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Relógios de Luxo como Joias: Guia Completo da História à Coleção

Relógios de Luxo como Joias: Da História da Cronometria ao Luxo Absoluto

À primeira vista parece algo banal: um cronómetro no pulso. Apenas uma ferramenta para contar minutos. Mas eis o paradoxo: um relógio de alta complicação de uma manufatura suíça chegou a ser leiloado por uma quantia superior à de uma casa inteira. Um relógio. O tempo. O dinheiro, não no sentido direto do preço, mas naquilo que a sociedade paga pela capacidade de ver o momento presente ornamentado em diamantes e platina.

O cruzamento entre a relojoaria e a joalharia acontece quando os mestres compreenderam uma coisa: o instrumento pode ser arte. Um relógio de luxo não é uma invenção de milionários. É um género antigo em que o tempo se transforma literalmente em ouro, esmalte e pedras preciosas. Este artigo vai mostrar-lhe como os relógios se tornaram um dos símbolos mais importantes de riqueza e de gosto refinado, e porque continuam a ocupar esse lugar mesmo numa época em que qualquer telemóvel dá as horas com maior exatidão.

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A História dos Relógios na Joalharia

Relógios Mecânicos Medievais e as Primeiras Joias do Tempo

Antes dos relógios mecânicos portáteis, o tempo era abstrato. O sol, as estrelas, os sinos da igreja: era tudo o que as pessoas tinham. Quando a Europa criou os seus primeiros mecanismos de relojoaria no século XII, eram enormes, pendiam das paredes das catedrais e serviam não como ornamento, mas como maravilha da engenharia. Marcavam as horas canónicas, chamavam à oração e mostravam a uma cidade inteira que o tempo já não pertencia apenas à natureza, mas também ao engenho humano. No século XIV, quando os relógios se tornaram mais pequenos e portáteis, os mestres deram-se conta de uma evidência: porquê limitar-se a contar minutos, quando se podia fazê-lo de forma bela?

Os primeiros relógios portáteis surgiram como joias. Pendentes, anéis, pulseiras com pequenos mecanismos no interior. Só a realeza e a igreja os podiam ter. Criar um pendente-relógio exigia tanto trabalho como fabricar um ornamento de altar. Cada mostrador era pintado à mão, cada ponteiro era forjado individualmente, cada caixa era decorada com esmalte, o processo mais laborioso de todos. Um único objeto podia ocupar um artesão durante meses, e o resultado guardava-se como se guarda uma relíquia, transmitido de geração em geração e citado nos inventários das grandes famílias ao lado dos quadros e das pedras.

Relógio do início do século XVII com mostrador astronómico e relógio de sol, caixa de latão dourado
Um relógio renascentista não era um instrumento, mas uma joia: caixa dourada, mostrador astronómico, gravura fina. Clock watch with astronomical dial and sundial, Jan Jansen Bockeltz, ca. 1605-10. The Metropolitan Museum of Art, Open Access (CC0 1.0).Clock watch with astronomical dial and sundial, Jan Jansen Bockeltz, ca. 1605 - 10. The Metropolitan Museum of Art, Open Access (CC0 1.0)

Séculos XVI e XVII: Os Relógios como Símbolos de Estatuto

Durante o Renascimento, os relógios tornaram-se objetos de prestígio. As cortes europeias colecionavam-nos tal como colecionavam pinturas e pedras preciosas, e um belo relógio oferecido a um embaixador valia mais como mensagem política do que como instrumento. O relojoeiro de Nuremberga Peter Henlein cria os famosos relógios de mola que cabem na mão e mantêm uma precisão suficiente para serem usados. Isto abriu caminho a uma revolução: os relógios podiam ser ouvidos e também vistos e transportados junto ao corpo.

Entre os séculos XVI e XVII, a nobreza europeia encomendava relógios como pura joalharia. Caixas de ouro incrustadas de esmeraldas e rubis, relógios em forma de animais (relógios-tartaruga, relógios-escaravelho), relógios em medalhões com retratos na tampa. Florença, Veneza, Genebra: cada centro de joalharia desenvolveu o seu próprio estilo de relojoaria. Um relógio deixava de medir apenas o tempo e passava a medir o lugar de quem o usava, a sua linhagem e a sua fortuna. Guardavam-se em caixas forradas, exibiam-se em ocasiões escolhidas e comparavam-se em círculo fechado como hoje se comparam obras raras.

Século XVIII: Os Relógios como Obra de Arte

O século XVIII é a idade de ouro dos relógios enquanto joalharia. Abraham-Louis Breguet, em Genebra, cria relógios tão perfeitos e belos que se tornam símbolos de luxo absoluto. Os seus relógios eram comprados pelas cortes reais e pelos aristocratas mais ricos. Um dado interessante: muitos relógios do século XVIII feitos para a nobreza europeia estavam decorados por fora e também por dentro. O mecanismo só era visível ao abrir a caixa, e que espetáculo se revelava então: ornamentos dourados no movimento, esmalte, gravuras em miniatura, superfícies polidas de tal modo que refletiam a luz como pequenos espelhos.

Os mestres suíços começam a especializar-se na relojoaria. Genebra torna-se o centro mundial deste ofício. Produção e, ao mesmo tempo, arte. Cada mestre assinava os seus relógios como um artista assina um quadro, e o nome gravado na platina valia como garantia de origem. Convém aqui uma nota: este artigo é divulgação cultural e histórica, não é aconselhamento financeiro nem de investimento. O que interessa reter é que, nesta época, ninguém separava a exatidão da beleza. Um relógio devia funcionar bem e devia encantar, e as duas exigências caminhavam juntas.

Século XIX: Democratização e Produção em Série

O século XIX trouxe a primeira grande revolução à relojoaria. A indústria aprendeu a criar mecanismos precisos em grandes quantidades. Os relógios começaram a ser usados por reis e também pela burguesia e, gradualmente, pela classe média. Mas, em paralelo aos relógios baratos, continuou a existir a relojoaria fina, os relógios para os mais abastados. A máquina não matou o artesão: apenas separou dois mundos que passaram a conviver, um feito em série e outro feito à mão, um que dava as horas a toda a gente e outro que continuava a dizer quem era o seu dono.

Neste período surgem as primeiras grandes manufaturas suíças que ainda hoje existem. Criavam tanto relógios simples como objetos de luxo. Os relógios suíços tornaram-se sinónimo de qualidade em todo o mundo, e essa reputação construiu-se ao longo de décadas, peça a peça, cliente a cliente. Foi também neste século que se consolidou a ideia do relógio de bolso como companheiro de vida, guardado no colete, ligado por uma corrente e transmitido de pai para filho como primeiro sinal de idade adulta.

Século XX e Presente: Os Relógios como Herança

O século XX transformou o estatuto dos relógios. Continuam a ser joalharia, embora alguns modelos possam também mudar de valor no mercado de segunda mão, sem que isso esteja garantido. Durante a Segunda Guerra Mundial, os relógios militares tornaram-se ferramentas de confiança, e muitos pilotos e mergulhadores dependeram de cronómetros suíços robustos. O período do pós-guerra criou um verdadeiro culto do relógio de colecionador, alimentado pela nostalgia, pela publicidade e pelas histórias de aventura.

Surgiram modelos lendários: o primeiro relógio de mergulho capaz de acompanhar grandes profundidades, ou as primeiras caixas desportivas em aço pensadas como objetos de design. Os relógios passaram a ser vistos como ornamento e como peças de coleção apreciadas pela sua história. A passagem do relógio de bolso para o relógio de pulso, acelerada pelas duas guerras, mudou também a forma como o objeto se relacionava com o corpo: deixou de estar escondido no colete para ficar à vista, no pulso, ao alcance do olhar e da luz.

Relógio de bolso em caixa de ouro aberta com gravura e esmalte
O relógio de bolso unia mecanismo e acabamento de joia: caixa gravada, tampa pintada, corrente com pendente. Clock watch with astronomical dial and sundial, Jan Jansen Bockeltz, ca. 1605-10. The Metropolitan Museum of Art, Open Access (CC0 1.0).Clock watch with astronomical dial and sundial, Jan Jansen Bockeltz, ca. 1605 - 10. The Metropolitan Museum of Art, Open Access (CC0 1.0)

Materiais e o Seu Significado nos Relógios Finos

Ouro: Classicismo e Eternidade

O ouro na relojoaria é mais do que metal, é linguagem de estatuto. O ouro amarelo, branco e rosa refletem a luz de forma diferente e influenciam a maneira como percebemos o relógio. Escolher o metal da caixa é já uma decisão de estilo, tão importante como escolher a forma do mostrador ou a largura da bracelete.

O ouro amarelo (585 ou 750 milésimos) é o mais clássico. É quente, solar, evoca a riqueza de épocas passadas. Os relógios de ouro amarelo ficam melhor em pulsos maduros e em quem já conhece o seu próprio gosto. É um metal escolhido por quem não segue tendências e prefere a continuidade à novidade, sabendo que o amarelo nunca sai realmente de moda porque nunca chegou a estar na moda: está simplesmente sempre presente.

O ouro branco (585 a 750) popularizou-se no século XX, quando a platina parecia demasiado cara e a prata demasiado barata. O ouro branco é frio, moderno, realça o brilho dos diamantes e das pedras de cor. Os relógios de ouro branco atraem quem valoriza o minimalismo e a luminosidade, e têm ainda a vantagem discreta de passarem despercebidos a distância, revelando o seu valor apenas de perto.

O ouro rosa (585 a 750) é uma liga de ouro e cobre. É contemporâneo, jovem, e vive atualmente um dos seus melhores momentos. O ouro rosa é mais quente do que o amarelo e mais atual. Os relógios de ouro rosa sugerem que o tempo pode ser usado com prazer, e não apenas com dignidade. Assenta bem em tons de pele variados e cria um contraste elegante com braceletes de pele castanha ou com mostradores em tons cremosos.

Platina: Raridade e Durabilidade

A platina é para poucos. É cerca de trinta vezes mais rara do que o ouro. É quase o dobro do peso do ouro. Não oxida, não fica baça, não precisa de nova banhagem. Um relógio de platina sobrevive ao seu dono. É joalharia que se pode transmitir com a certeza de que terá exatamente o mesmo aspeto do dia em que foi comprada, e esse peso na mão é, ele próprio, parte do prazer: sente-se logo que se trata de algo diferente.

O custo de um relógio de platina excede o de um de ouro, e não simplesmente porque a platina é mais preciosa. Uma caixa de platina exige um fabrico especial. A platina é mais difícil de polir, gravar e cravar. Cada caixa de platina é artesanato do nível mais elevado, e um bom polimento pode exigir muitas horas de trabalho paciente, porque o metal resiste à ferramenta e não perdoa a pressa.

Diamantes e Pedras de Cor: Luz na Caixa

Os relógios podem ser ornamentados com diamantes de várias formas. A mais comum é a cravação de pedras na caixa em torno do mostrador. A luneta do relógio transforma-se numa dispersão de reflexos claros e escuros que acompanha cada movimento do pulso.

As pedras de cor (rubis, safiras, esmeraldas, águas-marinhas) usam-se com menos frequência porque exigem mais destreza de cravação. Mas, quando bem executados, os relógios de cor parecem obras-primas. No seu pulso, deixa de estar simplesmente um relógio: está um portal para o século XVIII, para uma época em que a cor era um luxo raro e cada pedra vinha de longe.

Um dado interessante: os colecionadores mais sérios escolhem muitas vezes modelos sem diamantes. Acreditam que as pedras distraem da beleza da caixa, das linhas, das proporções. Isto mostra que os relógios enquanto joalharia habitam vários universos de gosto ao mesmo tempo, e que a sobriedade pode ser tão sofisticada como o brilho, por vezes ainda mais.

Relógio de ouro e anel de prata na mesma mão? Desafina. Um só metal no pulso, e não se discute.
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Como costuma vestir-se?

Como Usar o Relógio

Depois de anos de rodagens e passerelles, o relógio passou por centenas dos meus looks, do fato impecável ao linho de praia. Reúno aqui o que funciona de verdade, conforme a ocasião.

Que relógio funciona no dia a dia? Para o dia a dia recomendo uma caixa de aço de 38 a 40 mm numa bracelete ou correia sóbria. Combina com ganga, malha e camisa de linho, e aguenta o uso sem problema. Uma regra: se já usa anel ou pulseira, fique por um só metal. Um relógio de aço junto à prata lê-se como um conjunto, ao passo que o ouro quente ao lado da prata fria desafina.

O que uso para o escritório? Debaixo de uma manga comprida escolho uma caixa fina e um mostrador plano, para que o relógio passe sob o punho. Sugiro uma correia de pele castanha ou preta, que combina melhor com a alfaiataria do que uma bracelete maciça. Mostrador escuro com fato escuro, claro com claro, e não sobrecarregue o pulso com pulseiras aos pares.

E para a noite ou uma celebração? Para a noite construo o look em torno do metal e das pedras: ouro amarelo ou rosa, mostrador esmaltado, uma luneta fina com pedras. Este relógio funciona como joia e apanha a luz sob o punho. Aqui encaixa também um relógio pequeno numa correia fina, que se lê mais como uma pulseira que dá as horas.

Como combino o relógio com anéis e fio? Deixo que o metal do relógio comande e escolho o resto a condizer, mais fácil do que ao contrário. Recomendo nunca misturar ouro amarelo com prata fria na mesma mão. Um relógio com carácter e um anel fino ganham a um pulso carregado de tudo ao mesmo tempo.

Que relógio é um bom presente? Para oferecer sugiro um clássico seguro: mostrador redondo de dois ou três ponteiros, 38 a 40 mm, metal maciço em vez de banho de ouro. Combina com quase tudo, e uma gravura no fundo com um nome ou uma data transforma-o numa peça pessoal que se conserva.

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Mestres Joalheiros-Relojoeiros Lendários

Abraham-Louis Breguet: O Auge do Ofício

Abraham-Louis Breguet (1747-1823) é um nome que se deve conhecer para compreender os relógios enquanto joalharia. Foi um relojoeiro suíço que criava cronómetros para reis e imperadores. Os seus relógios eram tão perfeitos do ponto de vista mecânico e tão belos que se tornaram sinónimo de luxo absoluto, e o seu nome continua a ser pronunciado com respeito dois séculos depois.

O traço distintivo do relógio Breguet são os ornamentos no mostrador. Chamam-se guilhochados. Não são simples padrões, mas gravura mecânica criada por máquinas especiais que produzem desenhos perfeitamente idênticos. Os mostradores Breguet brilham a partir de diferentes ângulos, criando um efeito de movimento visual que muda conforme a luz e a posição do pulso.

Os relógios Breguet eram caros mesmo para os padrões de uma corte real. Um único relógio de bolso podia custar o mesmo que uma casa pequena. Mas qualquer pessoa que os visse compreendia: era dinheiro gasto em perfeição. A ele se devem também invenções que ainda hoje moldam o ofício, e essa herança técnica pesa tanto na sua fama como a beleza dos seus objetos.

A Grande Manufatura Familiar

Algumas manufaturas suíças históricas ficaram famosas pelo seu artesanato absoluto. Nesse modelo, cada relógio é criado à mão, em pequenas oficinas e quase por encomenda individual, com um tempo de produção que se conta em meses e não em minutos.

A filosofia distintiva destas casas: nunca procuraram volume de vendas. Em vez disso, criam exatamente tantos relógios quantos os seus mestres conseguem fazer ao nível mais alto de qualidade. Isto cria um efeito de raridade, com listas de espera de vários anos depois de feita a encomenda, e essa espera passou ela própria a fazer parte do prestígio.

As suas peças desportivas em aço mais célebres, nascidas nos anos setenta, foram desenhadas por mestres lendários do design relojoeiro. Hoje os colecionadores procuram-nas como obras-primas, e uma peça em aço pode ser tão desejada como outra em ouro, contrariando a intuição de que o valor está sempre no metal precioso.

O Luxo Mais Acessível

No outro extremo há manufaturas que popularizaram o relógio de gama alta entre profissionais com bons rendimentos, sem chegar aos preços das casas mais exclusivas. Foram elas que abriram a porta a toda uma geração que descobriu a relojoaria fina sem ter de pertencer a uma corte.

Estas casas ajudaram a criar a cultura do relógio de colecionador. Alguns dos seus modelos conservam boa parte do seu apelo durante décadas, embora convenha lembrar que isso não é garantia nenhuma e depende do modelo e do mercado.

Um dado interessante: certos relógios de mergulho desceram às maiores profundidades oceânicas, outros acompanharam expedições à Lua e ao Evereste. O cinema ajudou a construir a imagem do relógio que não falha em condições extremas, e essa mitologia, meio real e meio publicitária, tornou-se inseparável de alguns modelos.

O Minimalismo Suíço

Outras manufaturas, menos conhecidas mas igualmente dignas, apostaram num design sóbrio com um acabamento perfeito. Os seus relógios atraem quem valoriza a discrição em vez da exibição, e quem prefere que o objeto fale baixo.

Um exemplo clássico é a caixa reversível nascida nos anos trinta: a caixa vira-se e esconde o mostrador. Foi concebida originalmente para jogadores de polo que precisavam de relógio mas temiam danificá-lo, e tornou-se um clássico precisamente por encarnar o minimalismo. Os relógios escondidos superam, por vezes, os que se exibem, porque guardam para o dono um pequeno segredo que ninguém mais precisa de ver.

Quando a Joia se Faz Relógio

Algumas grandes casas de alta joalharia começaram como joalheiros e só depois acrescentaram relógios. Os seus relógios não são um compromisso entre joalharia e relojoaria, mas uma síntese. Estão decorados como anéis ou colares, mas com um coração mecânico a bater lá dentro.

Modelos felinos ou de motivos florais atraem com frequência quem quer joalharia que também mostre as horas. Não é uma escolha prática, é uma escolha de beleza, e assumi-lo é já parte do encanto: quem compra um relógio destes não anda à procura de exatidão, anda à procura de um objeto que dê prazer olhar.

Como Escolher um Relógio de Colecionador

Movimento: A Perfeição Visível

Ao escolher um relógio de colecionador, verifique primeiro o movimento. O movimento visível através do fundo da caixa (normalmente em cristal de safira, por vezes com ampliação) revela tudo. Um bom movimento parece uma cidade em miniatura antiga. Cada parafuso gravado, cada roda polida, cada superfície decorada conta uma história de horas de trabalho.

Os movimentos de relojoaria suíça são muitas vezes embelezados como escultura. Chama-se a isto acabamento. Um bom acabamento exige horas de trabalho. Um acabamento pobre indica que a empresa tenta poupar. Os relógios com acabamento pobre do movimento tendem a perder apelo junto dos colecionadores com o tempo, porque quem entende procura sempre o que está do lado de dentro.

Verifique se há gravuras visíveis com o nome da empresa. Verifique a gravura dos parafusos. Verifique o polimento das rodas. Estes pormenores denunciam o verdadeiro artesanato e distinguem uma peça pensada para durar de uma peça pensada apenas para vender.

Raridade: Os Números Contam

Os relógios raramente têm edições limitadas de verdade. Mas alguns lançam apenas 50 ou 100 unidades por ano. Se forem lançados 1000 por ano, ao fim de vinte anos existem muitos exemplares nos mercados secundários, e os preços descem por simples abundância.

Se forem lançados 50 por ano, muitos perdem-se, danificam-se ou permanecem em coleções privadas ao fim de vinte anos. A raridade cria procura, e a procura cria preço. É uma mecânica simples, mas que muita gente esquece quando se deixa levar apenas pelo nome ou pela publicidade.

Verifique a produção anual da empresa. Se estiver escondida, é mau sinal. Os bons relojoeiros orgulham-se da sua raridade e indicam honestamente a produção anual, porque sabem que essa transparência é, ela própria, um argumento.

História e Património: O Peso do Nome

Os relógios de empresas com 150 anos são apreciados de forma diferente dos de empresas com 10 anos. A história cria confiança, e a confiança cria procura. Um nome antigo carrega consigo todas as gerações que o usaram antes.

Verifique quando a casa foi fundada. Verifique que relógios criou no passado. Verifique que modelos se tornaram clássicos. Se uma marca mantém modelos clássicos praticamente sem alterações durante 20 ou 30 anos, é bom sinal: a empresa sabe o que funciona e não corre atrás de tendências passageiras.

Estado: Original ou Restaurado

Os mercados secundários de relógios estão cheios de peças restauradas ou alteradas. Isso pode significar queda de valor. Os relógios novos, nunca alterados, valem mais, e por boas razões: cada intervenção afasta o objeto do que ele era à saída da oficina.

Verifique se existe documentação original. Verifique se existe a caixa original. Verifique se foi usado ou guardado em cofre. Os relógios guardados em cofre durante trinta anos apresentam-se melhor do que os usados todos os dias.

Mas há aqui um paradoxo curioso: por vezes os relógios usados valem mais do que os que ficaram na caixa. Alguns colecionadores acreditam que os relógios que funcionaram andam melhor do que os que estiveram parados. É uma questão de fé, tão real no mercado como qualquer argumento técnico.

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Identidade Pessoal e Relógios

O Relógio como Declaração de Gosto

Ao comprar um relógio, não está a comprar uma ferramenta de cronometragem. Está a fazer uma declaração. Diz ao mundo: conheço o que é bom, posso pagá-lo, valorizo o ofício. E, ao contrário de muitas outras posses, o relógio diz tudo isto de forma discreta, ao alcance apenas de quem sabe olhar para um pulso.

Escolher entre uma casa desportiva reconhecível e uma manufatura exclusiva de longa espera não é apenas escolher um relógio. É escolher uma identidade. A primeira diz: sou bem-sucedido, alcanço objetivos, acredito nos clássicos. A segunda diz: conheço quem é preciso conhecer, sei esperar anos pelo que quero, valorizo a raridade acima da exibição.

Uma observação interessante: os verdadeiramente ricos não escolhem, muitas vezes, o relógio mais caro. Escolhem aquele de que gostam, porque não precisam de provar nada a ninguém. São antes os que enriqueceram há pouco tempo que tendem a escolher o mais ruidoso, o mais dourado, o mais visível, ainda à procura de confirmação exterior.

Relógios entre Culturas e Épocas

No Japão, os relógios enquanto joalharia não são tão populares como no Ocidente. Ali valoriza-se o relógio pelo mecanismo mais do que pela beleza. Isto reflete-se nos fabricantes japoneses, que criam relógios mecanicamente perfeitos, mas muitas vezes sóbrios, quase modestos no aspeto exterior.

Na Suíça, os relógios são um tesouro nacional ao nível do queijo e do chocolate. Um suíço com relógios que não sejam suíços é quase impensável. A Suíça criou a cultura global do relógio de luxo e continua a defendê-la como parte da sua identidade.

Em Itália, os relógios são valorizados sobretudo como ornamento. Os italianos escolhem o relógio pela beleza, e não pela mecânica, e não têm qualquer pudor em admiti-lo. Cada cultura projeta no mesmo objeto aquilo que mais aprecia, e é por isso que o relógio se tornou um espelho tão fiel de quem o usa.

Marcas de relógios de luxo: ofício e património comparados
MarcaFundadaRelógios/anoPontuação de patrimónioOfício
Patek Philippe1839~55 000
Rolex1905~1 milhão
Jaeger-LeCoultre1833~150 000
Omega1848~700 000
Cartier1847~500 000

Cuidado e Preservação

Manutenção Técnica

Os relógios precisam de assistência. Os relógios finos precisam de revisão a cada cinco a dez anos. Isso significa desmontagem, limpeza de cada peça, lubrificação, remontagem e calibração. Pode custar de algumas centenas a alguns milhares de euros, consoante a complexidade do relógio, e é um trabalho que só um relojoeiro qualificado deve fazer.

A revisão de um relógio é um investimento no futuro. Os relógios bem mantidos funcionam melhor e vivem mais. Os relógios sem revisão degradam-se e acabam por morrer, porque os lubrificantes secam e as peças passam a desgastar-se umas às outras sem proteção. Marcar a revisão a tempo é, no fundo, a forma mais barata de cuidar de um objeto caro.

Armazenamento e Proteção

Os relógios precisam de armazenamento adequado. Longe da humidade, longe do sol, longe do pó. O ideal é guardá-los num cofre, numa caixa protetora, envoltos em tecido sem fibras que possam riscar a caixa ou o vidro.

Os relógios não devem tocar na água (exceto os concebidos para isso). Os relógios não devem cair. Os relógios não devem sofrer temperaturas extremas. Pode parecer excesso de zelo, mas não é. O cuidado com o relógio mostra a ele, e a si próprio, que é uma peça valorizada, e essa atenção é parte do que distingue um objeto guardado de um objeto simplesmente possuído.

Reparação e Restauro

Os relógios avariados precisam de um representante autorizado ou de um mestre relojoeiro. A reparação caseira pode eliminar todo o valor do relógio num instante. A reparação autorizada custa caro, mas garante que o relógio permanece original, com as suas peças de origem.

O mercado secundário paga mais por uma reparação autorizada do que por uma não autorizada ou feita em casa. Isto acontece porque os compradores confiam que a reparação autorizada é uma reparação honesta, documentada e feita com as peças certas. Guardar as faturas das revisões é, por isso, quase tão importante como guardar a caixa original.

Mitos sobre relógios desmentidos
Os relógios mais caros são sempre mais exatos
Toque para revelar a verdade
Os relógios de luxo são um mau investimento
Toque para revelar a verdade
É preciso gastar mais de €50.000 para ter um relógio de luxo 'a sério'
Toque para revelar a verdade
Os relógios mecânicos estão ultrapassados face aos relógios inteligentes
Toque para revelar a verdade

Relógios de Colecionador: Mercado e História

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O Mercado de Segunda Mão

Alguns modelos desportivos em aço muito procurados podem mudar de preço ao longo dos anos no mercado de segunda mão. Outras peças históricas e vintage também despertam o interesse dos colecionadores. Contudo, estes movimentos de preço dependem do modelo, do estado, da moda e do momento, e nunca estão garantidos.

Convém tê-lo claro: os relógios correntes de grande produção perdem muitas vezes o seu apelo, ao passo que as edições limitadas com história tendem a manter melhor o interesse. Ainda assim, comprar um relógio a pensar apenas num ganho futuro é arriscado, e trata o objeto como aquilo que ele não é.

Uma Paixão, Não uma Promessa

Muita gente coleciona relógios por gosto: estuda o mercado, procura modelos raros e espera com paciência. Por vezes uma coleção formada com conhecimento ganha valor com o tempo, mas também pode estagnar ou perdê-lo, sem que ninguém o consiga prever com certeza.

Por isso este texto não é aconselhamento financeiro. Quem se aproxima da relojoaria fá-lo de forma mais saudável por amor ao objeto e à sua história, e não como plano de investimento. O prazer de conhecer, comparar e usar é a única recompensa que nunca falha.

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Perguntas Frequentes

Que relógios conservam melhor o seu apelo? As peças de manufaturas suíças raras e os modelos vintage de casas históricas costumam manter melhor o interesse dos colecionadores, sobretudo as edições limitadas. Os relógios japoneses têm uma entrada mais acessível. Em nenhum caso isto é garantia de valorização.

Devo investir logo em peças premium? Não. Se não tem a certeza das suas preferências, comece por um segmento intermédio. Use, aprenda e só depois avance para o premium. Os relógios são pessoais e o gosto desenvolve-se com o tempo.

Como identificar relógios autênticos? É uma questão complexa. Os falsificadores são cada vez melhores. A melhor abordagem: comprar a um representante autorizado ou recorrer à verificação de um perito independente. Os mercados secundários trazem sempre algum risco de falsificação.

Posso usar relógios caros no dia a dia? Sim, se forem concebidos para isso. Um relógio de mergulho robusto é pensado para o uso diário. Já um relógio de platina cravejado de diamantes, não: esse reserva-se para ocasiões especiais.

Preciso da caixa original e da documentação? Sim. Os relógios em segunda mão com caixa original e documentos valem 10 a 20% mais do que os que não os têm. São sinais de autenticidade e facilitam qualquer venda futura.

Como sei se um relógio saiu de moda? Os desenhos clássicos não saem. Um relógio com vinte anos que continua igual ao de hoje não sai de moda, e isso é bom sinal. Já os relógios atualizados todos os anos correm o risco de ficar datados depressa.

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Sobre a Zevira

Na Zevira vai encontrar peças que refletem a essência deste guia. Selecionamos as nossas joias como se selecionam bons relógios, com atenção aos materiais, respeito pelo ofício e a convicção de que os objetos podem ser belos, funcionais e duradouros ao mesmo tempo.

Cada peça da nossa coleção é uma escolha: ouro ou prata, sobriedade ou brilho, minimalismo ou maximalismo de joalharia. Escolha como escolher, lembre-se de que não está a escolher uma ferramenta para contar minutos. Está a escolher como usar o tempo e a história no seu pulso.

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