afeganistão, Tajiquistão) está ligado a tradições étnicas tribais, especialmente entre os qashqai, bakhtiari e lures. Faz parte da ritualidade nupcial.

O Irão contemporâneo

Apesar do regime religioso conservador, o piercing está bastante difundido no Irão. Nas cidades, especialmente em Teerão e Isfahan, as mulheres jovens fazem piercings de nariz, septum e por vezes helix. Isto é vivido como um ato cultural e por vezes uma forma silenciosa de protesto contra a regulação da aparência feminina.

Turquia e o Império Otomano

A tradição turca do piercing é uma mistura de influências centro-asiáticas, balcânicas e do Próximo Oriente.

O período otomano

No Império Otomano, o piercing de orelha para mulheres era uma parte padrão da cultura em todos os estratos sociais. As mulheres nobres usavam elaborados brincos pendentes com esmalte, pérolas e granadas. O povo comum, cobre e prata com esmalte.

Em Istambul e nas principais cidades do Império, o piercing nasal aparecia em certos grupos étnicos (gregos, arménios, búlgaros), mas não entre os próprios turcos.

A Turquia contemporânea

O piercing turco contemporâneo segue as tendências de moda mundiais. Istambul é um dos centros ativos do piercing profissional no Mediterrâneo oriental. O ear curation, o septum e os piercings nasais entraram na cultura de massas.

Mitos sobre as raízes culturais do piercing
O piercing é uma invenção da subcultura juvenil moderna
Tap to reveal
O septum é uma marca da subcultura punk
Tap to reveal
As perfurações de orelha em homens sempre foram femininas
Tap to reveal
O nath na tradição indiana liga-se ao estado de casada
Tap to reveal
O piercing moderno está livre de contexto cultural
Tap to reveal
Os brincos dos marinheiros indicavam uma orientação sexual
Tap to reveal
O piercing daith era conhecido contra a enxaqueca desde a antiguidade
Tap to reveal
Usar um piercing de outra cultura é sempre apropriação cultural
Tap to reveal

O piercing na música, no cinema, na literatura

A cultura artística dos séculos XX e XXI empregou ativamente o piercing como símbolo, moldando através dele a perceção social.

Música

Rock e metal. Desde os anos setenta, os músicos de rock usavam piercing como parte de uma estética rebelde. Os piercings de orelha, sobrancelha e septum faziam parte do estilo de David Bowie, Iggy Pop, Alice Cooper e Prince. Isso influenciou a perceção do piercing em gerações inteiras.

Punk rock. Sid Vicious, Poly Styrene, membros dos Sex Pistols, dos The Clash e dos Exploited usaram o piercing como parte de uma imagem antiburguesa. Septum, industrial, piercings de sobrancelha e lábio nessa estética.

Hip-hop. Nos anos noventa, os rappers popularizaram os pesados brincos de ouro, por vezes vários numa orelha, como marcador de sucesso e imagem forte. Isso influenciou a moda do piercing entre os jovens nos Estados Unidos e não só.

Pop. Madonna, Christina Aguilera, Britney Spears transformaram o piercing em parte das suas imagens públicas e difundiram essa moda a milhões de pessoas.

K-pop. Os artistas da pop coreana contemporânea (homens e mulheres) usam ear curations minimalistas de forma generalizada, o que influenciou a estética na Ásia e em todo o mundo.

Cinema

O cinema molda a atitude em relação ao piercing. Desde os brincos de pirata em filmes de aventura até aos septums em distopias, o design de personagens utiliza o piercing frequentemente como sinal visual rápido sobre a personalidade.

No cinema contemporâneo (a partir dos anos dez), o piercing das personagens tem cada vez menos sinal específico e reflete simplesmente a representação realista das pessoas de hoje.

Literatura

Na literatura, o piercing aparece desde a Antiguidade. Na Ilíada de Homero descrevem-se os brincos de ouro de Hera. Nas sagas medievais, os brincos viquingues aparecem como marcadores de posição.

Na literatura contemporânea, o piercing é um pormenor quotidiano, por vezes simbólico. no romance de Stieg Larsson "Os Homens que Odeiam as Mulheres", os múltiplos piercings de Lisbeth Salander simbolizam o seu estatuto underground.

O desporto contemporâneo e o piercing: restrições

No desporto profissional contemporâneo, o piercing está frequentemente restringido.

Regras olímpicas

As federações internacionais de diferentes desportos exigem retirar a maioria dos adornos visíveis, incluindo os piercings, durante a competição. Isto relaciona-se com o risco de lesões (próprias ou do adversário) no contacto.

Em algumas disciplinas (ginástica rítmica, natação sincronizada) os adornos são parcialmente permitidos, mas estritamente regulados.

Desportos de equipa

No futebol, a FIFA proíbe qualquer piercing durante os jogos. A mesma norma vigora na Federação Internacional de Hóquei no Gelo, no râguebi e no basquetebol.

Desportos de combate

No boxe, MMA, luta e taekwondo, os piercings são retirados de maneira categórica. Um golpe no rosto com um brinco pode causar rasgões de tecido e lesões graves.

O que isto revela sobre a cultura

A proibição do piercing no desporto profissional reflete os conceitos europeus tradicionais de "aparência profissional", em grande medida baseados nos padrões vitorianos e eduardianos. Estas regras vão-se liberalizando gradualmente, mas mais devagar do que a sociedade em geral.

Exército, polícia, fardas

Os serviços fardados mantiveram historicamente restrições estritas sobre o piercing.

Exército

Na maioria dos exércitos do mundo, o piercing visível está proibido por regulamento. Isto aplica-se aos homens e, em menor medida, às mulheres (a quem por vezes se permite um pequeno brinco no lóbulo).

O Exército português, o espanhol, o norte-americano, o britânico, a Bundeswehr e os exércitos de França e Itália permitem às militares femininas usar pequenos brincos no lóbulo. Qualquer outro piercing (helix, septum, sobrancelha) deve retirar-se durante o serviço.

Polícia

Restrições semelhantes. O piercing visível (especialmente facial) é considerado incompatível com a imagem do agente de polícia. Em alguns países as regras liberalizam-se: em certas partes da Europa, dos Estados Unidos e do Reino Unido permite-se aos agentes um pequeno piercing de cartilagem.

Medicina

Nos centros médicos, as restrições relacionam-se com a higiene. O piercing visível (especialmente com pendentes) está proibido em cirurgia, medicina dentária e blocos operatórios. Os pequenos brincos no lóbulo costumam ser permitidos.

Aviação (comissários de bordo)

Os padrões de imagem na maioria das companhias aéreas permitem apenas pequenos brincos no lóbulo. O septum, o helix e a sobrancelha costumam exigir remoção durante o serviço.

O que isto revela

Os serviços fardados são conservadores por natureza e adaptam-se lentamente às mudanças sociais. A cada geração as regras relaxam um pouco, mas o princípio básico de "mínimo adorno visível" mantém-se.

Género e piercing em diferentes culturas

A atribuição de género do piercing varia enormemente entre culturas e épocas.

Culturas com piercing igual em homens e mulheres

Polinésia, América pré-colombiana, muitos povos africanos, a Índia antiga, o Antigo Egito, o Renascimento europeu.

Nestas culturas, o piercing fazia parte da identidade de ambos os sexos, por vezes com formas de adorno distintas, mas sem assimetria fundamental.

Culturas com piercing predominantemente feminino

O mundo ocidental contemporâneo após o século XIX, a China e a Coreia tradicionais, a tradição ortodoxa oriental, o judaísmo histórico.

Aqui o piercing masculino era a exceção e muitas vezes marcava um estatuto especial (marinheiro, artista, membro de uma subcultura).

Culturas com piercing predominantemente masculino

Viquingues, guerreiros astecas, certos povos africanos onde o labret é um marcador de posição masculina.

A mudança de códigos hoje

Desde a década de 2010, a atribuição de género do piercing na maioria das culturas ocidentais está a dissolver-se. Qualquer género pode usar qualquer piercing sem carga social específica. Em Seul e Tóquio este processo avança ainda mais depressa; em meios mais conservadores, mais devagar.

Nuances regionais hoje

Nos países do Magrebe, do Próximo Oriente e do Sul da Ásia persistem códigos de género mais estritos. O piercing masculino pode gerar desaprovação em meios tradicionais.

No norte da Europa, na América do Norte, na Austrália e no Japão urbano, os códigos de género são praticamente inexistentes.

Oferece 10% a um amigo

Envia a um amigo um código de desconto, ele poupa no primeiro pedido.

WELCOME10
💬✈️

Simbolismo por tipo de piercing: o que significa onde

Cada tipo de piercing carrega diferentes significados em diferentes culturas.

Septum (septo nasal)

Nobreza mesopotâmica antiga: estatuto, origem nobre.

Maias e astecas: valor guerreiro, direito a falar em nome dos deuses.

Moda ocidental contemporânea: originalmente marcador subcultural (punk, cultura gay), hoje um acessório de moda neutro.

Índia contemporânea (diáspora): por vezes ligação à tradição dos povos indígenas do sul da Índia.

Aborígenes australianos: iniciação masculina.

Nostril (aba do nariz)

Índia: atributo nupcial (nath), ligado à tradição ayurvédica.

Antigo Egito: raro, associado à nobreza.

Próximo Oriente (Irão, Arábia): frequente em mulheres beduínas como parte do dote.

Moda ocidental contemporânea: um acessório neutro.

Piercing de sobrancelha

Moda ocidental contemporânea: originalmente marcador punk dos anos noventa, hoje mais difundido em círculos alternativos.

Tradições tribais: raramente encontrado.

Labret (lábio inferior)

Maias e astecas: posição guerreira, estatuto.

Mursi e surma (Etiópia): marcador feminino de maturidade, indicador do preço da noiva.

Karamojong (Uganda): iniciação masculina.

Moda ocidental contemporânea: subcultural, artístico.

Piercings de orelha (lóbulo)

Cultura universal: presente em praticamente todas as tradições.

Antigo Egito, Suméria, Maia, Roma: marcadores de estatuto.

Viquingues, marinheiros: marcadores masculinos.

Mundo contemporâneo: neutro para todos os géneros.

Cartilagem da orelha (helix, conch, tragus, daith)

Polinésia: iniciações rituais.

Moda ocidental contemporânea: parte do ear curation (ear stack).

Piercing de umbigo

Antigo Egito: apenas para mulheres muito nobres.

Ocidente contemporâneo: fenómeno de massas relativamente recente (desde os anos noventa).

Piercing de mamilo

Inglaterra vitoriana: uma estranha moda do século XIX entre as aristocratas.

Comunidades gay dos anos setenta e oitenta: marcador de pertencimento.

Mundo contemporâneo: escolha estética neutra.

Piercing de língua

Maias e hindus: ritual, parte de práticas espirituais.

Ocidente contemporâneo: subcultural, estético.

Apropriação cultural ou respeito pela tradição

Uma questão delicada hoje, especialmente quando o piercing tem um profundo contexto cultural.

O que se considera apropriação cultural

O uso de símbolos culturais sagrados ou importantes de outra tradição sem compreender o seu significado, especialmente quando:

O que se considera respeito

Tomar emprestado com compreensão do contexto, reconhecimento da fonte, por vezes com participação dos portadores da tradição. Por exemplo:

A zona cinzenta

A maior parte do piercing contemporâneo situa-se numa zona cinzenta. O septum tem tantas fontes em todo o mundo que se torna difícil atribuí-lo a uma só cultura. O piercing de lóbulo é universal. O labret tem história tanto em África como na América.

Uma regra razoável: se escolheres um piercing com um contexto cultural profundo, tenta conhecer a sua história e trata-o com respeito. Se simplesmente quiseres a estética de um septum, um septum feito por um bom profissional é um adorno contemporâneo perfeitamente normal sem bagagem cultural obrigatória.

Renascimento étnico: tradições novas e antigas

Desde finais do século XX, um movimento de revitalização das tradições indígenas cresceu em todo o mundo, incluindo no âmbito do piercing.

O renascimento maori

Os maoris da Nova Zelândia estão a restaurar ativamente as práticas tradicionais, incluindo o moko (tatuagem facial), os piercings de orelha com brincos de osso de baleia e os adornos tradicionais. Desde os anos oitenta, o Renascimento Maori incluiu o piercing no seu alcance.

O renascimento ainu

Os ainu do Japão revitalizaram as tatuagens de lábios e os piercings de orelha desde os anos noventa como símbolos de identidade cultural. Após o reconhecimento oficial dos ainu como povo indígena por parte do Japão em 2019, o movimento ganhou impulso adicional.

Movimentos latino-americanos

No México, Peru, Bolívia e Guatemala, está a produzir-se um renascimento da joalharia pré-colombiana, incluindo septums e labrets em estilos tradicionais. Isto faz parte de um movimento mais amplo dos povos indígenas pelo reconhecimento e a preservação cultural.

Movimentos africanos

No Quénia, Tanzânia e Etiópia, as gerações mais jovens de comunidades indígenas recorrem às práticas tradicionais de piercing como marcadores de identidade. Por vezes são versões modernas que combinam tradição e estilo contemporâneo.

Norte da Europa

Na Escandinávia, na Finlândia e nos países bálticos, estão a revitalizar-se as tradições de adornos viquingues e bálticos. Os artesãos reproduzem brincos de argola e anéis de têmpora segundo protótipos arqueológicos.

O que isto traz à cultura contemporânea

A revitalização das tradições restaura o património perdido e enriquece a cultura mundial. Os designers contemporâneos incorporam motivos tradicionais nas suas coleções. O piercing ganha camadas adicionais de significado.

Para oferecer

É para oferecer? Cada peça chega pronta a entregar.

ZeviraCaixa da Zevira e um cartão incluídos em cada pedido.
Embalagem de oferta incluídaCertificado de autenticidadeDevolução em 14 dias sem perguntas
Não sabes qual escolher? Encontra o presente →

A moda contemporânea como síntese de culturas

O piercing contemporâneo é uma mistura de muitas tradições culturais.

Globalização e polinização cruzada

Com o crescimento da internet e das redes sociais, as tendências de piercing difundem-se instantaneamente. A estética kawaii coreana popularizou os corações em miniatura. As tradições africanas inspiram peças pesadas de latão. As formas polinésias reinterpretam-se em designs minimalistas contemporâneos.

O regresso dos clássicos

Um contramovimento corre em paralelo: as formas europeias clássicas (pérolas, brincos de diamante, pendentes de ouro) regressam como reação ao ecletismo. O minimalismo dos anos vinte inclui um regresso às formas joalheiras europeias clássicas.

Hibridação

As coleções contemporâneas misturam muitas vezes estilos culturais de forma deliberada: talha indiana sobre ouro europeu, ornamento mexicano sobre prata escandinava, formas maoris em execução minimalista contemporânea. Isto é hibridação como nova linguagem estética.

O virar para o neutro em termos de género

O piercing contemporâneo vai perdendo gradualmente a sua atribuição de género. Os adornos que noutros tempos foram claramente masculinos (pesados brincos viquingues) ou femininos (nath) estão disponíveis para qualquer género como escolha estética.

Tendências em 2026

Renascimento dos motivos pré-colombianos. Os designers recorrem às formas maias e astecas reinterpretadas em materiais contemporâneos.

Renascimento escandinavo. O regresso dos pesados brincos de prata de estilo viquingue, especialmente populares na Escandinávia e na Alemanha.

Estética africana. Pesados brincos de espiral de latão inspirados nos massai, em interpretações contemporâneas.

Minimalismo japonês. A influência da estética wabi-sabi sobre o piercing: superfícies mate, assimetria, imperfeição deliberada.

Renascimento mediterrânico. Ouro amarelo, turquesa e pérola branca em estilo mediterrânico (tradições grega, ibérica e italiana).

Motivos tradicionais europeus. Renascimento de formas ornamentais em brincos de diferentes tradições europeias.

Perguntas frequentes

Que piercing tem as raízes mais antigas na Europa?

O piercing de lóbulo. Ötzi (por volta de 3300 a. C.) tinha lóbulos dilatados. Desde então, a arqueologia mostra uma tradição contínua de piercing de orelha em diversas culturas europeias.

Que piercing está mais carregado culturalmente hoje?

O nath (argola nasal nupcial indiana). Continua a ser uma parte viva da cerimónia nupcial indiana, e usá-lo fora desse contexto merece reflexão.

Posso usar um septum se não tiver ligação à cultura maia ou indiana?

Sim. O septum tem uma distribuição cultural tão ampla em todo o mundo (Mesopotâmia, Maia, África, Austrália, moda ocidental contemporânea) que não pode ser atribuído a uma só cultura. É um adorno contemporâneo neutro.

O que significava um piercing na orelha esquerda para um homem na Europa medieval?

Na sua maior parte, nada de específico. No Renascimento, o brinco masculino na orelha esquerda tornou-se sinal de instrução e pertencimento aos círculos artísticos ou cortesãos. A tradição marinheira dos séculos XVII a XIX acrescentou o significado de "marinheiro experiente".

Porque é que as mulheres indianas perfuram a narina esquerda?

Segundo a teoria ayurvédica, o piercing da narina esquerda relaciona-se com a saúde reprodutiva feminina. A medicina moderna não confirmou esta ligação, mas a tradição está tão enraizada que na maioria das regiões indianas se perfura a esquerda.

Que culturas proíbem o piercing?

Não existe uma proibição religiosa estrita de todo o tipo de piercing nas grandes religiões do mundo. No entanto, no judaísmo ortodoxo e em certas denominações cristãs conservadoras, o piercing (especialmente o masculino) pode ser considerado moralmente questionável. Algumas escolas islâmicas impõem restrições aos homens.

De onde vem o piercing ocidental contemporâneo?

A moda de massas moderna começou com os hippies dos anos sessenta (influências orientais), os punks dos anos setenta e oitenta (estética rebelde), e alastrou à cultura de massas nos anos noventa. A indústria profissional do piercing tomou forma nos Estados Unidos nos anos setenta e oitenta.

O que significa um brinco na orelha direita num homem hoje?

Na maioria das culturas ocidentais, hoje nada em particular. A velha divisão "esquerda sem problema, direita suspeita" dissolveu-se em finais dos anos noventa. O piercing contemporâneo está livre desses códigos anteriores.

Que povos indígenas mantiveram as suas tradições de piercing?

Mursi e surma (Etiópia) com labrets, massai (Quénia) com espirais nos lóbulos, himba (Namíbia) com brincos e ocre, maoris (Nova Zelândia) com brincos de osso de baleia, muitos povos indígenas da América Latina. A lista é longa e são culturas vivas.

Como usam os designers contemporâneos os motivos tradicionais?

Incorporam elementos de diversas culturas nas suas coleções: formas maias em labrets contemporâneos, ornamentos indianos em naths para o mercado ocidental, motivos escandinavos em brincos de prata. Os designers reflexivos fazem-no com respeito pela fonte.

Convém conhecer a história cultural de um piercing antes de o fazer?

Não é imprescindível, mas vale a pena. Especialmente para piercings com profundo contexto cultural (septum, nath, labret). O conhecimento acrescenta profundidade de significado e protege das decisões superficiais.

É melhor ater-se a uma tradição cultural ou combinar?

Depende das motivações. Se quiseres uma ligação a uma cultura específica, a coerência dentro de uma tradição faz sentido. Se quiseres uma imagem contemporânea sintética, combinar elementos de diferentes culturas é uma parte normal da estética dos anos vinte. O fundamental é que a escolha seja consciente e não casual.

O significado do piercing muda com o tempo?

Muda constantemente. O mesmo septum há cinquenta anos significava rebelião punk; há trinta, identidade gay; há dez, estética indie; hoje é um acessório neutro. Qualquer significado atribuído na cultura contemporânea é temporário.

Conclusão

O piercing é uma das práticas de adorno corporal mais antigas do planeta. Desde Ötzi nos Alpes há 5300 anos até uma mulher em Lisboa que faz um septum num estúdio depois do trabalho, estende-se uma tradição viva que percorre todos os continentes e todas as épocas.

Conhecer esta história não é necessário para fazer um piercing. Podes furar uma orelha ou o nariz simplesmente porque queres ficar bem. Mas o conhecimento acrescenta significado. Quando compreendes que um septum não é "uma rebeldia punk", mas uma tradição de três mil anos da nobreza mesopotâmica e maia, a tua relação com esse adorno muda. Quando um nath na aba do nariz é usado de forma consciente ligado à ritualidade nupcial indiana ou com respeito por essa tradição, o brinco torna-se parte de uma conversa mais ampla.

O principal: o piercing é um adorno com história. Mesmo a sua execução mais simples é a participação numa longa cadeia de gerações e culturas. Merece tratar-se com respeito, mas sem solenidade excessiva. A estética contemporânea está livre da obrigatoriedade ritual dos antigos, mas enriquece-se com esse contexto cultural.

Outras leituras. Para um mapa geral dos piercings corporais, consulta o guia completo de tipos de piercing corporal. Para o detalhe da orelha, lê o guia de tipos de perfuração na orelha. Para compor um conjunto de piercings, consulta o ear stack: como montá-lo. Como alternativa ao piercing, existem os ear cuffs sem perfuração: um guia.

Voltar ao início

🛍 Catálogo Zevira

Prata, ouro, anéis de noivado, joalharia simbólica, conjuntos a condizer.

Ver PENDENTE MÃO DE HAMSÁ VERMELHO →

Sobre a Zevira

Na Zevira fazemos joalharia na tradição artesã de Albacete, Espanha. A história do piercing é, no fundo, a história dos adornos que se usam na perfuração, e essa linha é-nos próxima: brincos, aros para o nariz, ear cuffs e pendentes em que cada perfuração recebe a sua própria peça, tal como acontecia desde a Suméria e o Egito até aos estúdios de hoje.

Isto é o que vais encontrar connosco relacionado com as perfurações e os seus adornos:

Cada joia admite gravação personalizada. Prata de lei 925 e ouro de 14 a 18K.

Abrir o catálogo

Início

Foi útil?
Segue-nosPergunta pelo WhatsApp