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Cimaruta: o amuleto napolitano de bruxa com forma de arruda

Cimaruta: o amuleto napolitano de bruxa com forma de raminho de arruda

A cimaruta é um raminho de arruda feito em prata e carregado de símbolos minúsculos: meia-lua, chave, serpente, galo, mão, flor. Um amuleto napolitano de dupla função, que protegia as crianças do mau-olhado e servia ao mesmo tempo de senha secreta de uma fé antiga onde reinava a deusa lunar Diana.

O nome lê-se «chima-ruta» e, no dialeto napolitano, significa literalmente «a ponta da arruda», cima di ruta. A arruda é uma erva de jardim comum, de folhas azuladas e cheiro penetrante. No Mediterrâneo antigo tinham-na por uma planta capaz de afugentar o mal. Os ourives de Nápoles transformaram o raminho dessa erva num pendente de prata e penduraram nele todo um conjunto de sinais protetores.

Se o cornetto é uma folha única contra o olhar invejoso, a cimaruta é um molho de chaves inteiro do mundo da magia popular. Num pequeno pendente cabem uma deusa antiga, a tradição de bruxaria do sul de Itália, símbolos cristãos e a fé de uma camponesa que confiava em que a prata afastaria a desgraça do berço do filho.

Porquê precisamente um raminho de arruda

Pendente amuleto de prata do século dezanove
A prata era o metal principal dos amuletos populares: acreditava-se que afugentava o olhar invejoso.Pendant, 19th century. The Metropolitan Museum of Art, Open Access (CC0 1.0)

A arruda não é uma planta qualquer. Na Antiguidade plantava-se junto à casa, juntava-se aos remédios, penduravam-se molhos por cima da porta. Julgava-se que aguçava a vista, purificava o ar e espantava as bruxas. Os médicos da Antiguidade receitavam-na para quase tudo, e o povo simples acreditava que o sumo amargo da erva «queimava» o olhar invejoso.

Há aqui também um paradoxo. A arruda protegia das bruxas e era, ao mesmo tempo, a erva das próprias bruxas. Na tradição napolitana à feiticeira chamavam jettatura, e a arruda fazia parte do seu arsenal a par das ervas da curandeira. Trazer uma cimaruta significava jogar nos dois campos ao mesmo tempo: proteger-se da bruxaria alheia e mostrar que também não se estava desarmado.

Os mestres ourives tomaram a forma do raminho, que na natureza se divide em dois e em três, e coroaram cada rebento com um símbolo. Saiu um amuleto que se monta por peças. A seguir vamos ver, por ordem, de que é composto, de onde vem cada sinal, porque é de prata, como se usava e em que se distingue do cornetto que descansa a seu lado na montra.

A magia popular do sul de Itália nunca foi um sistema único com manual e regras. Foi reunindo-se durante séculos a partir de crenças romanas, cultos gregos, simbologia cristã e superstições de aldeia. A cimaruta é essa mistura de tudo isso materializada, comprimida num pendente do tamanho da falange de um dedo. Por isso os sinais não coincidem de um exemplar para outro: cada oficina e cada família acrescentava o seu.

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O que é a cimaruta

Pendente amuleto de prata medieval
Os pendentes amuleto de prata usavam-se por toda a Europa: a cimaruta de Nápoles prolonga essa tradição.Pendant, 9th-10th century. The Metropolitan Museum of Art, Open Access (CC0 1.0)

Definição e nome

A cimaruta é um amuleto com forma de raminho de arruda feito em prata, de cujos rebentos pendem, ou nos quais se talham, símbolos protetores. A palavra compõe-se de duas: cima (a ponta, o rebento) e ruta (a arruda). Em italiano culto soaria cima di ruta, mas o dialeto napolitano fundiu ambas as partes numa só palavra, cimaruta.

Fora de Itália, o amuleto chama-se por vezes simplesmente «raminho de arruda» ou «amuleto napolitano». Na literatura folclórica em inglês assentou a grafia cimaruta, sem tradução. Ao ouvido português soam igualmente bem «cimaruta» ou «chimaruta», e ambas as variantes se encontram.

Como é uma cimaruta autêntica

Um exemplar clássico reconhece-se logo por vários traços:

Ramificação. A base é uma haste que se abre em dois ou três ramos principais, e esses, por sua vez, dividem-se. A arruda cresce exatamente assim na natureza, em ramificações triplas, e o mestre repete esse desenho no metal. O três não é aqui casual, e falaremos disso com mais pormenor na secção sobre Diana.

Símbolos nas pontas. Cada raminho termina numa figurinha pequena: meia-lua, mão, chave, galo, serpente, flor, coração, peixe, adaga. O número de figuras oscila entre três e dez, e por vezes mais.

Prata. A cimaruta tradicional autêntica faz-se de prata, não de ouro nem de coral. É algo essencial, ligado à simbologia lunar. O metal é quase sempre branco.

Silhueta plana. Ao contrário do corno volumoso do cornetto, a cimaruta costuma ser plana, fundida ou recortada como uma placa vazada. É cómoda para prender no tecido ou pendurar numa corrente.

Tamanho. É quase sempre um pendente de entre três e seis centímetros. Houve também exemplares grandes para a casa e outros muito pequenos para o recém-nascido.

O conjunto de símbolos do raminho

O que há de particular na cimaruta é que não é um sinal, mas uma constelação de sinais. A lógica é simples: quantos mais símbolos de proteção se reúnem, mais cerrada é a couraça. Cada rebento responde pela sua própria ameaça e pela sua própria divindade protetora.

Parte dos símbolos repete-se quase sempre: meia-lua, serpente, flor ou chave. A essa tríade os estudiosos do folclore consideram-na o núcleo do amuleto, ligado à deusa lunar. Os restantes sinais acrescentavam-se ao gosto do mestre, por encomenda da família ou segundo a moda local. Por isso mal se encontram duas cimarutas antigas iguais. Mais abaixo veremos cada símbolo em separado, porque por trás de cada um há uma história própria.

Há também uma lógica interna neste conjunto. Os símbolos dividem-se em celestes (a meia-lua, o galo como arauto da alvorada), terrestres (a flor da arruda, a uva, o peixe) e subterrâneos (a chave de Hécate, a serpente). Juntos abarcam os três níveis do cosmos, tal como o via a Antiguidade mediterrânica. O dono de uma cimaruta trazia consigo, por assim dizer, o mapa de um universo inteiro, com um guardião em cada andar. Daí aquela sensação de plenitude que um amuleto de um só sinal não tem: o corno cobre uma direção, o raminho de arruda cobre-as todas de uma vez.

A cimaruta vive na prata oxidada. Polida a espelho, o raminho funde-se num grumo brilhante, enquanto a pátina escura das forquilhas faz sobressair cada figurinha. Dar-lhe brilho de espelho aqui é quase um ato de vandalismo.
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Com que usar a cimaruta

A história e os símbolos já os vimos, agora vamos à postura. Reúno aqui o que de facto funciona quando se tira a cimaruta da montra e se pendura numa pessoa de carne e osso.

Em que prata escolher a cimaruta? Só prata branca, e de preferência oxidada. O amuleto está consagrado à Lua, o ouro quente rompe com ele e fica estranho. Um ramo polido a espelho funde-se sobre o peito num grumo brilhante onde não se distingue nem a chave nem o galo. A prata oxidada (enegrecida) trabalha de outro modo: a pátina escura entra nas forquilhas e nas ranhuras, levanta o relevo, e cada figurinha se lê em separado. Sob um tom quente de pele escolho uma prata suave, algo mate, sob um tom frio recomendo uma negrura profunda com muito contraste. Se hesita, leve a oxidada: o vazado sai sempre a ganhar com ela.

Um raminho miúdo ou um grande com um cacho de figuras? Olho o pescoço e os traços do rosto. Para um pescoço fino e traços miúdos aconselho uma cimaruta compacta de três ou quatro sinais: lê-se como uma grafia delicada, não como um cacho. A um pescoço largo e traços marcados recomendo um ramo mais rico, com sete figuras, tem sítio para se abrir. A regra é uma: quanto mais pequenas as figurinhas, mais importa o trabalho nítido e o enegrecido, ou sobre o peito penderá um rabisco irreconhecível em vez da chave de Hécate.

Com que combinar a cimaruta e como montar as camadas? Quando monto o conjunto a um cliente, mantenho o raminho como protagonista e não o carrego de rivais. O vazado já é de si miúdo, ao lado de outra joia igualmente miúda afunda-se. Bons vizinhos são as peças lisas do mesmo metal: uma corrente fina de prata, uma lúnula em meia-lua, um cornetto de coral num comprimento à parte pela dupla solar e lunar. Se lhe apetecem camadas, dê à cimaruta o seu próprio comprimento de corrente, para que o ramo não fique apertado entre pendentes. Os metais aconselho a mantê-los num mesmo tom frio: prata com prata, sem toques quentes.

Sob que decote e para que ocasião vai a cimaruta? O ramo vazado gosta do fundo liso, por isso sob um decote aberto e uma peça de um só tom vê-se melhor do que nunca: a pele e o tecido fazem de paspatur, os símbolos leem-se. Sob uma gola fechada escolho uma cimaruta mais curta, para que se apoie sobre a abertura e não se esconda nas pregas. Para o dia a dia recomendo uma prata mate sem brilho a mais, e para a noite e o tecido escuro, pelo contrário, aconselho um enegrecido de contraste com brilhos pelos bordos: com a luz as figurinhas acendem-se à vez.

A quem fica bem a cimaruta? Fica bem a quase todos, porque a grafia é sóbria e não tem género. Assenta especialmente bem a quem gosta de uma peça com história e não se importa que a olhem e lhe perguntem por ela. Aos homens recomendo uma versão mais seca, com o mínimo lunar de meia-lua, serpente e chave, sem coraçõezinhos nem querubins. E uma coisa antes de comprar: abra o ramo e verifique que cada símbolo se reconhece à primeira. Uma cimaruta em que não se distingue o galo da flor perde todo o sentido para que foi montada.

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Os símbolos da cimaruta e os seus significados

A meia-lua: o sinal de Diana

A meia-lua é um elemento quase obrigatório. Remete para a Lua e para a deusa Diana, senhora da caça, das feras selvagens e das mulheres. Na tradição romana, Diana governava o céu noturno, e o seu símbolo era a foice da lua nova. Para a camponesa do sul de Itália que pendurava uma cimaruta no berço, a meia-lua significava proteção noturna: quando o sol se foi e o mundo se torna vulnerável, a deusa lunar vela pela criança adormecida.

A forma da lua dialoga com a do corno. A mesma linha curva que desvia o olhar hostil funciona também aqui. As mulheres da Antiguidade usavam a lúnula, um pendente em meia-lua, com exatamente o mesmo fim. A cimaruta absorveu a lúnula dentro de si como mais um dos seus rebentos.

A serpente: sabedoria e renovação

A serpente na cimaruta não é uma ameaça, mas uma aliada. Na cultura mediterrânica a serpente significou desde muito cedo sabedoria, cura e capacidade de renovar-se, já que muda a pele velha e parece nascer de novo. A serpente enroscava-se no bastão de Asclépio, deus da medicina, e ainda hoje decora o emblema médico.

Para a magia popular do sul, a serpente associa-se à terra e às forças subterrâneas que a face escura da deusa governava. A serpente no raminho de arruda acrescentava ao amuleto um sentido curativo: afugentava a doença tal como a meia-lua afugentava os medos da noite.

A chave: as portas de Hécate

A chave é um dos símbolos mais enigmáticos da cimaruta. Remete para Hécate, a deusa grega das encruzilhadas, dos limiares e da bruxaria, que em Itália se fundiu com Diana numa só figura. Hécate guardava as chaves das portas entre os mundos: entre a vida e a morte, entre a vigília e o sono, entre a casa e a escuridão lá fora.

No plano do dia a dia, a chave significava a proteção do limiar. Uma casa com a chave no amuleto fica, por assim dizer, fechada à desgraça. A chave prometia ainda «abrir» a sorte e os caminhos, por isso agradava oferecê-la a quem partia em viagem ou começava um novo negócio.

A mão: o gesto contra o mau-olhado

A mão na cimaruta costuma estar dobrada num gesto protetor. O mais frequente é a mão fica, o punho com o polegar entre o indicador e o médio, um sinal antigo contra o olhar invejoso. Com menos frequência a mão mostra-se de palma aberta, mais próxima do gesto de bênção.

A mão é um reflexo direto, físico, contra o mau-olhado, o mesmo gesto que os italianos continuam a fazer quando notam a inveja alheia. Em miniatura, sobre o raminho de arruda, trabalha as vinte e quatro horas sem que o dono precise de mexer os dedos. Um símbolo aparentado pelo sentido, a mão de Fátima ou hamsa, vem de outra tradição, mas resolve o mesmo problema.

O galo: a alvorada dissipa a treva

O galo traz uma nota solar ao conjunto lunar. O seu canto anuncia o amanhecer, e com o amanhecer, segundo a crença, dispersa-se toda a corja noturna: bruxas, fantasmas, maus espíritos. O galo na cimaruta é a promessa de que a noite acabará e a luz voltará.

Há aqui também uma ligação à vigilância. O galo desperta primeiro e é o primeiro a dar voz perante o perigo. Ao pendurar um galo no amuleto, a família colocava junto ao berço uma sentinela que nunca dorme. O galo solar e a meia-lua lunar fechavam juntos o círculo diário de proteção: uma figura monta guarda de dia, a outra de noite.

A flor: a erva sagrada e a vida

A flor no fim do ramo representa quase sempre a inflorescência da própria arruda ou a verbena, outra erva sagrada de Diana. Simboliza a vida, a fertilidade e a continuação da linhagem. Para um amuleto que se pendurava sobretudo às crianças, o sinal da vida era o central: desejava à criança sobreviver, crescer e dar descendência.

A flor fecha ainda a lógica botânica do amuleto. Toda a cimaruta é um raminho de arruda, e a flor lembra que a fonte da força é aqui a própria planta, e que os símbolos de metal apenas reforçam o que já está inscrito na erva.

O coração, o peixe, a adaga e outros sinais

Além do núcleo principal, na cimaruta aparece toda uma segunda fila de símbolos que se acrescentavam conforme o caso:

Nenhum destes sinais era obrigatório. O mestre montava a cimaruta como um ramo, combinando o núcleo com complementos segundo o gosto do cliente. Por isso é tão interessante contemplar os exemplares antigos: cada um conta a sua própria história através do conjunto de figurinhas penduradas.

O número de sinais e o seu sentido

A quantidade de figuras no ramo nunca foi casual para quem nisso acreditava. O três remetia para a deusa tripla e para a ramificação natural da arruda, e era o mínimo lunar mais frequente e mais «puro». O sete tinha-se por número de plenitude e sorte, por isso as cimarutas ricas trazem muitas vezes sete símbolos, abarcando o céu, a terra e o mundo de baixo de uma vez. O nove, o três de três treses, aparecia nos exemplares de gala mais complexos e lia-se como uma proteção reforçada.

Ainda assim, a tradição não conhecia a regra estrita do «quanto mais, melhor». Um raminho modesto de três sinais nas mãos de uma curandeira podia valer mais do que um pendente faustoso de dez figuras, se por trás houvesse um encantamento certo e a boa mão de um mestre. O número marcava o ritmo e o ânimo do amuleto, mas a força vinha-lhe do sentido posto em cada figura, não da aritmética.

História: Nápoles, Diana e a fé antiga

A arruda como planta sagrada da Antiguidade

Muito antes dos pendentes de prata, a arruda já era uma erva de poder. Gregos e romanos plantavam-na junto ao limiar, juntavam-na ao vinho, usavam-na na medicina. Acreditava-se que a arruda aguçava o engenho e a vista, protegia do veneno e espantava os maus espíritos. O seu cheiro penetrante tomava-se por prova da sua força: se a erva cheira assim tão forte, é porque o mal foge dela.

Na época cristã a arruda não perdeu estatuto. Chamavam-lhe «erva da graça» e com ela se aspergia nos ritos. Um molho de arruda seca por cima da porta continuou a ser algo corrente na aldeia italiana até bem entrado o século vinte. Desse antigo respeito pela erva nasceu a ideia de trazer o seu raminho sempre à mão, fundido em metal duradouro.

Diana, Ártemis e o culto lunar

Na base da simbologia da cimaruta está o culto à deusa a que os romanos chamavam Diana e os gregos Ártemis. É a senhora da natureza selvagem, da caça, do parto e da Lua. Para o sul de Itália, Diana não era uma abstração de manual, mas uma figura viva que a fé popular arrastou através de milénios sob nomes diferentes.

Especialmente importante é o carácter triplo da deusa. Diana era honrada em três rostos: como Lua no céu, como Diana caçadora na terra e como Hécate no mundo de baixo. Daí a tripla ramificação da arruda e a tríade de símbolos-chave: a meia-lua (céu), a flor ou a erva (terra), a chave ou a serpente (mundo de baixo). A cimaruta é, no fundo, um altar portátil da deusa tripla disfarçado de pendente botânico.

O culto a Diana no sul de Itália revelou-se de uma persistência rara. O cristianismo mudou a fé oficial, mas a magia de aldeia limitou-se a vestir os velhos deuses com roupas novas. A senhora lunar continuou a ser honrada sob o aspeto da devoção a diversas padroeiras, e os ritos junto às encruzilhadas noturnas e os encantamentos de lua minguante chegaram à época moderna quase sem mudanças. A cimaruta era a prova material dessa continuidade: enquanto a camponesa pendurava no berço uma meia-lua de prata, a deusa antiga continuava em serviço, chamasse-lhe a igreja o que lhe chamasse.

A stregheria: a bruxaria do sul de Itália

À tradição mágica popular de Itália chama-se stregheria, da palavra strega, bruxa. Não é uma religião organizada, mas um conjunto solto de práticas de aldeia: encantamentos contra o mau-olhado, cura com ervas, adivinhações, culto às forças lunares. As curandeiras e adivinhas do sul respeitavam-se e temiam-se ao mesmo tempo, e a elas se recorria tanto por um enfeitiçamento como pela cura de uma criança.

A cimaruta era a ferramenta de trabalho dessa tradição e, ao mesmo tempo, a sua marca de identidade. Uma mulher que trazia o raminho de arruda com todos os seus símbolos mostrava que estava de bem com as velhas forças. E, ao mesmo tempo, esse mesmo pendente protegia-a da bruxaria alheia. A ambivalência aqui não é uma contradição, mas a própria essência da magia popular: o melhor escudo contra uma bruxa é trazer um pouco de bruxaria consigo.

Os benandanti: a guerra noturna pela colheita

Para entender o mundo em que a cimaruta fazia sentido, convém olhar para os benandanti, «os que andam pelo bem». Assim se chamava, no nordeste de Itália, no Friul, às pessoas nascidas «com camisa», envolvidas nas membranas fetais. Segundo a crença popular, uma pessoa assim abandonava o corpo em sonhos em certas noites do ano e saía a combater as bruxas pelo destino da colheita. Os benandanti lutavam com hastes de funcho, as bruxas peleavam com hastes de sorgo. Do desfecho dessa batalha invisível dependia que o ano fosse de fartura ou de fome.

A história dos benandanti chegou até nós através das atas da Inquisição dos séculos dezasseis e dezassete, que demorou muito a decidir o que tinha diante: feiticeiros ou defensores contra a feitiçaria. Os próprios benandanti insistiam com obstinação em que combatiam o mal, não em que o serviam. Essa confusão revela o nervo principal da fé popular italiana: a fronteira entre a bruxa e o caçador de bruxas era movediça, e uma mesma pessoa podia acabar dos dois lados. A cimaruta cresceu dessa mesma ambiguidade, em que a arruda espantava as bruxas e era a erva das próprias bruxas.

Benevento: a cidade das bruxas

Um lugar à parte ocupa no folclore a cidade de Benevento, na Campânia. Segundo a lenda, à volta de uma enorme nogueira que ali crescia reuniam-se em aquelarre as bruxas de toda a Itália. A lenda da «nogueira de Benevento» contou-se durante séculos, e a cidade ganhou a fama de capital da bruxaria italiana. Não admira que tenha sido o sul, com Nápoles e Benevento no coração, o berço da cimaruta.

A lenda de Benevento importa não por si mesma, mas como pano de fundo. Mostra que, para os habitantes do sul, as bruxas e as forças lunares faziam parte da imagem quotidiana do mundo. O amuleto contra elas não se usava por exotismo, mas por bom senso, tal como se fechava a porta ao cair da noite.

Séculos dezoito e dezanove: o esplendor da prata

Foi na época dos Bourbons, nos séculos dezoito e dezanove, que a cimaruta atingiu o seu esplendor como peça de joalharia. Os ourives napolitanos montaram a produção de finos raminhos vazados, e o amuleto passou de artesanato de aldeia a talismã urbano reconhecível. Pendurava-se nos berços, prendia-se na roupa infantil, oferecia-se no batismo.

Por essa altura fixou-se também o conjunto típico de símbolos. As oficinas de Nápoles ofereciam cimarutas de diversa complexidade: umas mais simples, com três ou quatro sinais, e outras mais ricas, com todo um cacho de figuras. A prata continuava a ser condição incontornável. Uma cimaruta de ouro ter-se-ia tido por quase um contrassenso: quebrava a ligação com a Lua.

Charles Leland e a «Aradia»

A fama mundial deu-a à cimaruta o folclorista norte-americano Charles Godfrey Leland. No fim do século dezanove percorreu a Toscana e a Romanha recolhendo os restos da fé popular, e no seu livro «Antiguidades etrusco-romanas» (1892) descreveu com pormenor o raminho de arruda como amuleto da deusa tripla. Mais tarde, na célebre «Aradia, ou o evangelho das bruxas» (1899), expôs as lendas das feiticeiras italianas, onde Diana e a sua filha Aradia eram as figuras centrais.

As obras de Leland são discutidas: parte dos estudiosos considera que enfeitou e completou o material recolhido. Mas foi graças a ele que a cimaruta entrou no campo de visão de autores europeus e norte-americanos, e no século vinte tornou-se num dos símbolos do interesse renovado pelas joias de bruxa e a estética oculta. De pendente napolitano de berço passou a ser a bandeira de todo um movimento.

Variantes regionais

A cimaruta não tinha um cânone único, e a geografia explica-o bem. O raminho clássico de prata com o conjunto completo de símbolos lunares vem de Nápoles e da Campânia em redor, onde o culto a Diana e o ofício dos ourives se encontraram com especial densidade. Foi precisamente o tipo napolitano, de tripla ramificação vazada, o que se tornou «canónico» nas coleções de museu.

O material que Leland recolheu vinha da Toscana e da Romanha, do centro e do norte de Itália. Os raminhos de lá eram muitas vezes mais simples do que os napolitanos e apoiavam-se mais no encantamento oral do que num conjunto rico de figuras. Na Sicília e no sul continental, a proteção contra o mau-olhado confiava-se mais ao cornetto e à mão cornuta, e a cimaruta era mais rara e vista como coisa de curandeiras.

Variava também o conjunto de sinais. Nuns sítios predominava o mínimo lunar estrito de meia-lua, serpente e chave, noutros carregava-se o ramo de corações e querubins cristãos, reconciliando o velho amuleto com a igreja. Por esses acentos um entendido distingue por vezes de que canto de Itália vem um exemplar concreto, mais ou menos como se reconhece um conterrâneo pela fala.

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Com que se faz a cimaruta

A prata como metal da Lua

A prata na cimaruta não é a escolha de um designer, mas uma exigência da tradição. O metal branco e frio associava-se desde há muito à Lua, como o ouro se associava ao Sol. Se o amuleto está consagrado à deusa lunar Diana, faz-se com o metal dela. Um raminho de prata é, literalmente, um pedaço de luar numa corrente.

A prata tem ainda o seu lado prático. É mais mole do que o ouro e presta-se melhor ao trabalho fino e vazado, que é justamente o que faz falta para fundir um raminho com todas as suas ramificações e figurinhas. Para o uso diário serve bem a prata de lei 925: bastante resistente e sem provocar alergia na maioria das pessoas.

Porque não ouro nem coral

O cornetto faz-se de coral vermelho e de ouro, e tem a sua lógica: o corno está consagrado à força vital, ao sangue, à sorte solar. A cimaruta joga noutro campo. O seu elemento é a noite, a Lua, o mistério, o feminino. O coral vermelho e o ouro amarelo não encaixam aqui, simplesmente, por sentido.

De vez em quando aparecem incrustações douradas ou de coral sobre uma base de prata, mas a tradição não conhece um exemplar de ouro maciço. Se lhe oferecem uma «cimaruta» de ouro, tem diante uma estilização moderna, mais do que a reprodução de um amuleto autêntico. O raminho de arruda a sério brilha sempre com luz fria.

Materiais modernos

Hoje a cimaruta funde-se tanto em prata como em ligas mais acessíveis. Há versões em alpaca, em latão prateado, em aço inoxidável com revestimento branco. O seu peso simbólico é o mesmo: o que trabalha é o conjunto de sinais, não a lei do metal.

Para quem usa o amuleto todos os dias e não quer lidar com a manutenção, o aço é cómodo: não escurece, não deixa marcas verdes na pele e não teme a água. Os amantes do autêntico, pelo contrário, continuam a escolher a prata pela sua ligação à tradição lunar e pelo brilho vivo que só o metal a sério dá.

O cuidado do raminho de prata

A cimaruta vazada pede um pouco mais de atenção do que um pendente liso, porque a sujidade e o enegrecimento gostam de se esconder nas forquilhas do ramo e nas ranhuras finas das figuras. A prata escurece com o tempo pelo contacto com o ar, o suor e a cosmética, e isso é uma oxidação normal, não uma deterioração do amuleto. Muitos apreciadores, pelo contrário, gostam dessa leve negrura nos vãos: sublinha o relevo e dá ao raminho um ar antigo.

A cimaruta limpa-se com um pano macio para prata, e os pontos difíceis passam-se com uma escova de dentes mole e uma gota de sabão, secando-a bem a seguir. As pastas agressivas e os abrasivos duros estão contraindicados para o vazado, já que apagam o trabalho fino dos símbolos. À noite convém tirar o amuleto e guardá-lo num saquinho de tecido ou num guarda-joias sem acesso de ar, assim a prata escurece mais devagar. O perfume e o creme aplicam-se antes de pôr o pendente, não depois: assim a química da cosmética não se deposita no metal.

Como usar a cimaruta

Ao pescoço, como pendente

A forma mais habitual é pendurar a cimaruta numa corrente e trazê-la junto ao coração. A silhueta plana apoia-se a direito sobre o peito sem se virar, de modo que os símbolos olham sempre para o mundo pela sua boa face. A corrente escolhe-se fina e de prata, a condizer com o amuleto, para não competir com o raminho vazado.

A orientação quanto ao comprimento é simples. Uma corrente curta mantém a cimaruta à vista, aberta. Uma média permite trazê-la tanto por cima da gola como por baixo. Uma comprida esconde o amuleto mais junto ao corpo, para quem prefere uma proteção discreta. Ao contrário do cornetto, a cimaruta não tem a regra estrita da «ponta para baixo»: pendura-se como melhor caia o ramo.

Em casa, sobre o berço, na viagem

Historicamente, o sítio principal da cimaruta era o quarto da criança. O amuleto prendia-se na fralda, pendurava-se por cima do berço, cosia-se ao gorro do recém-nascido. A lógica é a mesma que a dos restantes amuletos protetores: a criança é o ser mais vulnerável da casa, e sobre ela cai primeiro o olhar invejoso.

Os adultos usavam também o raminho noutras ocasiões: levavam-no para a viagem, penduravam-no na casa nova, guardavam-no na loja atrás do balcão. A cimaruta de prata pode prender-se na mala, pendurar-se no molho de chaves, pôr-se à cabeceira da cama. Regras há poucas, o importante é que o amuleto esteja com a pessoa ou com aquilo que ela protege.

O amuleto e o encantamento contra o mau-olhado

O raminho de prata raramente trabalhava sozinho. Na tradição napolitana fazia parte de todo um rito contra o malocchio, o mau-olhado. O mau-olhado diagnosticava-se de forma simples: deitavam-se umas gotas de azeite num prato com água e observava-se se se espalhavam ou se recolhiam num olho. Se as gotas se dispersavam, acreditava-se que havia mau-olhado, e sobre a pessoa recitava-se um encantamento especial, transmitido muitas vezes por linha feminina e só em certos dias.

A cimaruta, dentro dessa engrenagem, respondia pela proteção permanente, e o encantamento e o azeite pela «urgência», quando a desgraça já se aproximava. Uma coisa não anulava a outra: o amuleto usava-se todos os dias, e o rito do azeite fazia-se quando a criança adoecia ou chegava um mal repentino. O conhecimento do encantamento tinha-se por um valor de família, e transmiti-lo à nova senhora da casa era tão importante como transmitir o próprio raminho de prata.

Com que combiná-la

O raminho vazado de prata usa-se bem com as peças sóbrias e com outra simbologia:

A única coisa que convém evitar é a sobrecarga. A cimaruta já é de si complexa, com uma dezena de símbolos pequenos, e ao lado de outra joia igualmente miúda perde-se. Precisa de ar e de um fundo liso para que cada figura se leia.

Catálogo Zevira

Prata, amuletos contra o mau-olhado, simbologia, pendentes lunares e protetores.

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A quem fica bem a cimaruta

Resposta curta: a quem sente próxima a ideia de proteger através dos símbolos e a quem gosta das peças que trazem uma história dentro.

A cimaruta não é um sinal cultural fechado nem um objeto religioso em sentido estrito. Usam-na pessoas das mais diversas convicções, e nenhuma tradição proíbe pôr um raminho de arruda a alguém sem raízes italianas. Os italianos até celebram o interesse pela sua cultura popular, sobretudo se se souber que símbolos pendem do ramo.

O amuleto fica bem:

Convém dizer com honestidade também a quem fica pior o raminho de arruda. Se gosta de joias grandes e chamativas com um só acento vistoso, a cimaruta miúda pode parecer-lhe inquieta. Se prefere o ouro quente ao invés da prata fria, o amuleto tradicional discutirá com o resto do guarda-roupa. E se procura um sinal que os de volta entendam à primeira, tenha em conta que a cimaruta poucos a reconhecem: ao contrário do cornetto ou do olho azul, continua a ser um símbolo para iniciados. Para uns isso é um inconveniente, para outros, pelo contrário, o seu maior encanto.

A psicologia do amuleto

Não é preciso acreditar na deusa lunar para que a cimaruta funcione. Os mecanismos que tornam úteis os amuletos protetores estão estudados e não exigem misticismo.

Redução da ansiedade. A pessoa que tem «algo coberto» dá menos voltas na cabeça às possíveis desgraças. Um raminho de prata ao pescoço dá a sensação de que parte das preocupações foi delegada no amuleto, e a mente larga o excesso de inquietação.

Âncora de memória. Quando a cimaruta é oferecida por um ente querido, o pendente torna-se uma ligação material a essa pessoa. O olhar cai sobre o ramo e na cabeça aflora quem o ofereceu. Com o tempo isso funciona como um regulador silencioso do ânimo.

Sossego tátil. As figurinhas pequenas do ramo são agradáveis de passar entre os dedos. O hábito de tocar o amuleto num momento de tensão distrai e acalma, é uma autorregulação simples que tem muitos séculos.

Reforço da identidade. Para quem sente próxima a magia popular e a simbologia lunar, usar uma cimaruta é um «eu sou assim» diário. As âncoras de identidade aumentam a resistência ao stress, por isso as pessoas apreciam tanto trazer os sinais daquilo em que acreditam.

Nada de sobrenatural há aqui. O amuleto não muda a realidade, muda a relação do seu dono com ela, e muda-a de forma mensurável.

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A cimaruta na arte e nas coleções

As cimarutas antigas conservam-se nas coleções etnográficas e de joalharia da Europa. Apreciam-se como arte popular e como fonte para a história das crenças do sul de Itália. Ao contemplar um conjunto destes amuletos, vê-se como mudava a moda dos símbolos: nuns predomina a meia-lua lunar, noutros os corações e querubins cristãos, noutros toda uma fauna de serpentes, peixes e galos.

No século vinte a imagem da cimaruta saiu dos limites da etnografia. Os artistas e joalheiros do interesse renovado pelo oculto começaram a repensar o raminho de arruda em joias contemporâneas. Aparece em coleções dedicadas ao tema da bruxaria e do lunar, nas ilustrações de livros sobre magia popular, no trabalho de criadores que se apoiam conscientemente na tradição mediterrânica. Para muitos a cimaruta tornou-se o símbolo gráfico da «fé antiga» em geral, a par do pentagrama e da meia-lua.

O amuleto tem uma vida à parte na cultura digital. Nas comunidades interessadas pelo folclore e pela história da magia, o raminho de arruda comenta-se, desenha-se, usa-se como tatuagem. De amuleto napolitano local passou a ser uma senha reconhecível para quem ama o tema das deusas lunares e da feitiçaria popular.

Cimaruta, cornicello e nazar: comparação
AmuletoFormaMaterialOrigemCamadas de significado
CimarutaRaminho de arruda com símbolosPrata (metal da Lua)Nápoles, culto de Diana
CornicelloCorno curvoCoral, ouro (Sol)Itália, Roma antiga
NazarOlho azulVidro, esmalteTurquia, Grécia

Como escolher uma cimaruta

Tamanho e pormenor

Para um pendente de todos os dias, o ótimo são três a cinco centímetros. Abaixo de três as figurinhas fundem-se e perdem legibilidade, e todo o encanto da cimaruta está nos seus símbolos reconhecíveis. Acima de seis o amuleto começa a pesar mais do que devia e a prender-se na roupa com os seus bordos vazados.

Repare no trabalho. Numa boa cimaruta cada símbolo é reconhecível: a meia-lua é uma meia-lua, não um rabisco sem nome, a chave lê-se como chave e o galo como galo. As fundições baratas dão muitas vezes figurinhas esborratadas onde metade dos sinais não se identifica. Um amuleto cujos símbolos não se conseguem ler perde o seu sentido principal.

A autenticidade dos símbolos

Antes de comprar, perceba o que exatamente pende do ramo. O núcleo clássico é a meia-lua, a serpente, a chave, a mão, o galo, a flor. Se o vendedor chama cimaruta à peça mas nela há um conjunto qualquer sem um só sinal lunar nem protetor, tem diante antes um raminho abstrato do que um amuleto a sério.

Pergunte pelo conjunto de símbolos e pelo seu significado. Uma oficina séria explicar-lhe-á porque reuniu justamente aquelas figuras. É isso que distingue um amuleto com sentido de uma joia que se limita a repetir uma forma da moda sem a entender.

Onde procurar

Evite as estampagens sem alma, onde a cimaruta se vende como «um simples pendente de raminho». O valor do amuleto está no conjunto de símbolos com sentido e na ligação à tradição, não na mera forma botânica.

Como distinguir um raminho antigo de uma réplica nova

Uma cimaruta de antiquário denuncia a sua idade por vários traços. Olha-se o reverso: numa fundição velha não costuma ser tão liso como a boa face, com marcas de retoque à mão e uma pátina suave e profunda nos vãos, difícil de falsificar de forma artificial. Uma negrura pareja e igual por toda a superfície fala antes de um «envelhecimento» intencional de uma peça nova.

Ajuda também o contraste. As peças napolitanas antigas nem sempre se marcavam com um padrão único, mas muitas trazem punções de contraste locais pelos quais um especialista data a peça. A ausência total de punções não é em si uma condenação, mas é um motivo para perguntar ao vendedor pela história do objeto. Por fim, olha-se o desgaste da argola e do aro de suspensão: num amuleto que se trouxe décadas numa corrente, a argola costuma estar limada e esticada. Uma argola impecavelmente fresca num raminho «centenário» é motivo para duvidar.

Nada de mau há numa réplica moderna, uma boa cimaruta nova funciona igual a uma antiga. Convém conhecer os traços da idade por outra razão: para entender o que se tem entre as mãos e não tomar uma fundição recente por uma rara antiguidade.

Cimaruta e cornetto: em que se distinguem

Ambos os amuletos vêm do sul de Itália, ambos protegem do mau-olhado, e a ambos os napolitanos costumam usá-los juntos. Mas estão concebidos de outra maneira, e compreender a diferença ajuda a escolher o próprio.

A forma. O cornetto é um único corno curvado, volumoso e liso. A cimaruta é um raminho plano e ramificado com um cacho de símbolos pequenos. Um sinal frente a toda uma constelação.

O material. O cornetto faz-se de coral vermelho e ouro, jogando com a simbologia solar e vital. A cimaruta é de prata, lunar, feminina. Os metais opõem-se de propósito.

O sentido. O cornetto aponta a um só alvo: a ponta «pica» o mau-olhado. A cimaruta é um conjunto de amuletos, onde cada figura cobre a sua própria ameaça, e juntas remetem para a deusa tripla Diana.

A difusão. O cornetto tornou-se um símbolo global de Itália, conhece-se de Nova Iorque a Tóquio. A cimaruta continuou a ser mais rara e esotérica, senha para quem cavou mais fundo na magia popular.

Parâmetro Cimaruta Cornetto
Forma Raminho de arruda com símbolos Corno único curvado
Material Prata (metal da Lua) Coral, ouro (Sol)
Simbologia Conjunto de sinais, deusa tripla Um sinal, ponta contra o mau-olhado
Origem Nápoles, culto a Diana Roma antiga, culto ao corno
Difusão Raro, esotérico Símbolo global de Itália

Usam-se juntos

A oposição aqui é relativa. Na tradição napolitana o cornetto e a cimaruta penduravam-se sem problema do mesmo pescoço ou de correntes vizinhas. A lógica é simples: o corno responde pelo golpe direto ao mau-olhado, o raminho pela proteção ampla frente a todo um leque de males. O corno solar e o ramo lunar complementam-se, fechando o círculo da defesa.

Se já usa um cornetto e quer reforçar o conjunto, a cimaruta é o passo natural seguinte. E ao invés: a um raminho de prata assenta bem juntar um corno de coral pelo equilíbrio solar e lunar. Reunir a proteção com vários amuletos de tradições diferentes é um velho costume mediterrânico, não uma moda contemporânea.

A diferença de carácter nota-se bem, ainda por cima. O cornetto qualquer transeunte o entende, tornou-se há muito um postal de Itália e não precisa de explicação. A cimaruta, pelo contrário, é uma peça de conversa: quase todo o que a vê pergunta que raminho é aquele e porque traz tantas figurinhas. Um amuleto funciona como senha de pertença, o outro como pretexto para contar toda uma história sobre Diana, a arruda e as bruxas napolitanas. Muitos apreciadores por isso mesmo usam os dois: o corno para o dia a dia, o ramo para as ocasiões em que se quer que a joia fale.

Cimaruta, lúnula e nazar

O raminho de arruda não é o único escudo mediterrânico contra o mau-olhado, e convém vê-lo na fila dos seus parentes. O mais perto dele está a lúnula antiga, um simples pendente em meia-lua que na Roma antiga se pendurava ao pescoço das meninas para a proteção lunar. No fundo a lúnula é um único rebento solto da cimaruta, essa mesma meia-lua crescida até ser um amuleto autónomo. O raminho de arruda absorveu, por assim dizer, a lúnula dentro de si e carregou-a de outros sinais.

O nazar, o olho azul de vidro, chegou da outra margem, do Mediterrâneo oriental e da Anatólia. Bate na mesma ameaça, o mau-olhado, mas trabalha de outro modo: não com um conjunto de símbolos da deusa tripla, mas com um olhar de espelho que reflete a inveja de volta ao invejoso. A mão de Fátima, a hamsa, acrescenta ao olho uma palma escudo e vem da tradição do Próximo Oriente.

A diferença entre eles não está na força, mas na língua. A cimaruta fala na língua da Itália antiga e do culto lunar, o nazar na língua do amuleto espelho oriental, a hamsa na língua das palmas do Próximo Oriente. Reuni-los, como se faz desde há muito nas cidades portuárias do Mediterrâneo, significa cobrir a ameaça ao mesmo tempo em vários «dialetos».

Mitos sobre a cimaruta
Uma cimaruta autêntica deve ter um número de símbolos rigorosamente fixo
Toque
A cimaruta pode ser de ouro
Toque
A cimaruta protegia das bruxas e era ao mesmo tempo um sinal das próprias bruxas
Toque
A cimaruta só pode ser usada por alguém com raízes italianas
Toque
A arruda do amuleto é só uma planta bonita sem maior significado
Toque
A cimaruta é um objeto puramente pagão, incompatível com o cristianismo
Toque

Mitos sobre a cimaruta

À volta do raminho de arruda cresceram durante séculos muitas crenças, e nem todas são exatas. Parte assenta na tradição real, parte em conjeturas tardias. Os cartões acima desmontam as afirmações mais frequentes, e aqui convém sublinhar o principal: a cimaruta não tem um cânone «correto» único.

O conjunto de símbolos, o número de figuras, até o significado exato de alguns sinais mudavam de oficina para oficina e de século para século. Discutir se é «autêntica» uma cimaruta de oito símbolos frente a outra «autêntica» de três não faz sentido. Ambas são autênticas, só que falam em dialetos diferentes de uma mesma linguagem de amuletos. O valor do raminho está na ligação viva à tradição, não na coincidência literal com o catálogo de ninguém.

Dados que surpreendem

Amuleto contra as bruxas e para as bruxas. A cimaruta protegia da feitiçaria e era ao mesmo tempo a senha de quem participava nessa feitiçaria. Um mesmo objeto servia de escudo e de credencial.

A arruda é venenosa. A planta que se tornou símbolo de proteção provoca queimaduras ao contacto com a pele sob o sol, e em doses grandes é perigosa. Os antigos conheciam a sua capacidade de queimar, e provavelmente essa «força» da erva convenceu-os de que era capaz de queimar também o mal.

O três está inscrito na própria erva. A arruda ramifica-se de três em três na natureza, e isso casou na perfeição com o culto à deusa tripla. A planta pareceu sugerir por si só a forma do amuleto para a deusa tripla: Diana, Hécate e a Lua.

A fama deu-a um norte-americano. Não um sábio italiano, mas o folclorista dos Estados Unidos Charles Leland introduziu a cimaruta na literatura mundial no fim do século dezanove. Sem os seus livros o raminho teria continuado a ser uma curiosidade napolitana local.

Nunca de ouro. Ao contrário de quase todos os amuletos de gala, a cimaruta é de prata por princípio. A versão de ouro quebra a ligação com a Lua e na velha tradição ter-se-ia tido por uma casca vazia.

O galo e a lua repartem o dia. Num mesmo pendente convivem o galo solar e a meia-lua lunar. Juntos dão uma guarda de vinte e quatro horas: o galo vela o dia e a alvorada, a lua vela a noite.

A cidade das bruxas existe. Benevento, na Campânia, carregou durante séculos com a fama de ser lugar de aquelarres à volta de uma nogueira lendária. De lá vem parte das lendas que estão por trás da cimaruta.

As bruxas guerreavam em sonhos. No norte de Itália acreditava-se nos benandanti, «os que andam pelo bem», que de noite abandonavam o corpo e peleavam com as bruxas pela colheita com hastes de funcho. A Inquisição passou séculos sem conseguir decidir se eram feiticeiros ou defensores contra a feitiçaria, exatamente como a arruda era arma contra as bruxas e erva das próprias bruxas.

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Perguntas frequentes

O que significa a palavra cimaruta? A palavra compõe-se das napolitanas cima (a ponta, o rebento) e ruta (a arruda) e significa literalmente «a ponta da arruda». O amuleto faz-se precisamente com a forma de um raminho dessa erva. A arruda tinha-se desde a Antiguidade por uma planta que afugenta o mal, por isso o seu ramo se tornou a base do amuleto.

De que protege a cimaruta? Antes de mais do mau-olhado (malocchio) e da feitiçaria. Cada símbolo do ramo cobre a sua própria ameaça: a meia-lua dá proteção noturna, a mão reflete o mau-olhado, a serpente guarda a saúde, o galo espanta a corja da noite, a chave fecha o limiar da casa. Juntos compõem uma defesa ampla.

Porque é que a cimaruta se faz de prata? A prata é o metal da Lua, e o amuleto está consagrado à deusa lunar Diana. O ouro e o coral associam-se ao Sol e à força vital, por isso se deram ao cornetto. Uma cimaruta tradicional autêntica é sempre de prata ou de metal branco, e a velha tradição não reconhece a versão de ouro.

A cimaruta é um símbolo pagão ou cristão? Os dois ao mesmo tempo. Na sua base estão o culto antigo a Diana e a magia popular do sul de Itália, mas com o tempo foram-se acrescentando ao ramo sinais cristãos: o coração, o querubim, o peixe. O amuleto conviveu em paz durante séculos com a cruz, tal como o cornetto. Dois sistemas trabalhavam em paralelo.

Posso usar uma cimaruta se não for italiano? Sim. Não é um sinal cultural fechado. O raminho de arruda é usado por todo o mundo por pessoas a quem é próximo o tema da simbologia lunar e da magia popular. Os italianos tomam o interesse pela sua tradição antes como um elogio.

Quantos símbolos deve ter uma cimaruta autêntica? Não há um número estrito. O núcleo compõem-no a meia-lua, a serpente e a flor ou a chave, e a partir daí o mestre acrescentava figuras ao gosto, de três a dez e mais. Um exemplar de três sinais não é menos autêntico do que um de dez. O que importa é que os símbolos se leiam e tenham sentido.

Em que se distingue a cimaruta do cornetto? O cornetto é um único corno de coral ou de ouro que «pica» o mau-olhado com a ponta. A cimaruta é um raminho de prata com um conjunto de símbolos, consagrada à deusa tripla. O corno é solar e de um só fim, o ramo é lunar e de muitas camadas. Os napolitanos costumam usar os dois amuletos juntos.

A cimaruta oferece-se ou compra-se a si próprio? Por tradição o amuleto oferece-se, tal como o cornetto. Com especial frequência a cimaruta dava-se pelo nascimento de uma criança, pendurando-a no berço. Uma peça oferecida com boa intenção tem-se por mais forte do que uma comprada, ainda que ninguém proíba comprar-se a si próprio o raminho.

Como cuidar de uma cimaruta de prata? Limpa-se com um pano macio para prata, as forquilhas difíceis passam-se com uma escova mole e uma gota de sabão, e seca-se bem. As pastas abrasivas apagam o trabalho fino dos símbolos, por isso não se usam. É melhor guardá-la num saquinho de tecido sem acesso de ar, e aplicar o perfume e o creme antes de pôr o pendente. Uma leve negrura nos vãos não estraga o amuleto, antes sublinha o relevo do ramo.

É verdade que a arruda é venenosa? Sim, a arruda fresca é cáustica: o seu sumo, ao contacto com a pele sob o sol, pode provocar uma queimadura, e em doses grandes a planta é perigosa. Foi precisamente essa força da erva que os antigos tomaram por prova da sua capacidade de afugentar o mal. No amuleto de prata isso não influi em nada, já que no metal da planta só fica a forma, não o sumo.

Em que se distingue a cimaruta da lúnula? A lúnula é um simples pendente antigo em meia-lua, um único sinal lunar. A cimaruta inclui a meia-lua como um dos seus rebentos, mas acrescenta-lhe a serpente, a chave, a mão, o galo e a flor, compondo todo um conjunto de amuletos em torno da imagem da deusa tripla. Pode dizer-se que a lúnula é uma cimaruta reduzida a um só símbolo.

Pode fazer-se uma tatuagem de cimaruta? A tradição não impõe qualquer proibição. Nas comunidades interessadas pelo folclore e pelo tema lunar, o raminho de arruda tatua-se de facto como senha da «fé antiga». O sentido conserva-se igual ao do amuleto de metal: proteção e ligação à magia popular do sul de Itália. A diferença está só em que uma tatuagem não se pode tirar e oferecer, como sim um raminho de prata.

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Conclusão

A cimaruta percorreu o caminho que vai do molho de arruda por cima da porta da aldeia ao fino pendente de prata com uma constelação de símbolos. O raminho absorveu a Diana antiga, as forças noturnas de Hécate, o galo solar e toda uma série de sinais da magia popular do sul de Itália. Num pequeno ramo coube a imagem inteira de um mundo em que a lua, a serpente e a chave significavam tanto como o ferrolho da porta.

Acredite ou não na deusa lunar, ou simplesmente aprecie um amuleto belo de raízes fundas, a cimaruta continua a ser um dos símbolos mais complexos e eloquentes da tradição mediterrânica. A par do cornetto direto, lê-se como uma frase longa a par de uma só palavra precisa. Tanto uma como a outra têm a sua força.

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Sobre a Zevira

A Zevira faz joias na tradição de Albacete, em Espanha. A cimaruta é desses símbolos que amamos: por trás de um raminho de aspeto simples esconde-se todo um universo de magia mediterrânica, e cada um dos seus sinais se pode ler como um verso. Reproduzimos a ramificação tradicional e as figuras reconhecíveis, mas em proporções contemporâneas e com uma grafia limpa de prata.

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