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O que não se deve oferecer: superstições sobre os presentes e como contorná-las

O que não se deve oferecer: superstições sobre os presentes e como contorná-las

Oito presentes proibidos, da faca às pérolas, são entregues todos os dias em Portugal sem que o mundo se desmorone. Cada proibição tem a sua superstição e o seu atalho. O costume de pagar uma moeda por uma faca é cinco séculos mais antigo do que o cartão-presente. Aqui fica a lista completa e a maneira de a contornar.

As superstições sobre os presentes sobrevivem a religiões inteiras e a vários regimes políticos. Ninguém as ensina na escola nem as escreve num código civil, e ainda assim passam de avó para neto quase sem se deformarem. A razão é simples: um presente funciona como uma mensagem entre duas pessoas, e qualquer mensagem se pode ler ao contrário. A superstição recolhe essa inquietação e transforma-a numa regra clara, com instruções incluídas. A seguir percorremos objeto a objeto o que não se deve oferecer, de onde vem o medo e como o desativar em menos de um minuto.

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Porque é que as superstições sobre os presentes sobrevivem aos séculos

A primeira razão é psicológica. O cérebro humano procura causas onde há apenas coincidências. Alguém oferece uma navalha a um amigo, dois meses depois discutem, e a ligação entre os dois factos aparece sozinha, mesmo que a discussão já se arrastasse havia anos. Essas coincidências ficam gravadas com nitidez, enquanto as centenas de casos em que a navalha não estragou nada se esquecem sem deixar rasto. É assim que nasce e se sustenta qualquer crença: uma coincidência rara e vistosa pesa mais do que mil dias normais.

A segunda razão é o medo misturado com a vontade de controlo. Fazer um presente deixa a pessoa ligeiramente exposta. Investe dinheiro, tempo e afeto, e a reação do outro não se consegue prever. A superstição devolve a sensação de dominar a situação: se existe uma regra e existe uma maneira de a contornar, a ansiedade baixa. Os psicólogos chamam-lhe ritual de redução de incerteza, e funciona da mesma forma no pescador que sai para o mar de madrugada e em quem escolhe uma prenda para um aniversário redondo.

A terceira razão é a transmissão cultural. Estas crenças viajam bem entre gerações porque são curtas, visuais e estão ligadas a uma emoção forte. Uma avó pede uma moeda em troca da navalha que acabou de oferecer e explica porquê, e a criança memoriza o gesto para toda a vida. Quarenta anos depois repete o mesmo com os próprios netos, muitas vezes já sem acreditar no malefício, apenas por respeito ao que herdou. As superstições perduram não porque se cumpram, mas porque são cómodas de contar.

Há ainda uma componente social que raramente se menciona. Quem respeita o costume mostra que conhece as regras do seu meio. Dar uma moeda por uma tesoura equivale a dizer «sou dos vossos, respeito aquilo que respeitavam antes de mim». Ignorar o costume às vezes lê-se como descuido, e por isso muita gente o cumpre por via das dúvidas, sem sequer valorizar a parte mágica. Em Portugal esse respeito convive com uma boa dose de humor: paga-se a moeda, ri-se do assunto e todos ficam descansados. A partir daqui desdobramos as proibições concretas, e quase todas têm uma saída simples.

O que não se deve oferecer: superstições e como contorná-las

A lista de presentes proibidos coincide bastante entre culturas porque os medos humanos parecem-se: a rutura, o choro, a pobreza e a partida de alguém querido. Vamos objeto a objeto, com a crença e com o método que a desativa.

Facas e tesouras: o gume que corta a amizade

A faca é o presente mais discutido por excelência em quase todo o mundo, e a fórmula está fixada há gerações: as facas cortam a amizade. A lógica é direta, o gume separa aquilo que estava unido, e a imaginação transfere esse corte para a relação entre quem dá e quem recebe. O mesmo se diz das tesouras, do machado, da navalha e de qualquer objeto com ponta. A origem está numa imagem antiquíssima: a arma cortante pertence ao terreno da ferida e do conflito, e a mente transfere essa carga para os laços pessoais.

Contorná-la é simples e até elegante. Quem recebe entrega uma pequena moeda a quem oferece, e a faca deixa de ser uma prenda para passar a ser uma compra. Se há transação, não há dádiva, e a superstição só atua sobre a dádiva. A moeda guarda-se depois como amuleto ou devolve-se com um sorriso. O gesto é conhecido em toda a península, e também em Itália, na Finlândia e em boa parte da América Latina. Numa cultura com séculos de tradição cuteleira, onde uma boa navalha sempre foi considerada um objeto de valor e de orgulho familiar, a moeda resolveu o conflito entre o costume e a prenda desejada sem obrigar a abrir mão de nenhum dos dois.

A faca enquanto joia merece um parágrafo à parte. Um pendente em forma de lâmina ou de facão é um amuleto, não uma arma, e a crença do corte quase não se transfere para ele. Esse tipo de pendente simboliza proteção, decisão e capacidade de nos separarmos do que sobra, que é justamente o contrário de uma ameaça. Ainda assim, se a pessoa que o recebe é das que preferem não tentar a sorte, a moeda resolve a questão num segundo. A regra vale para qualquer gume: todo o presente cortante se pode reclassificar como comprado, e a proibição perde o pouco fundamento que tinha.

Relógios: a prenda que abre uma contagem decrescente

Os relógios acumulam várias crenças ao mesmo tempo. A versão mais divulgada sustenta que um relógio oferecido começa a contar o tempo que resta à relação, e por isso se desaconselha entre casais jovens. Existe uma leitura mais sombria segundo a qual o relógio mede o que resta à própria pessoa, motivo pelo qual muitos evitam oferecê-lo a idosos. No mundo chinês a proibição é muito mais rígida e tem uma causa linguística que veremos no capítulo dos países.

O remédio é o do costume: transformar a prenda em compra através de uma moeda simbólica. Quem recebe entrega o troco e o relógio passa a ser uma transação honesta em vez de uma contagem decrescente. Para quem quiser dupla garantia existe um segundo recurso, o bilhete escrito: «que este relógio só marque horas boas». A palavra reescreve o significado do objeto e a leitura inquietante cede o lugar a outra amável. O relógio continua a ser um dos presentes com mais categoria e mais utilidade que existem, e abdicar dele por causa de uma crença sai caro.

A superstição do relógio tem ainda uma explicação mundana que nada tem de mágico. Trata-se de um objeto caro e muito pessoal: cada um tem o seu gosto no mostrador, na bracelete e no tamanho. É fácil enganar-se, a pessoa não o usa, surge o desconforto e depois explica-se o fracasso deitando mão do azar. Por isso convém oferecer relógio a quem se conhece bem ou apostar num clássico neutro. Com essa precaução não falham nem a crença nem o gosto. O mesmo aviso serve para os restantes objetos que medem o tempo, do despertador de cabeceira à ampulheta decorativa.

Pérolas: o presente das lágrimas

As pérolas arrastam por toda a Europa a fama de trazerem lágrimas. A forma redonda e o brilho húmido lembram uma gota, e as crenças antigas afirmam sem rodeios que a pérola traz tristeza a quem a usa. O caso mais citado é o da noiva: repete-se que oferecer pérolas a uma noiva augura um casamento com choro, ao passo que no Japão a mesma pérola é símbolo de pureza e de união feliz. Não há consenso, e essa contradição é a melhor prova de que estamos perante uma superstição e não perante uma regra.

Há duas maneiras de a contornar. A primeira é a moeda do costume, que passa a pérola do terreno da prenda para o da compra. A segunda é mais suave e consiste em entregar a pérola acompanhada de um desejo explícito, lembrando a leitura luminosa segundo a qual a pérola é luz de luar solidificada e emblema de pureza, não uma gota de pena. Gerações inteiras de mulheres usaram pérolas com toda a felicidade, e a sua estatística de desgostos não supera a das demais. Quem procura ideias por tipo de celebração encontra as opções organizadas no guia de presentes de joalharia por ocasião, onde a pérola aparece nos contextos em que se entrega sem reserva nenhuma.

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De onde vêm as superstições sobre os presentes

A maioria destas proibições é mais antiga do que parece. Nasceram quando cada objeto custava muito e entregá-lo constituía quase um rito. Dar uma faca significava armar alguém, dar uns sapatos equivalia a prepará-lo para o caminho, dar uma carteira vazia era assinar a própria miséria. As pessoas liam esses gestos de forma literal, e os objetos carregaram-se de sentidos que chegaram até hoje sem o seu contexto original.

A tradição de oferecer: entregar um objeto como rito antigo entre duas pessoas
Durante séculos oferecer foi um rito, não um mero trâmite. Ao passar um objeto de mão em mão, acreditava-se que com a coisa viajavam também as intenções e o destino de quem a entregava. Daí surgiram as proibições: se o objeto carrega um significado, convém neutralizar de antemão o significado mau.

A religião deixou a sua marca, ou melhor, deixou-a a sua convivência com a magia popular. A Igreja raramente aprovou estas crenças, mas também não conseguiu apagá-las, de modo que as superstições sobreviveram em paralelo à liturgia. Um camponês podia comungar de manhã e à tarde aceitar uma moeda em troca da navalha oferecida sem sentir contradição nenhuma. Assim o costume ganhou dupla blindagem: não o eliminou nem o bom senso nem a fé oficial. Em muitas aldeias esse cruzamento deixou fórmulas mistas, como abençoar o objeto entregue ou acompanhá-lo de uma oração breve, que funcionam exatamente como a moeda.

O costume de pagar uma moeda por um presente cortante, que converte a dádiva em compra
A moeda pela faca não é um pagamento, mas um pequeno rito que passa a dádiva para o terreno da transação. Um único gesto muda o género do acontecimento: o que não se pode oferecer já se pode vender por um preço simbólico. O costume revelou-se tão prático que sobreviveu séculos e serve para qualquer presente problemático.

O terceiro pilar é a língua. Muitas destas crenças assentam em jogos de palavras: em chinês «oferecer um relógio» soa quase como «acompanhar um funeral», e daí vem a proibição. A carteira vazia associa-se ao vazio em casa por pura imagem, não por experiência. Esse tipo de frases memoriza-se melhor do que os dados, por isso transmite-se com mais fiabilidade. Seguimos com os objetos ligados ao dinheiro, ao choro e à partida de casa.

Carteira ou porta-moedas vazios: o presente que chama a pobreza

Oferecer uma carteira, um porta-moedas ou uma mala vazios equivale, segundo a crença, a desejar ao outro que a bolsa continue vazia, ou seja, pobreza. A lógica é visual: tal como se entrega, assim ficará. O mesmo princípio aplica-se aos mealheiros, aos guarda-joias e a qualquer recipiente associado ao dinheiro. O presente parece bom e prático, mas ao supersticioso deixa um travo incómodo que estraga o momento de abrir o embrulho.

A solução é elementar e até agradável: mete-se lá dentro uma moeda ou uma nota pequena para que a carteira não viaje vazia. A crença inverte-se e, em vez de miséria, promete ganho, porque o dinheiro que já está lá dentro atrai o que virá. Serve qualquer moeda, mesmo a mais pequena, já que o relevante é que o recipiente não esteja oco. O truque é conhecido por quase toda a gente que alguma vez ofereceu uma carteira, e transforma uma crença inquietante num gesto de boa vontade.

Este costume esconde ainda um sentido prático que costuma perder-se atrás da parte mágica. A moeda lá dentro ensina a quem recebe como tratar o objeto: a carteira já está a funcionar, o primeiro passo deu-o outra pessoa. Há quem introduza uma moeda de valor concreto por superstição pessoal e quem meta trocos estrangeiros como recordação de uma viagem, o que transforma o detalhe em anedota. A ideia de fundo é única: um presente que fala de prosperidade deve parecer próspero desde o primeiro segundo, e não uma bolsa de pele oca.

Lenços: o tecido do choro e da despedida

O lenço como presente associa-se diretamente às lágrimas, porque com ele se enxugam, e daí que se leia como um anúncio de penas. Em várias zonas a crença reforça-se acrescentando que o lenço traz separação, já que também se agita ao despedir do cais ou da gare. A imagem do lenço a acenar numa despedida ficou gravada na memória coletiva dos povos costeiros e das estações de comboio, e essa cena pesa mais do que qualquer argumento. A prenda é modesta, mas a pessoa supersticiosa olha-a de soslaio, sobretudo se a dão a um casal ou a um familiar próximo.

Neutraliza-se com a moeda de sempre ou acompanhando o lenço de uma graça e de uma boa palavra: «para enxugar apenas lágrimas de alegria». Outra via consiste em não o entregar solto, mas dentro de um conjunto com algo neutro, de modo que o acento se desloque e a leitura sombria se dilua. No fundo o lenço é inofensivo, e a crença apoia-se apenas numa associação doméstica com o choro, fácil de tapar com a intenção de quem oferece.

Espelhos: sete anos e a memória do dono anterior

O espelho arrasta uma mitologia especialmente rica. Por um lado, considera-se um presente útil que devolve o negativo a quem o emite. Por outro, circula a crença de que o espelho guarda a imagem de todos os que nele se olharam, pelo que um espelho oferecido pode trazer para casa a energia alheia ou até as desgraças do proprietário anterior. A isto soma-se a regra mais conhecida de todas: partir um espelho traz sete anos de azar, número que vem da ideia romana de que a alma se renovava a cada sete anos e que um vidro partido a deixava danificada durante esse ciclo.

O mais cómodo é oferecer um espelho novo, sem história prévia. Quem quiser reforçar o gesto limpa-o enquanto formula um desejo e acrescenta a moeda do costume. Alguns entregam-no virado para baixo ou embrulhado, para que só desperte já na sua casa definitiva. Tudo isto são rituais de sossego: não mudam o vidro, mas baixam a ansiedade, e um bom espelho continua a ser um presente prático e bonito. Com os espelhos antigos de segunda mão a prudência é maior, e o costume manda contar em voz alta de onde vem a peça antes de a entregar.

É interessante que a reputação dupla do espelho nasça precisamente da sua física. Devolve a luz e a imagem, e a partir daí é fácil imaginar que, junto com o reflexo, também retém aquilo que viu. Sobre essa imagem cresceram crenças protetoras e crenças temíveis ao mesmo tempo: uns penduravam espelhos para assustar os maus espíritos com o próprio rosto, outros tapavam-nos com panos nas casas onde havia luto, costume que ainda se recorda em muitas terras. O espelho como presente herda as duas leituras ao mesmo tempo, e escolher entre elas depende da pessoa, não do vidro.

Sapatos: a pessoa vai-se embora a caminhar da tua vida

Os sapatos são talvez a proibição mais viva do mundo latino. A crença diz que quem recebe uns sapatos oferecidos se irá embora a caminhar com eles: de casa, da relação, da tua vida. Aplica-se com especial rigor entre casais e entre pais e filhos jovens, e repete-se com a mesma força de um lado e do outro do Atlântico. Algumas versões acrescentam que os sapatos trazem discussões, porque quem oferece equipa o outro para uma viagem que o afasta.

A saída é a do costume: quem recebe entrega uma moeda e os sapatos passam a estar comprados, não oferecidos. Entre casais existe uma variante bonita que consiste em meter lá dentro um bilhete ou um pequeno detalhe com o desejo de voltar sempre a casa. A parte prática também conta, porque acertar no número e no gosto no calçado é difícil, por isso convém escolhê-los acompanhado da pessoa ou deixar em aberto a possibilidade de troca. Com essas duas precauções nem a crença nem o número estragam o presente.

Crisântemos e flores de defuntos: o ramo que não se leva a uma festa

As flores oferecem-se com enorme naturalidade, e ainda assim há um ramo que ninguém leva a uma celebração: o de crisântemos. A associação vem do calendário, porque o crisântemo floresce no fim de outubro e tornou-se a flor com que se enfeitam as campas no Dia de Todos os Santos. Esse costume, partilhado com a França e a Itália, fixou o vínculo entre a flor e o cemitério ao ponto de um ramo de crisântemos num aniversário se ler como um erro grave, mesmo que quem o leve não pretenda nada de semelhante.

A forma de evitar o problema é simples: conhecer o calendário simbólico do país a que se oferece. No Japão o crisântemo é a flor imperial e figura no brasão da casa reinante, por isso ali a mensagem é exatamente a contrária. Se a flor agrada e se quer oferecer à mesma, basta combiná-la num ramo misto e com cores vivas, onde deixa de se ler como oferenda fúnebre. E, na dúvida, existem dezenas de flores sem carga nenhuma: rosas, gérberas, lisianthus ou um ramo silvestre resolvem a situação sem discussão.

A cor amarela: a superstição mais teatral de todas

O amarelo ocupa um lugar único entre as crenças porque a sua má fama é quase profissional. No teatro o amarelo está praticamente proibido: não se veste, não se decora com ele e muitos atores evitam até nomeá-lo. A explicação mais repetida atribui a origem a um dramaturgo francês do século dezassete que morreu depois de representar uma peça vestido dessa cor, e a anedota viajou de companhia em companhia até se tornar norma não escrita. Dos palcos saltou para a rua, e ainda há quem evite oferecer peças de roupa ou flores amarelas por via das dúvidas.

Fora do âmbito teatral a crença é muito mais fraca, e convém lembrar que o amarelo é a cor do sol, do ouro e do açafrão. Em muitas regiões o ramo de mimosa amarela oferece-se como emblema de alegria e de primavera. Para contornar qualquer desconforto basta misturar tons no ramo ou acompanhar o objeto amarelo de umas palavras claras sobre o que se deseja. Se quem recebe não pertence ao mundo do espetáculo, o mais provável é que nem sequer conheça a proibição.

Guarda-joias vazio e joias entregues sem moeda

Oferecer um guarda-joias vazio repete o problema da carteira: promete vazio. Existe ainda uma subtileza que afeta as próprias joias. Algumas tradições sustentam que uma peça valiosa entregue sem mais pode não chegar a assentar no seu novo dono se não se cumprir um pequeno rito de troca. Por isso, em certas famílias, também se entrega uma moeda em troca de um anel, de um pendente ou de uma pulseira, ainda que não tenham nada de cortante.

A solução coincide com a da carteira: dentro do guarda-joias coloca-se uma moeda, uma peça pequena ou um bilhete, de modo que não viaje oco. A joia acompanha-se de uma boa palavra ou da mesma moeda simbólica, e o assunto fica resolvido. Na prática a joia é um dos melhores presentes possíveis e quase não arrasta crenças escuras, sobretudo quando se trata de um amuleto ou de um símbolo com um significado claro e positivo. Um presente assim leva incorporado o desejo de proteção e de sorte, e as leituras sombrias não se lhe colam.

O método universal para contornar qualquer superstição

A boa notícia é que quase todas as crenças sobre presentes se desativam com um de dois recursos. Não é preciso decorar uma regra por objeto, basta perceber o princípio: a superstição atua sobre a dádiva, não sobre a transação nem sobre o desejo expresso. Muda-se o género do acontecimento e a proibição fica sem efeito.

A moeda simbólica que converte a dádiva em compra

O recurso principal é o pagamento simbólico. Quem recebe entrega uma moeda pequena e o presente passa a ser formalmente uma compra. Se a pessoa comprou a faca, o relógio ou o espelho, não há nada que cortar, que contar nem que herdar de um dono anterior, porque uma transação é neutra por definição. A moeda pode ser de qualquer valor, já que a sua função é puramente simbólica. Depois costuma guardar-se como pequeno talismã ou devolver-se a quem ofereceu como recordação do momento. O gesto funciona com facas, tesouras, relógios, espelhos, pérolas, sapatos e com qualquer objeto suspeito, o que o torna a ferramenta mais rentável de todo o repertório.

O bilhete com o desejo escrito

O segundo recurso está pensado para quem acha a moeda demasiado prosaica: um bilhete com um desejo. Duas linhas calorosas redefinem o sentido do objeto. O relógio marca horas boas, o lenço enxuga lágrimas de alegria, os sapatos levam sempre de volta a casa. A palavra atua como feitiço invertido, porque em vez de lançar algo, retira-o. No plano psicológico o bilhete reforça ainda o presente, já que uma mensagem pessoal se recorda mais tempo do que o próprio objeto. Os dois recursos podem combinar-se: aceita-se a moeda e acrescenta-se o bilhete, e assim até o recetor mais receoso fica descansado.

Vale a pena esclarecer o que fazer quando o objeto problemático já foi entregue sem rito nenhum. Não é preciso alarmar-se, porque uma superstição não é uma sentença, mas um costume. Pode pedir-se a moeda a posteriori, mesmo semanas depois, ou simplesmente dizer umas palavras amáveis. Se a relação é boa, nenhum objeto a vai partir, e se é má, a faca ou o relógio não têm culpa. Estas crenças são úteis sobretudo como pretexto para dedicar um pouco mais de atenção à outra pessoa, e esse é o seu verdadeiro contributo.

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Superstições sobre presentes por países

As proibições existem em quase toda a parte, mas o catálogo do que é proibido muda de uma cultura para outra. A comparação mostra até que ponto são convencionais, porque o que num país é tabu noutro é o melhor presente possível. Esse contraste é o melhor argumento contra levar estas regras demasiado a sério.

Portugal: facas, sapatos e o dia aziago

Na tradição portuguesa as proibições mais conhecidas afetam as facas e as tesouras, que cortam a amizade, os sapatos, que levam a caminhar quem os calça, e a carteira vazia, que promete pobreza. Quase todas se resolvem com a moeda, um gesto que aqui se faz com naturalidade e até com humor. Quanto ao dia aziago, convivem duas leituras: a sexta-feira 13, que chegou sobretudo através do cinema, e a mais antiga terça-feira 13 da tradição ibérica, resumida no ditado que aconselha «nem cases nem embarques». A terça-feira está dedicada a Marte, deus da guerra, e essa associação bastou para a carregar de má fama. Os amuletos, as joias com significado e o dinheiro bem apresentado consideram-se, em contrapartida, presentes seguros.

Itália: lenços, o roxo e o número dezassete

Os italianos evitam oferecer lenços pela ligação às lágrimas e aos funerais, e têm um cuidado especial com o número dezassete, que ali ocupa o lugar do treze. A cor roxa evita-se nos presentes e no embrulho porque se associa ao luto e ao tempo da Quaresma, quando as imagens das igrejas se cobriam com tecidos desse tom. A superstição é tão sólida que muitas lojas evitam mesmo o papel de embrulho roxo. Do lado positivo, um amuleto é ali o melhor desejo possível, e o corno vermelho napolitano encabeça a lista: quem quiser entender a sua história e o seu uso encontra-os no guia do cornicello, o corno italiano.

França: crisântemos, facas e o perfume

A França partilha o receio dos objetos cortantes e o costume da moeda, mas leva a regra das flores muito mais longe. O crisântemo é ali, de forma inequívoca, a flor dos defuntos, tanto que um ramo de crisântemos num jantar resulta ofensivo sem discussão possível. Os cravos arrastam também uma fama tíbia nalgumas regiões, onde se consideram flor de mau agoiro ou simplesmente um presente de pouco apreço. Existe ainda a crença difundida de que oferecer perfume a um par faz com que a relação se evapore tal como a fragrância, motivo pelo qual se prefere que a pessoa o escolha sozinha. Em sentido contrário, o pão e o sal continuam a ser a prenda clássica de casa nova e significam abundância e sabor debaixo do novo teto.

Alemanha: nada por antecipação e gumes com moeda

Na Alemanha também não se oferece nada afiado sem a moeda do costume, tal como no sul da Europa, e existe uma regra própria que surpreende quem a descobre: dar os parabéns antes da data considera-se mau agoiro, por isso as felicitações antecipadas guardam-se com cuidado até o dia chegar. Os relógios levantam reservas nalguns círculos por causa do tempo que passa, embora a crença seja mais fraca do que na Ásia. Com os lírios e com as flores brancas também há prudência pelo seu uso fúnebre. No conjunto, a cultura alemã valoriza o presente prático e bem escolhido acima do simbólico, e tem menos superstições do que rituais de correção.

Japão: os números quatro e nove

O protocolo japonês do presente é exigente e tem estas crenças tecidas por dentro. Evitam-se os números quatro e nove porque o primeiro soa igual à palavra morte e o segundo se parece com a palavra sofrimento, por isso um conjunto de quatro chávenas descarta-se sem pensar. As flores brancas e em particular os crisântemos ligam-se aos funerais e não aparecem em celebrações alegres. Os objetos embrulham-se com esmero, e tanto o preço como a apresentação se calculam para não pôr ninguém num compromisso. Ali a superstição e a cortesia formam quase uma só coisa, e o embrulho comunica tanto como o conteúdo.

China: o relógio é tabu absoluto

O caso mais rotundo de proibição estrita é o relógio chinês. A expressão «oferecer um relógio» soa quase idêntica a «acompanhar alguém no seu funeral», de modo que os relógios de parede e de pulso se descartam por completo, sobretudo se o destinatário é uma pessoa idosa. Também se evitam os presentes relacionados com o número quatro pelo mesmo motivo fonético, e os guarda-chuvas, porque a palavra se parece com a de separar-se. Em contrapartida, a cor vermelha, os objetos em par e o dinheiro dentro de um envelope vermelho consideram-se emblemas de sorte e de prosperidade. O exemplo chinês demonstra com clareza como a língua fabrica superstições sem necessidade de qualquer desgraça real.

Comparando países aparece logo um padrão: quase todas estas crenças nascem de uma imagem ou de uma semelhança fonética, não da experiência. Por isso o mesmo objeto pode ser presente proibido ou presente desejado consoante a língua em que se fala dele. Conhecer os costumes alheios evita situações incómodas ao oferecer algo a alguém de outro país, e convém tratar os próprios como um jogo cultural mais do que como uma lei.

O que oferecer sem superstições e com bom significado

Quem não quiser lembrar-se de cada vez da moeda e do bilhete tem uma alternativa: existe uma categoria de presentes que não arrasta crenças escuras. Pelo contrário, levam incorporado desde a origem um desejo de bem, de proteção e de sorte. Em primeiro lugar estão os amuletos e as joias simbólicas.

O amuleto como presente é um dos poucos casos em que a tradição se põe de acordo a favor. Segundo muitas crenças, um amuleto oferecido protege mais do que um comprado para si próprio, precisamente porque leva a boa intenção de quem o entrega. Um pendente protetor, um símbolo do signo do zodíaco, uma pedra talismã ou uma joia com um significado claro leem-se como um «que te proteja» e não exigem moeda nenhuma. A revisão completa de tipos e significados está no guia de amuletos, proteções e talismãs, onde é fácil escolher a peça consoante o feitio da pessoa.

Amuletos e joias simbólicas

Os pendentes de proteção, do corno italiano à mão de Fátima e ao olho azul turco, oferecem-se exatamente como um desejo de bem. Esse presente fixa à partida um significado luminoso, e o recetor supersticioso não encontra por onde se agarrar. Uma joia com um símbolo de sorte, de amor ou de amparo funciona como o bilhete com o desejo escrito, só que expressa em metal e em pedra. Quem hesita entre símbolos pode comparar o olho turco ou nazar com a hamsa ou mão de Fátima, duas peças que partilham propósito e diferem na história. Esta é uma das razões pelas quais a joalharia continua a ser um presente infalível: transmite uma mensagem em vez de uma inquietação.

O amuleto tem ainda outra vantagem como presente. Pode dar-se-lhe um sentido pessoal com muita facilidade: a pedra do mês de nascimento, o símbolo do signo do zodíaco, o emblema de um elemento ou a inicial do nome. Um presente assim percebe-se como pensado e não como resolvido à última hora, e quem o recebe conserva-o mais tempo do que um objeto neutro. Até a pessoa mais cética aceita um amuleto sem problema, porque por trás há atenção e boa intenção, não um presságio sombrio. Por isso, em culturas carregadas de proibições, o amuleto aparece quase sempre na lista do que é permitido e desejado.

O que oferecer para não ofender ninguém

As opções mais seguras são as que não têm relação com a separação, o choro ou a pobreza, e que além disso se ajustam ao gosto da pessoa. Funcionam muito bem as joias, os livros, os doces, os objetos bons para a casa e as experiências, como uma escapadinha curta ou uma oficina. Na dúvida, o cartão-presente resolve ao mesmo tempo o problema do gosto e quase todas as superstições, porque já constitui uma compra feita e não uma dádiva com subtexto mágico. A regra de fundo é simples: pensar em quem recebe antes de pensar na crença, e o presente sairá bem quase sempre.

Presentes proibidos e como salvá-los
PresenteSuperstiçãoComo salvá-loRigor da crença
Facas e tesourasCortam a amizadeDevolver uma moeda
RelógiosContagem decrescente do tempoUma moeda e umas linhas
PérolasTrazem lágrimasMoeda e um bom desejo
Carteira vaziaTraz pobrezaMeter uma moeda dentro
SapatosA pessoa vai-se emboraDevolver uma moeda
CrisântemosFlores de cemitérioEscolher rosas ou tulipas

Mais objetos rodeados de superstições

As oito proibições principais não esgotam o catálogo. A tradição oral foi rodeando de crenças dezenas de objetos do dia a dia, e quase todos têm a mesma saída: a moeda ou a boa palavra. Repassamos os que aparecem menos nas listas, mas que desconcertam da mesma forma quem vai oferecer.

Alfinetes, agulhas e tudo o que pica

Os alfinetes, as agulhas e os ganchos partilham categoria com a faca: se o objeto pica, pica também a relação e anuncia pequenas discussões e zangas. Há um pormenor acrescentado sobre o alfinete de dama protetor, que em várias regiões não se entrega em silêncio, mas com uma explicação, porque um objeto de amparo transmite-se com instruções. A proibição contorna-se tal como com os gumes, entregando uma moeda para que o que pica passe a estar comprado. As costureiras acrescentam a sua própria regra: a agulha oferecida revê-se para que não esteja torta nem oxidada, porque um objeto em mau estado transforma o detalhe em descuido.

Velas: entre a festa e o funeral

As velas desdobram-se em duas leituras opostas. As decorativas, as aromáticas e as de aniversário oferecem-se sem reserva nenhuma como emblema de calor e de lar. As de cera lisa, pelo contrário, remetem para a igreja e para o velório, por isso a pessoa supersticiosa lê-as como anúncio de luto. O vínculo é especialmente forte pelo peso das velas nas procissões e nas capelas ardentes. Suavizar o significado é fácil: oferecem-se dentro de um conjunto com algum detalhe agradável, num embrulho alegre e com um desejo de tardes tranquilas. O acento desloca-se do rito para a festa e a leitura sombria retira-se.

Calendários, despertadores e ampulhetas

O calendário, o despertador, a ampulheta e qualquer objeto que meça o tempo caem na mesma categoria do relógio de pulso. A crença é idêntica: o presente parece iniciar uma contagem decrescente para uma separação ou para o fim de um prazo. O calendário com uma data marcada inquieta especialmente, porque parece assinalar um desfecho concreto. A ampulheta é ainda mais gráfica, já que a areia que cai se vê. A ansiedade retira-se com os recursos conhecidos, a moeda mais um bilhete que peça ao objeto para medir apenas dias bons, e o presente prático continua tão prático como antes.

Dinheiro: a quantia, o envelope e a etiqueta

O dinheiro considera-se em muitas culturas um presente neutro e até afortunado, mas a etiqueta que o rodeia é rígida. As notas não se entregam nuas nem de mão em mão, porque assim se leem como pagamento e não como atenção: vão num envelope ou dentro de um cartão com umas linhas escritas. Em casamentos e comunhões o envelope é diretamente o formato esperado, e o gesto acompanha-se de uma felicitação em voz alta. Na cultura chinesa acontece o contrário quanto à visibilidade, porque o envelope vermelho se entrega com as duas mãos e a sua cor faz parte da mensagem de prosperidade. O bom senso coincide em toda a parte: o dinheiro oferece-se de forma que sublinhe o carinho e não o cálculo.

Joias em segunda mão e peças herdadas

Há uma inquietação específica à volta dos objetos usados, sobretudo das joias que já tiveram dono. A crença sustenta que um anel, um pendente ou uma pulseira conservam o rasto do proprietário anterior, o seu ânimo e a sua sorte, de maneira que quem a recebe herda também uma história alheia. Por isso as peças antigas e as relíquias de família entregam-se com explicação: conta-se quem a usou, limpa-se a joia e acompanha-se de umas palavras. Se a história é luminosa, a crença inverte-se e o presente ganha valor precisamente pela memória que arrasta. Ao cético basta saber que o metal e a pedra não armazenam nada além das marcas do uso, e que o valor de uma relíquia está no vínculo entre gerações.

Retratos de pessoas vivas

O quadro não está proibido, mas o retrato pede cautela. A crença popular desaconselha oferecer a imagem de uma pessoa viva concreta, com o argumento de que o retrato prende o destino de quem nele aparece e o pode prejudicar. A reserva aumenta com os temas sombrios, com os poentes e com as cenas de decadência, porque se entende que um quadro fixa o ânimo da casa onde está pendurado. Contorna-se escolhendo um motivo luminoso e uma moldura agradável, e entregando o retrato só com o consentimento e a alegria da pessoa retratada. As paisagens, as flores e a abstração quase não arrastam crença nenhuma.

Cato e plantas com picos

As plantas em vaso geraram o seu próprio repertório. O cato tem má fama porque pica, e segundo a crença pica também a relação ou atrai a solidão a quem o tem no quarto. As trepadeiras carregam nalgumas regiões a fama de expulsar os homens de casa, uma ideia tardia que contradiz o simbolismo antigo da hera. Há leituras positivas igualmente firmes: a árvore-do-dinheiro oferece-se para a prosperidade e o ficus para a harmonia familiar. Com uma pessoa supersticiosa a solução passa por escolher conscientemente uma planta de boa reputação em vez de uma ambígua. A botânica está do lado do cético, porque nenhum vaso decidiu alguma vez a vida sentimental de ninguém.

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Superstições de presente em diferentes países

O mesmo objeto pode ser o melhor presente num país e quase uma ofensa noutro. Esta tabela reúne as proibições mais conhecidas, e na maioria dos casos a causa está na língua ou no calendário religioso, e não em qualquer desgraça comprovada.

País O que não se oferece Porquê
Portugal Facas, sapatos, carteira vazia O gume corta a amizade, os sapatos afastam a caminhar, o vazio promete pobreza
Itália Lenços, roxo, o número dezassete O lenço traz choro, o roxo é cor de luto, o dezassete é o número aziago
França Crisântemos, cravos, perfume O crisântemo é flor de cemitério, o cravo traz mau agoiro, o perfume evapora a relação
Alemanha Gumes sem moeda, felicitações antecipadas O cortante parte o vínculo, antecipar-se à data considera-se mau agoiro
Japão Conjuntos de quatro peças, o número nove Quatro soa como morte e nove como sofrimento
China Relógios, guarda-chuvas, peras «Oferecer relógio» soa a funeral, «guarda-chuva» a separar-se e «pera» a repartir-se

O padrão salta à vista: na maioria das vezes a crença nasce de uma palavra e não de um sucesso. Onde relógio e funeral soam diferente, o relógio oferece-se sem medo nenhum. Por isso a melhor forma de não dar um passo em falso com alguém de outro país consiste em perguntar por um par de proibições locais antes de comprar, e tratar as próprias como parte do folclore.

What should I gift?

What is the occasion?

De onde nascem as superstições sobre os presentes

Se pusermos de parte os objetos concretos, todas estas proibições partilham uma raiz: o medo. Desmontá-lo por partes é mais útil do que discutir se a crença se cumpre ou não.

O medo da inveja e do mau-olhado

Boa parte destas ideias cresceu sobre a crença no mau-olhado. Um presente caro ou demasiado afortunado parece atrair a inveja, e a inveja, na mentalidade popular, é material e perigosa. Daí o costume de tirar importância ao presente, de lhe acrescentar um gesto protetor ou de o acompanhar de um amuleto que desvie o olhar alheio. O mesmo medo explica por que razão nos acontecimentos felizes se evita ostentar e mostrar o mais valioso: guardar a sorte parece mais prudente do que pôr à prova a boa vontade do vizinho. Na cultura mediterrânica essa lógica é tão antiga que deixou objetos concretos, do olho azul à figa de azeviche que se punha aos recém-nascidos.

A lógica da troca frente à dádiva pura

A segunda raiz é a velha intuição de que nada se recebe de graça. A dádiva cria uma dívida invisível, e alguns objetos resultam demasiado potentes para se entregarem sem contrapartida. A moeda cancela essa dívida: o acontecimento converte-se numa troca limpa onde ninguém fica a dever nada. Os antropólogos observaram há muito que em muitas culturas o presente obriga a responder, e o costume da moeda simplesmente fecha esse balanço com um gesto visível e barato. Visto assim, o que parece magia é na verdade contabilidade emocional.

Porque é que estas crenças resistem tanto

As superstições aguentam não porque funcionem, mas porque saem baratas de cumprir. O rito ocupa um segundo e a tranquilidade que traz nota-se. Atua o raciocínio do por via das dúvidas: custa pouco respeitá-lo e talvez seja verdade, por isso a pessoa entrega a moeda sem acreditar no malefício. Somem-se a transmissão entre gerações e a ligação às emoções fortes que rodeiam qualquer presente, e aparece uma tradição que nem o bom senso nem a estatística conseguem deslocar. As crenças que exigem muito esforço perdem-se; as que exigem uma moeda sobrevivem séculos.

Um olhar cético sem sobranceria

A conclusão sensata é sóbria: estas crenças não se cumprem mais do que qualquer coincidência, e o mesmo objeto resulta proibido ou desejado consoante o país e a língua. Rir de quem respeita o costume não acrescenta nada. Estas práticas são uma maneira de mostrar atenção e boa educação, mais um pretexto para desejar o bem a alguém. O razoável passa por conhecer de onde vem cada proibição, contorná-la com tranquilidade e não converter a superstição nem em medo nem em objeto de troça.

Bons presentes sem superstições

O mais prático não é discutir com as crenças, mas escolher presentes que simplesmente não as tenham. Existe toda uma família de objetos que levam um significado claro e positivo desde o início e não precisam de moeda nem de bilhete.

Objetos em par e símbolos partilhados

Os presentes em par leem-se como um desejo de permanecer juntos, por isso as leituras sombrias não se lhes colam. Dois pendentes iguais, anéis que formam uma peça ao juntarem-se, pulseiras a condizer ou duas metades que encaixam num só símbolo transmitem união e proximidade. Oferecem-se entre casais, entre amigos e entre familiares, e em vez de separação anunciam vínculo. Na tradição oriental a paridade considera-se por si só um sinal afortunado, e um par bem escolhido augura harmonia. As combinações mais habituais e os seus significados estão reunidos no guia de joias para casais.

A gravação e o significado pessoal

A gravação converte qualquer peça num presente dirigido a uma pessoa concreta, impossível de confundir com um detalhe de compromisso. Um nome, uma data, uma frase curta ou as coordenadas de um lugar importante tornam o objeto único, e a superstição recua perante uma atenção tão evidente. Um medalhão gravado, um pendente com uma inicial ou uma pulseira com uma data leem-se como um gesto pensado e não como uma compra de última hora. Esse tipo de presente conserva-se mais tempo do que um neutro precisamente porque por trás há uma pessoa e uma história concretas. As opções técnicas, os tipos de letra e as superfícies que admitem gravação explicam-se no guia da gravação em joias.

Amuletos com um significado claro

Os amuletos continuam a ser a aposta mais segura, já que segundo muitas crenças um amuleto oferecido protege mais do que um comprado para si próprio, porque leva a intenção de quem o entrega. O símbolo do signo do zodíaco, a pedra do mês de nascimento, o emblema de um elemento ou um pendente protetor leem-se como um «que te proteja» e não pedem moeda nenhuma. A secção de simbologia e o catálogo de amuletos ajudam a ajustar a peça ao feitio da pessoa, e o gesto fica carregado de um significado luminoso ao qual o recetor mais receoso não encontra nenhuma falha.

Dados que surpreendem

Estas crenças estão cheias de reviravoltas inesperadas. Uns quantos dados mudam a maneira de olhar para as proibições mais repetidas.

O relógio e o funeral são linguística, não mistério. A proibição chinesa assenta apenas na semelhança entre duas expressões, não em desgraças reais. Nas línguas onde não existe essa semelhança, o relógio oferece-se em casamentos e aniversários como emblema de eternidade.

A tradição ibérica teme a terça-feira 13. Enquanto o mundo anglo-saxónico receia a sexta-feira 13, o velho ditado avisa que em terça-feira 13 «nem cases nem embarques». A causa está em Marte, deus da guerra, e na queda de Constantinopla numa terça-feira, dois factos que bastaram para fixar a superstição.

O amarelo do teatro é uma superstição com data de nascimento. A recusa do amarelo nos palcos atribui-se à morte de um dramaturgo francês do século dezassete depois de atuar vestido dessa cor. Fora do teatro o amarelo continuou a ser a cor do sol, do ouro e do açafrão.

Os sete anos do espelho partido vêm de Roma. Os romanos acreditavam que o corpo se renovava a cada sete anos, por isso um reflexo partido danificava a pessoa durante todo esse ciclo. O número sobreviveu intacto vinte séculos, ainda que o espelho passasse do bronze polido ao vidro barato.

A moeda é um truque jurídico, não um feitiço. O costume converte uma doação numa compra e venda para contornar a proibição sobre a dádiva perigosa. Durante séculos as pessoas aproveitaram de forma intuitiva que a superstição distingue entre presente e transação, algo que nenhum manual de magia explica.

Um amuleto partido é boa notícia em muitas tradições. Se o pendente oferecido se parte, a crença diz que absorveu o golpe e cumpriu a sua função protetora. A mesma lógica aplica-se ao presente estragado: o objeto carrega com o negativo em vez de o trazer.

O dezassete assusta os italianos como o treze aos demais. Em Itália o número temido é o dezassete, porque a sua escrita romana XVII se pode reordenar até formar uma palavra latina que significa «vivi», ou seja, «morri». Outra crença nascida das letras e não dos factos.

O alfinete de dama protetor é mais antigo do que muitas religiões. A fíbula usava-se como amparo já na antiguidade, e o costume de prender o mau-olhado com um alfinete chegou até hoje quase sem mudanças. O que parece uma mania de avó vem de amuletos com milhares de anos.

A hera passou de símbolo de fidelidade a planta suspeita. Na antiguidade a hera representava o apego eterno e com ela se entrançavam coroas nupciais. A sua fama de expulsar os homens de casa é uma crença doméstica tardia que virou por completo o significado original.

O envelope vermelho sobreviveu ao salto para o telemóvel. O costume oriental de oferecer dinheiro dentro de um envelope vermelho revelou-se tão resistente que se tornou tradição digital, com milhares de milhões de envelopes eletrónicos enviados em cada festa. A crença não morreu, apenas mudou de suporte.

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Perguntas frequentes

Pode contornar-se qualquer superstição sobre um presente?

Praticamente qualquer uma. Os dois recursos universais, a moeda simbólica e o bilhete com um desejo, desativam a proibição em quase todos os objetos discutidos. A moeda transforma a dádiva em compra, e a crença só atua sobre a dádiva. O bilhete redefine o significado do objeto em chave positiva. Combinando ambos fica descansado até o recetor mais receoso.

O que oferecer para não ofender ninguém?

Escolha algo que não tenha relação com a separação, o choro ou a pobreza, e ajuste-o ao gosto da pessoa. Funcionam sempre as joias, sobretudo os amuletos com um significado amável, os livros, os doces e as experiências. O cartão-presente resolve ao mesmo tempo a dúvida sobre o gosto e a maioria das crenças, porque já constitui uma compra feita.

Estas superstições são coisa séria ou pura crença?

São tradição cultural, não lei natural. O seu índice de cumprimento não supera o de qualquer coincidência, e o mesmo objeto resulta proibido num país e desejado noutro. O sensato é tomá-las como um jogo de cortesia: respeitá-las por consideração para com quem acredita, sem organizar a vida à volta delas.

Porque é que na tradição ibérica se teme a terça-feira 13 e não a sexta?

Porque a terça-feira está dedicada a Marte, deus da guerra, e o velho ditado fixou-a como dia para não casar, não embarcar e não sair de casa. A queda de Constantinopla numa terça-feira reforçou a ideia. A sexta-feira 13 anglo-saxónica chegou depois através do cinema e convive com a terça sem a ter substituído.

É verdade que não se podem oferecer sapatos?

É a crença mais viva do mundo latino e diz que quem os recebe se irá embora a caminhar da tua vida. Desativa-se como as demais: a pessoa entrega uma moeda e os sapatos passam a estar comprados. Entre casais costuma meter-se lá dentro um bilhete com o desejo de voltar sempre a casa, e o assunto fica fechado.

O que faço se já ofereci algo proibido sem rito nenhum?

Não aconteceu nada grave. Pode pedir-se a moeda a posteriori, mesmo semanas mais tarde, ou simplesmente dizer umas palavras amáveis. Estas crenças não são sentenças, e uma boa relação não se parte por causa de uma faca ou de um relógio. Se ficar mais descansado, repita o gesto quando se virem.

Oferecer dinheiro também traz azar?

Na maioria das culturas acontece o contrário. O dinheiro considera-se um presente neutro e até afortunado, e na China o envelope vermelho com notas é um emblema de prosperidade. A única precaução afeta a carteira vazia, que se entrega sempre com uma moeda dentro para que não anuncie pobreza. As notas vão em envelope ou dentro de um cartão, nunca nuas.

Porque é que precisamente uma moeda desativa a crença?

Porque converte o presente numa transação. A superstição proíbe oferecer a faca ou o relógio, mas não proíbe vendê-los. Ao entregar uma quantia simbólica, quem recebe compra formalmente o objeto e o subtexto mágico desaparece. O valor da moeda não importa nada, o que conta é que exista a troca.

Podem oferecer-se joias sem ritual nenhum?

Sim, as joias figuram entre os presentes mais seguros, em especial os amuletos e os símbolos com um significado positivo. Levam incorporado um desejo de proteção ou de sorte e não arrastam leituras sombrias. Se a peça é de muito valor pode aceitar-se uma moeda simbólica, embora isso responda mais ao respeito pelo costume do que a uma necessidade real.

As pérolas trazem lágrimas a sério?

A crença existe por toda a Europa e apoia-se na semelhança entre a pérola e uma gota, sobretudo quando o presente vai dirigido a uma noiva. No Japão a mesma pérola significa pureza e casamento feliz, o que demonstra a arbitrariedade da ideia. Com uma moeda ou com um desejo explícito a pérola entrega-se sem reserva nenhuma.

É mau sinal oferecer uma joia em segunda mão?

Em si mesma, não. A crença sobre a energia do dono anterior resolve-se com facilidade: limpa-se a peça, conta-se a sua história luminosa e acompanha-se de umas palavras. Uma relíquia de família com bom percurso vale mais do que uma joia nova precisamente pela memória que guarda. Para o cético, o metal e a pedra não conservam nada além das marcas do uso.

O que se oferece a um chefe sem arriscar?

Objetos neutros e com categoria, sem subtexto pessoal: peças boas para a secretária, um livro sobre a sua área, um chá ou um café de qualidade, um cartão-presente. Evite o demasiado íntimo e o demasiado barato, e das superstições basta não entregar nada cortante sem a moeda. Um amuleto com um significado neutro e amável, apresentado como desejo de êxito profissional, também funciona muito bem.

Mitos sobre as superstições dos presentes
Uma faca nunca se oferece
Toque
O relógio traz separação em todos os países
Toque
Oferecer uma carteira vazia traz pobreza
Toque
O amarelo traz sempre azar
Toque
Um amuleto oferecido é mais forte do que um comprado
Toque
Se já ofereceste algo proibido, o mal está feito
Toque

Conclusão

As superstições sobre os presentes não são uma lista de proibições, mas um mapa dos medos humanos: a rutura, as lágrimas, a pobreza e a partida de alguém querido. Percebendo de onde nasce cada proibição, é fácil contorná-la. Dois recursos, a moeda simbólica e um bilhete escrito, desativam quase qualquer crença num minuto, e o melhor presente de todos, um amuleto ou uma joia com um significado claro, nem sequer precisa de ritual. No fim, um presente não se valoriza pela ausência de maus presságios, mas pela atenção que demonstra pela pessoa a quem se destina.

Catálogo Zevira

Amuletos, pendentes simbólicos, joias por signo do zodíaco e conjuntos em par, presentes com um significado claro e sem crenças incómodas.

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Sobre a Zevira

A Zevira é uma casa de joalharia com caráter, herdeira da tradição cuteleira de Albacete: amuletos, símbolos, pedras talismã e peças pensadas para usar em par. Reunimos presentes com um significado claro e positivo, de modo que a questão das superstições se resolva sozinha. Se procura um presente para alguém próximo, comece pelo guia de amuletos e talismãs ou passe pela secção de simbologia.

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