
Anúbis: deus egípcio do além, significado do símbolo e joias
A Anúbis costuma chamar-se deus da morte, mas os egípcios viam nele outra coisa: um guardião e um guia, aquele que acompanha através da escuridão e segura a balança no juízo. Os chacais rondavam as margens das necrópoles e escavavam a areia, e o povo não viu neles profanadores, mas sentinelas postas para velar pelos mortos.
Dessa observação nasceu uma das imagens mais reconhecíveis do mundo antigo: uma cabeça canina negra sobre ombros humanos, o olhar sereno, as costas direitas. Anúbis não ameaça nem castiga. Está de pé no limiar entre a vida e aquilo que vem depois, e o seu trabalho é silencioso, preciso, quase artesanal. Prepara o corpo, guia a alma pelos corredores do além e vela para que a balança da justiça penda com honestidade.
Este guia aborda Anúbis sem pressa e sem histórias de medo. Quem é ele dentro do panteão egípcio, por que a sua cor fala de renascimento e não de luto, como perdeu e reformulou o papel de deus principal dos mortos, o que acontece na pesagem do coração e como a imagem antiga continua viva hoje num pendente, num anel, num amuleto. O respeito pela fé antiga de outro povo não é aqui uma pose: por trás da figura de Anúbis há uma imagem inteira e pensada da morte como passagem, não como fim.
Combinemos desde já o tom. Anúbis não é uma personagem de terror nem um «senhor das trevas» da cultura de massas. Dentro da sua própria religião foi um sustento e um consolo, um deus a quem se confiava o mais frágil de tudo, a passagem do defunto à eternidade. É por este lado que se torna mais interessante, e é este lado que veremos em detalhe.
Quem é Anúbis: o chacal diante da balança
Anúbis é o deus egípcio do sepultamento, do embalsamamento e da passagem ao além, representado como um homem com cabeça de chacal ou como um chacal negro deitado. O seu nome grego é Anúbis; o egípcio, Inpu ou Anpu. No panteão já formado tinha-se por filho de Osíris e Néftis, criado por Ísis, e mão direita do senhor do além no juízo dos defuntos. O seu papel é claro e completo: guarda o corpo, guia a alma e segura a balança.
Como é Anúbis: o chacal diante da balança
A imagem canónica de Anúbis compõe-se de duas formas. A primeira é um chacal negro deitado com as orelhas alerta, muitas vezes sobre um túmulo ou um santuário, como uma sentinela no seu posto. A segunda é um homem com corpo humano e cabeça de chacal, de pé diante da balança ou inclinado sobre uma múmia. A cabeça é alongada, as orelhas afiadas e erguidas, o focinho estreito. Nas mãos costuma levar o cetro uas e o anj, sinais de poder e de vida eterna. Esta postura, recolhida e atenta, lê-se de imediato: diante de nós não está um guerreiro, mas um servidor ocupado no seu labor. Anúbis tinha ainda um emblema próprio, o imiut: uma pele de animal sem cabeça atada pela cauda a um poste e mergulhada num vaso. Este sinal de aspeto estranho colocava-se nos lugares de embalsamamento e pintava-se junto ao deus desde os tempos mais remotos, e apontava também para a sua ligação ao rito de preparar o corpo.
A cor preta: terra fértil e renascimento, não luto
O preto de Anúbis é fácil de tomar por sinal de luto, mas no Egito significava exatamente o contrário. Preto era o lodo fértil que o Nilo deixava nos campos depois da cheia, e desse lodo dependia toda a vida do país. Preto ficava também o corpo tratado com resinas e natrão durante o embalsamamento. Ambos os pretos falavam não de morte, mas de renascimento: como o campo revive sob o lodo negro, assim o defunto se prepara para uma nova vida. Por isso Anúbis era pintado de preto, a cor da ressurreição prometida e não do apagar-se.
O nome e os epítetos: «aquele que está sobre a sua montanha»
Atrás do nome de Anúbis arrasta-se uma fila de títulos, e cada um descreve uma faceta do seu labor. Chamava-se-lhe «aquele que está sobre a sua montanha», imaginando o chacal que vigia a necrópole de uma alta crista sobre o vale. Nomeava-se «o primeiro dos ocidentais», senhor dos mortos, pois o ocidente, onde o sol se punha, era para os egípcios o lado dos defuntos. Outro título, «aquele que está no lugar do embalsamamento», apontava diretamente para o seu papel na oficina onde se preparava o corpo. Estes nomes compõem o retrato de um deus profissional, com o seu posto, a sua morada e o seu ofício.
Os chacais junto às necrópoles: de onde vem a imagem
A imagem de Anúbis cresceu de uma observação simples e algo sombria. Os egípcios enterravam os seus mortos à beira do deserto, e à noite às sepulturas recentes acudiam chacais e cães selvagens que escavavam a areia com avidez. A lógica do homem antigo voltou a ameaça em proteção: se esta fera se sente tão atraída pelos mortos, que seja ela a velar por eles. Assim o necrófago selvagem tornou-se sentinela divina, posto para guardar os corpos e acompanhar as almas. Nesta transformação vê-se todo o modo de pensar egípcio, onde o temível se compreendia e se domava em vez de se rejeitar. A fera que se temia junto aos túmulos ocupou o lugar do guardião do limiar.
Dessa antiga observação nasceu um símbolo que chegou até nós quase sem mudanças. Uma cabeça de chacal sobre ombros humanos lê-se hoje com a mesma clareza que há quatro mil anos, e aí está a solidez da iconografia egípcia: construía-se sobre imagens simples e evidentes, compreensíveis sem legenda. Por isso Anúbis encaixa tão bem numa joia. A sua silhueta é reconhecível de relance, e o seu sentido, proteção e guia, soa sério, sem susto de carnaval.
Antes de abordarmos o juízo e o caminho do além, convém ver quão longo e fundo foi o enraizamento de Anúbis na vida egípcia. Não foi um espírito menor à margem do panteão. Nas épocas mais antigas foi dele o papel principal no destino do defunto, e só mais tarde o partilharam com ele outros deuses. A história do seu culto é a história de uma reorganização gradual, na qual o deus não desaparece, mas muda de cargo e continua a ser insubstituível.
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A história do culto
Anúbis é um dos deuses mais antigos do Egito, e a sua veneração estende-se ao longo dos três mil anos de história do país. Aparece já nos textos reais mais recuados, muito antes de se formarem os mitos que hoje conhecemos. Seguir o seu percurso é ver como mudou a própria imagem egípcia da morte.
O Império Antigo: deus principal dos mortos
Na época do Império Antigo, nos tempos dos construtores de pirâmides, Anúbis era o deus supremo dos mortos, e este é o seu papel primeiro, o mais antigo. Nos Textos das Pirâmides, gravados nas paredes dos túmulos reais, dirigem-se a ele como ao principal administrador do sepultamento, aquele que recebe o rei defunto e lhe assegura a eternidade. Ainda não se formara o culto desenvolvido de Osíris, e era Anúbis quem respondia pela passagem do soberano ao outro mundo. O seu nome soa nas fórmulas funerárias mais antigas com mais frequência do que muitos outros, e isso diz o peso que tinha no início da história egípcia.
Como Osíris substituiu Anúbis
Com o tempo passou para primeiro plano na esfera do além Osíris, o deus assassinado e ressuscitado, cuja história dava às pessoas esperança na sua própria ressurreição. Rei dos mortos passou a ser ele, e Anúbis cedeu-lhe o papel supremo, mas não desapareceu nem foi esquecido. O pensamento egípcio agiu com elegância: não aboliu o velho deus, antes o reatribuiu. Anúbis fez-se filho e ajudante de Osíris, aquele que prepara o corpo e leva a alma ao trono do novo senhor. Assim o deus mais antigo dos mortos converteu-se em guia e embalsamador ao serviço do novo rei do além, conservando todo o seu peso na prática do sepultamento. A deusa Ísis e todo o panteão egípcio inscreveram Anúbis na história familiar de Osíris, e ele ocupou nela um lugar firme.
O embalsamamento e a máscara de Anúbis
A Anúbis tinha-se por padroeiro dos embalsamadores e pelo primeiríssimo embalsamador, pois segundo o mito foi ele quem reuniu e tratou o corpo despedaçado de Osíris, criando a primeira múmia. Dessa lenda nasceu uma prática ritual real. O sacerdote que dirigia o embalsamamento envergava durante os ritos uma máscara com cabeça de chacal, e nesse momento convertia-se, por assim dizer, em Anúbis, agia com as suas mãos. Tais máscaras chegaram até aos nossos dias, e por elas se vê quão literalmente entendiam os egípcios a presença do deus na oficina. Uma dessas máscaras de cerâmica com cabeça de chacal, pela qual o sacerdote olhava através de fendas à altura do pescoço, conservou-se inteira e guarda-se num museu europeu, mostrando com clareza como era o rito por dentro. O trabalho sobre o corpo era um ato sagrado, não um ofício no sentido corrente, e dirigia-o um deus encarnado no sacerdote.
O rito em si durava uns setenta dias e assentava numa ordem estrita de ações. Abria-se o corpo, extraíam-se as vísceras e colocavam-se em quatro vasos, chamados canópicos, sob a proteção de deuses guardiães especiais. O cérebro retirava-se e não se conservava, ao passo que o coração se deixava no corpo, pois era ele que devia pousar na balança. O corpo cobria-se de natrão, uma soda natural dos lagos salgados, e mantinha-se assim até perder toda a sua humidade. Depois ungia-se com resinas e óleos, que escureciam a pele, e envolvia-se em camadas de ligaduras de linho, colocando amuletos entre as voltas. Este trabalho decorria numa oficina especial chamada «lugar puro» ou «casa do embalsamamento», e dirigia-o aquele mesmo sacerdote mascarado.
O centro principal deste ofício era Saqqara, a vasta necrópole junto à antiga capital de Mênfis. Ali trabalhavam os embalsamadores de geração em geração, e ali mesmo, sob terra, estendiam-se as catacumbas consagradas a Anúbis. O papel do sacerdote com máscara de chacal não era teatro, mas o próprio núcleo do rito: nessas horas, segundo a fé egípcia, o próprio deus agia através das mãos do homem, repetindo o que um dia fez com o corpo de Osíris. Por isso os embalsamadores eram olhados com um sentimento duplo, com reverência pelo seu saber sagrado e com receio perante quem se aproximava tanto da morte.
O Duat: o caminho pelo além
Ao além os egípcios chamavam Duat, e não era um prado apaziguado, mas uma região complexa com portas, guardiães, lagos de fogo e seres perigosos. O defunto tinha de percorrer esse caminho conhecendo as palavras e os nomes certos, e aqui Anúbis fazia de guia. Levava a alma pelos corredores do Duat, ajudava-a a esquivar as armadilhas e conduzia-a à sala do juízo. O papel de guia entre mundos, aquele que conhece o caminho na escuridão e não deixa perder-se, tornou-se um dos principais na imagem de Anúbis. É justamente ele que faz dele, numa leitura moderna, um deus da passagem e não um deus da perdição.
Junto a Anúbis nesse papel estava outro deus com cabeça de chacal, Upuaut, cujo nome se traduz como «aquele que abre os caminhos». Se Anúbis levava a alma e a protegia, Upuaut ia à frente e explorava o caminho, desimpedia a passagem pelas regiões perigosas. Os dois deuses chacais completavam-se: um abria o caminho, o outro acompanhava por ele. Com o tempo os seus papéis misturaram-se muitas vezes, e ambas as imagens se fundiram numa única ideia do guia que conhece o caminho na escuridão.
Pelo Duat passava também cada noite a barca do sol. Rá, o deus do sol descia ao ocaso ao além, navegava pelas suas doze horas noturnas e combatia as forças do caos para voltar a erguer-se pelo oriente ao amanhecer. Esta viagem noturna do sol seguia os mesmos corredores que o caminho do defunto, e por isso o Duat era para os egípcios um lugar de renovação diária, de onde tanto o sol como a alma saíam para uma nova vida.
Os centros de veneração de Anúbis
Anúbis tinha as suas cidades e santuários, onde era honrado com especial fervor. Os gregos chamavam ao principal deles Cinópolis, «cidade dos cães», pois ali o chacal do deus era rodeado de cuidados, e matar um cão sagrado tinha-se por crime grave. A Anúbis honrava-se também em Abidos, grande centro do culto funerário, e nas necrópoles de Tebas, onde as suas figuras guardavam as entradas dos túmulos escavados na rocha. Os sacerdotes de Anúbis respondiam pelos ritos de embalsamamento e sepultamento, e o seu ofício assentava em regras estritas transmitidas de geração em geração. Esta rede ramificada de santuários mostra que Anúbis não era uma ideia abstrata, mas um deus vivo da religião quotidiana, a quem se recorria sempre que numa família havia uma morte e era preciso despedir o corpo rumo à eternidade conforme todas as regras.
A Anúbis usa-se em prata preta ou com ónix, sobre a pele do pescoço. O ouro não lhe assenta: é um deus da noite, não do desfile.
Como usar Anúbis: com que combinar, metal e comprimento da corrente
Anúbis prefere um fundo escuro e uma apresentação sóbria, por isso monto o conjunto a partir da gama da roupa e não da figura em si. Reúno aqui o que recomendo às minhas clientes quando escolhem este símbolo.
Com que usar Anúbis no dia a dia? Para o dia a dia recomendo um pendente de perfil em prata enegrecida numa corrente de comprimento médio sobre tecido liso. Um padrão berrante discute com o gráfico da cabeça de chacal, por isso escolho um fundo liso: preto, cinzento, grafite, azul-escuro. Sobre tecido escuro e frio a prata oxidada lê-se recolhida e funda, e as orelhas afiadas do perfil mantêm a silhueta nítida.
Que metal escolher conforme a cor da roupa? A Anúbis assenta a gama fria e escura, por isso por defeito aconselho prata enegrecida ou prata com ónix. O ouro recomendo-o com comedimento, só para um conjunto solene e de preferência em par com uma pedra preta, como aquele mesmo par egípcio de ouro e negrura. Um só metal em todo o conjunto mantém a imagem severa, por isso não aconselho misturar prata com ouro num mesmo jogo.
Como escolher o comprimento da corrente? Ajusto o comprimento ao decote. Para um pescoço aberto aconselho uma corrente curta, para que o perfil caia na zona da clavícula, onde se lê melhor. Para uma parte de cima fechada recomendo baixar o pendente, para o alto do peito, assim a figura não se perde sobre o tecido denso. As versões longas deixo-as para um conjunto escuro por camadas, onde Anúbis passa ao nível inferior de correntes como acento. O peso da corrente acerto-o com a figura: um pendente maciço precisa de uma corrente mais densa, a um amuleto leve assenta uma fina.
Que tamanho de figura escolher? Ajusto o tamanho à tarefa. Um perfil pequeno ou um amuleto recomendo-os a quem usa o símbolo de forma silenciosa, mais perto de um amuleto pessoal: não se destaca e fica bem por baixo de uma camisa. Uma figura grande do deus sentado ou um selo largo escolho-os quando Anúbis funciona como acento gráfico chamativo. Também olho para o rosto e a estatura: um perfil diminuto perde-se em ombros grandes, e uma figura grande sobrecarrega uma compleição frágil.
O que serve para o dia a dia e o que para sair? Para o dia a dia e um ambiente sóbrio escolho um anel de sinete com perfil gravado ou um pendente pequeno, onde o símbolo se leia severo e discreto. Para a noite, pelo contrário, recomendo um pendente escuro grande ou ouro com ónix numa corrente longa por baixo de tecido preto liso. A prata oxidada acrescenta um toque gráfico ao dia a dia, e a versão dourada solene guardo-a para a ocasião.

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A pesagem do coração e a pena de Maat
O ponto culminante do caminho do além era o juízo, e a sua cena central, a pesagem do coração, tornou-se a imagem mais célebre da religião egípcia. Pintava-se no «Livro dos Mortos», os rolos que se depositavam no túmulo como guia do além. Nesta cena Anúbis ocupa um lugar chave diante da balança.
O juízo de Osíris e a sala das duas verdades
O juízo do defunto decorria numa sala chamada sala das duas verdades. Ali, no trono, sentava-se Osíris, rei dos mortos, e à volta dispunham-se os deuses juízes. O defunto pronunciava a «confissão negativa», enumerando as faltas que não cometera: não roubou, não mentiu, não ofendeu os fracos, não profanou o sagrado. Mas as palavras sozinhas não bastavam, era preciso prova, e dava-a a balança. Anúbis introduzia o defunto na sala e conduzia-o à balança, agindo como mestre desta cerimónia rigorosa. A calma do deus importa aqui mais do que a severidade: o juízo não era um castigo, mas uma verificação exata da vida vivida.
O coração contra a pena de Maat
Num prato da balança colocava-se o coração do defunto, no outro a pena da deusa Maat, que encarnava a verdade, a ordem e a justiça. O coração, para os egípcios, era a sede do entendimento, da vontade e da consciência, o centro de tudo quanto o homem fizera em vida. Se o coração não resultasse mais pesado do que a leve pena, então a vida fora vivida de acordo com a verdade, e ao defunto declarava-se justificado. Um coração carregado de más obras inclinava a balança e condenava o seu dono. Anúbis vigiava a agulha da balança e velava para que a pesagem decorresse impecável, enquanto o deus Tot registava a sentença. A imagem é simples e funda: julga-te não uma lei alheia, mas o teu próprio coração, posto na balança contra a verdade. Para que o coração não traísse o seu dono nesse instante, os egípcios colocavam-lhe no peito um amuleto especial, o escaravelho do coração. Nele gravava-se um esconjuro que rogava ao coração que não testemunhasse contra o seu senhor e não inclinasse o prato. Este pormenor mostra quão a sério tomavam os egípcios o juízo: preparavam-se para ele de antemão, inserindo entre as ligaduras da múmia um amuleto próprio para o caso em que se decidia a eternidade.
Ammit: a devoradora dos indignos
Junto à balança aguardava um ser chamado Ammit, cujo nome se traduz como «devoradora dos mortos». Representavam-na como um monstro com cabeça de crocodilo, corpo de leão e quartos traseiros de hipopótamo, unindo as três feras mais perigosas para um egípcio. Se o coração inclinasse a pena e ao defunto se declarasse indigno, Ammit devorava o seu coração, e isso significava a perdição definitiva, uma segunda e verdadeira morte sem esperança de eternidade. Ammit não era uma vilã no nosso sentido, executava a sentença, afastando os indignos da vida eterna. A sua presença dava peso ao juízo: o que estava em jogo era a própria eternidade.
Anúbis como pesador imparcial
O traço chave de Anúbis no juízo é a imparcialidade. Não é acusador nem defensor, é quem vela pela honestidade da balança. Nisso está a sua grandeza: o deus da passagem não faz o jogo nem do defunto nem dos juízes, antes garante que a verdade se meça com exatidão. Este papel explica por que Anúbis era honrado sem medo, confiando-se-lhe o momento mais decisivo do destino após a morte. Acreditava-se nele justamente porque não podia ser subornado nem podia enganar-se. Numa leitura moderna, tal imparcialidade soa como um símbolo de honestidade interior: manter o coração leve, viver de modo que a balança não tenha nada que inclinar.
Anúbis na arte e na arqueologia
De Anúbis sabemos tanto pelos textos como pelos objetos que chegaram até nós intactos. Era pintado nas paredes dos túmulos, esculpido em madeira e pedra, desenhado em rolos, e estes monumentos guardam-nos hoje os maiores museus do mundo. Por eles se vê como imaginavam os egípcios o seu deus da passagem e como mudou o seu aspeto de uma época para outra.
A estátua guardiã do túmulo de Tutankhamon
A imagem mais célebre de Anúbis foi achada em 1922 no túmulo de Tutankhamon. À entrada da câmara do tesouro jazia uma figura de madeira de um chacal negro com as orelhas alerta, coberta de resina escura e douramento, sobre um altar portátil sob um véu de linho. O deus guardava literalmente a divisão mais valiosa do túmulo, como uma sentinela no seu posto, e a sua postura repetia a que os egípcios pintavam no alto dos santuários. Esta figura, hoje no Museu Egípcio do Cairo, tornou-se para nós a imagem de referência de Anúbis guardião.
O papiro de Ani e o «Livro dos Mortos»
A cena da pesagem do coração conserva-a melhor do que qualquer outra o papiro de Ani, a cópia mais famosa do «Livro dos Mortos», criada há cerca de três mil anos e guardada hoje no Museu Britânico. Nas suas lâminas Anúbis leva o defunto escriba Ani até à balança, inclina-se para o prato e verifica a agulha, enquanto o deus Tot regista o desfecho, Osíris se senta no trono e a um lado aguarda Ammit. Este rolo e dezenas de semelhantes tornaram reconhecível a imagem do chacal diante da balança por milénios. Os esconjuros do «Livro dos Mortos», antes de mais o cento e vinte e cinco, descreviam em detalhe o juízo e as palavras que o defunto pronunciava diante dos quarenta e dois deuses juízes da sala das duas verdades.
Frescos de túmulos e espólio funerário
A Anúbis pintava-se nas paredes dos túmulos reais e privados, quase sempre na cena sobre a múmia: o deus inclina-se para o corpo estendido num leito de patas de leão e culmina o embalsamamento. Tais pinturas conservam-se nas necrópoles de Tebas, no Vale dos Reis e no Vale das Rainhas. A sua figura aparecia também nos sarcófagos, nos amuletos, nos selos e nas estelas, onde a deusa Ísis e a sua irmã Néftis choravam o defunto junto ao guia com cabeça de chacal. A abundância destes objetos diz que Anúbis acompanhava o egípcio tanto no mito como no espólio real do túmulo, desde uma parede pintada até um diminuto amuleto entre as camadas de ligaduras.
Amuletos e selos com o chacal
Um grupo à parte, e o mais numeroso, de achados são os pequenos amuletos de Anúbis, feitos de faiança, bronze e pedra em séries inteiras. Levavam-nos os vivos como amuleto e inseriam-se nas ligaduras da múmia como proteção na passagem. Uma figurinha de chacal sentado ou deitado do tamanho de uma falange caía em mãos de um egípcio comum muito mais amiúde do que uma grande estátua de templo, e através dela o deus estava perto no quotidiano. A imagem de Anúbis esculpia-se também em selos, escaravelhos e anéis, estampando o seu perfil na argila e na cera. É justamente essa tradição do diminuto sinal portátil a mais próxima de como Anúbis vive hoje numa joia: uma pequena figura junto ao seu dono, posta para o guardar cada dia.
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Achados e escavações célebres
Os egiptólogos desenterraram tanto imagens de Anúbis como os lugares onde se lhe prestava culto ao vivo, com templos, cemitérios de animais sagrados e vestígios de todo um ofício em torno do culto. Estes achados mostram que Anúbis era um deus da religião quotidiana, não uma ideia abstrata dos textos funerários.
Saqqara e o «Anubieion»
O centro principal do culto a Anúbis junto a Mênfis era um recinto templário a que os gregos chamavam Anubieion. Erguia-se sobre a vasta necrópole de Saqqara, onde trabalhavam os embalsamadores de geração em geração. Sob terra, os arqueólogos acharam catacumbas consagradas a Anúbis, longas galerias às quais durante séculos se levavam múmias de cães e chacais. Estas múmias contam-se aos milhões: um peregrino comprava ao templo um animal embalsamado e deixava-o ao deus como súplica, e oficinas inteiras viviam da criação e do sepultamento de cães sagrados.
Múmias de chacais e cães
Os animais para Anúbis mumificavam-se por todo o Egito, mas encontram-se sobretudo muitos em Saqqara e nas necrópoles vizinhas. Parte deles são cães adultos, parte cachorros de poucos dias, criados no templo especialmente para as oferendas. Estes achados abriram aos historiadores todo um lado da economia antiga, onde a piedade e o ofício se entretecem: a procura de uma dádiva ao deus sustentava as criações, os embalsamadores e os comerciantes junto ao santuário. Por trás da silenciosa devoção do peregrino havia uma máquina templária bem oleada.
Cinópolis, a «cidade dos cães»
No Egito Médio erguia-se uma cidade a que os gregos chamaram Cinópolis, «cidade dos cães», em egípcio Hardai. Ali Anúbis era honrado com especial fervor, rodeavam-se de cuidados os cães vivos e tinha-se por crime grave matar um cão sagrado. Os autores antigos recordavam até uma disputa de Cinópolis com uma cidade vizinha pelos animais sagrados, quando uns forasteiros feriram uma fera venerada. Perto, noutros nomos, levantavam-se a Anúbis santuários junto às necrópoles, e o seu estandarte com a figura de um chacal deitado era levado nas procissões funerárias.
Hinos e fórmulas de oferenda
O nome de Anúbis figura na inscrição funerária mais divulgada do Egito, a fórmula de oferenda gravada em estelas, sarcófagos e estátuas. Começava com palavras sobre a oferenda que o rei faz ao deus, e muitas vezes nomeava justamente Anúbis, «aquele que está sobre a sua montanha», «senhor da terra sagrada», pedindo para o defunto um sepultamento digno e oferendas. Esta fórmula repetiu-se milhares de vezes ao longo de toda a história egípcia, e por ela se vê que a Anúbis recorria literalmente todo aquele que preparava para si ou para um ente querido a passagem à eternidade. Encontram-se também hinos avulsos ao deus, onde é louvado como guardião dos segredos do embalsamamento e senhor da terra sagrada, e essas linhas trazem a voz de uma fé viva, não de um rito seco.
Significado e simbolismo
Do mito e do culto cresce um conjunto de sentidos que Anúbis carrega como símbolo. Todos assentam no seu labor de guardião da passagem, e nenhum reduz o deus a uma simples «morte».
Proteção na passagem
O primeiro e principal significado de Anúbis é a proteção no momento da passagem. Guardava o corpo da destruição e a alma dos perigos do caminho do além, montava guarda ali onde o homem está mais indefeso. Daí o seu papel de amuleto: o símbolo de Anúbis lê-se como um pedido de proteção num limiar difícil, seja no sentido antigo da passagem à eternidade ou, no moderno, em qualquer grande mudança da vida. O deus posto para velar pelo mais frágil tornou-se sinal de uma proteção segura.
Guia entre mundos
O segundo significado é a guia. Anúbis levava a alma pela escuridão do Duat, conhecendo o caminho e sem a deixar perder-se. O papel de guia, aquele que caminha ao teu lado no desconhecido e te leva à meta, faz de Anúbis um símbolo de acompanhamento nas mudanças. Os gregos aproximaram-no depois do seu Hermes, guia das almas, e chamaram a essa união Hermanúbis, reconhecendo no deus egípcio a mesma função de condutor entre mundos. Como sinal, Anúbis diz: não estás sozinho no caminho difícil, há quem te guie.
Lealdade e serviço
A natureza canina, de chacal, de Anúbis acrescenta à imagem o tema da lealdade. O cão junto ao túmulo, que não se afasta do morto, lê-se como encarnação da devoção levada até ao fim. Anúbis é fiel ao seu labor e ao seu senhor Osíris, é um servidor, não um soberano, e a sua dignidade está no dever cumprido. Por isso o símbolo de Anúbis é próximo de quem valoriza a lealdade, a fiabilidade e o serviço a algo maior do que si mesmo. É o sinal daquele que mantém a palavra e não abandona o posto. Nessa lealdade há uma força serena: não assenta em juramentos ruidosos, mas no cumprimento diário do próprio trabalho, e por isso se lê como o sinal de uma pessoa em quem se pode confiar no momento mais difícil.
Embalsamador e guardião de segredos
Anúbis guardava os segredos do embalsamamento, o saber sagrado de como preparar o corpo para a eternidade. A isso se liga uma faceta da sua imagem como guardião do conhecimento oculto, iniciado em coisas inacessíveis ao homem comum. Na simbologia moderna este traço atrai quem é puxado pelo saber antigo, pelo esoterismo, pelos mistérios do Egito. Anúbis aqui lê-se como guardião do limiar, tanto entre a vida e a morte como entre o quotidiano e o secreto. O sinal do iniciado que sabe mais do que diz.
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Anúbis na joalharia
A imagem antiga passa ao metal surpreendentemente bem. A cabeça de chacal é gráfica, a silhueta reconhecível, e o sentido sério sem ser lúgubre, por isso Anúbis vive há muito em pendentes, anéis e amuletos.
Pendente com cabeça de chacal
O formato mais divulgado é um pendente em forma de cabeça de chacal ou de figura de Anúbis sentado. O perfil do deus, com o seu focinho alongado e as suas orelhas afiadas, lê-se de imediato e funciona como um forte acento gráfico. Tal pendente usa-se tanto como amuleto da passagem quanto como sinal de interesse pela cultura egípcia. A cabeça de chacal surge muitas vezes em primeiro plano, sublinhando a silhueta reconhecível, ao passo que a figura completa do deus sentado escolhem-na quem se sente mais perto do cânone clássico da representação.
Prata negra e ónix
A simbologia da cor preta de Anúbis leva de modo natural aos materiais escuros. A prata oxidada, enegrecida, repete aquele mesmo preto que significava renascimento para os egípcios e dá à imagem uma profundidade gráfica. O ónix preto ou a obsidiana, como incrustação ou como figura inteira, reforçam este sentido, ligando a joia à cor da terra fértil e da ressurreição prometida. A gama escura faz Anúbis recolhido e severo, sem berraria de carnaval, e transmite o espírito do original com a maior precisão.
Anel de sinete e o perfil de Anúbis
O perfil de Anúbis encaixa bem na placa de um anel de sinete, herdando a antiga tradição das gemas gravadas e dos selos com figuras de deuses. Um selo com cabeça de chacal lê-se como um sinal com carácter, sóbrio e de peso. Um perfil gravado sobre fundo escuro ou um relevo em prata convertem o anel num emblema pessoal. Este formato é próximo de quem prefere usar o símbolo na mão e não no pescoço, e valoriza a ligação à cultura antiga dos anéis de sinete.
Formatos de par e de amuleto
A Anúbis toma-se muitas vezes em par com outros sinais egípcios: com o anj como sinal de vida, com o Olho de Hórus como amuleto, com o escaravelho como símbolo de renascimento. No formato de amuleto ao deus faz-se uma pequena figura de vulto, que se usa como amuleto numa corrente ou num cordão. Tal Anúbis pequeno funciona como sentinela pessoal, um silencioso companheiro posto para velar pelo seu dono. Um conjunto de vários símbolos egípcios compõe-se num todo coerente com um tema comum de passagem, proteção e vida eterna.
A escolha do formato é a escolha de que faceta de Anúbis queres usar. Um pendente de perfil sublinha a reconhecibilidade e o gráfico, o ónix escuro reforça o tema do renascimento, o selo acrescenta sobriedade e ligação à tradição dos selos, e um pequeno amuleto põe o acento na proteção. Nenhuma versão é mais «correta» do que as outras, tudo o decide aquilo que te for mais próximo por sentido e por imagem. Depois convém entrar nos materiais, porque são o metal e a pedra que fixam o carácter de uma peça com um símbolo tão forte.
Materiais
A imagem de Anúbis exige materiais que sustentem a sua seriedade e a sua gama escura. Não servem todos, e cada um tem a sua lógica.
Prata enegrecida
A prata oxidada é o material mais preciso para Anúbis. Os rebaixos escurecidos repetem a sua cor preta e sublinham o relevo da cabeça de chacal, tornando a imagem gráfica e funda. A prata de lei 925 é resistente, apta para uso diário, e sustenta bem o trabalho fino do focinho e das orelhas. O enegrecido convém cuidá-lo: uma limpeza agressiva retira a pátina das reentrâncias, e com ela todo o sentido da gama escura. Faz sentido polir só as arestas salientes, deixando os rebaixos escuros pelo contraste.
Ónix e obsidiana
O ónix preto e a obsidiana vulcânica ligam a joia à simbologia da terra fértil e do renascimento diretamente através da cor. O ónix dá um preto uniforme e profundo com um brilho suave; a obsidiana acrescenta uma profundidade vítrea e um ligeiro reflexo. Destas pedras fazem-se incrustações para pendentes e anéis, e por vezes figuras inteiras talhadas de Anúbis. Uma pedra escura assenta à imagem do deus da passagem melhor do que as gemas vivas: é serena, de peso e não discute com a seriedade do símbolo. Ao escolher convém verificar o ónix quanto a lascas nas bordas do engaste e a obsidiana quanto à ausência de fissuras.
Ouro e banho de ouro
O ouro dá a Anúbis um tom solene e de estatuto e remete para os tesouros dos túmulos egípcios, onde o ouro significava a carne dos deuses e a incorruptibilidade. Uma figura de ouro de Anúbis ou um perfil de ouro sobre fundo escuro leem-se como uma versão superior e solene do símbolo. A prata banhada a ouro dá um tom quente e dourado a um custo razoável, mas o banho gasta-se com o tempo nas arestas salientes, e isso convém ter em conta para o uso diário. A combinação de ouro com ónix preto é especialmente feliz: repete aquele mesmo par egípcio, o ouro dos deuses e o preto do renascimento.
Cuidados
Uma peça com Anúbis, enegrecida sobretudo, agradece um cuidado delicado. Um pano macio e uma guarda seca alongam a vida da pátina e do banho. A prata enegrecida não convém limpá-la com abrasivos nem ultrassons, ou a gama escura sai das reentrâncias. O ónix e a obsidiana temem os golpes e as mudanças bruscas de temperatura, é melhor tirá-los antes do trabalho pesado e do desporto. O banho de ouro protege-se do atrito e da cosmética agressiva. Se a peça leva pedra, verifica de tempos a tempos a firmeza do engaste, para que a figura não se solte e a incrustação não caia.
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Psicologia: por que se escolhe Anúbis
Por trás da escolha de um símbolo assim há quase sempre uma razão interior, e raramente é só por uma estética escura. Anúbis atrai quem sente próximos os temas da passagem, da memória e da proteção, e por aquilo que uma pessoa encontra nesta imagem vê-se o que lhe importa.
A atração pelo tema da passagem
Anúbis é um deus do limiar, e escolhe-se muitas vezes nos momentos em que a própria pessoa está num limiar. Uma mudança de casa, uma mudança de rumo, o fim de uma etapa e o começo de outra ressoam na imagem daquele que guia pelo desconhecido e não deixa perder-se. O símbolo aqui funciona como apoio: recorda que um caminho difícil tem guia e que a passagem não é um despenhadeiro, mas um movimento rumo ao novo. As pessoas que atravessam uma grande mudança sentem-se atraídas por Anúbis justamente por essa promessa serena de um caminho.
A memória dos que partiram
Outra razão frequente é a memória. Anúbis é guardião dos mortos, e o seu sinal toma-se muitas vezes em relação com uma perda, como um silencioso tributo a um ente querido. Não há nisso nada de mórbido: a lógica egípcia via na morte não um fim, mas uma passagem, e o sinal do chacal carrega justamente essa atitude serena. Usar Anúbis em memória de quem partiu é guardar consigo não o luto, mas uma promessa, a de que o caminho continua e que há quem o percorra com cuidado.
A necessidade de proteção
A terceira razão é a proteção. Anúbis guardava o mais frágil, e escolhem-no como amuleto quem valoriza a sensação de ter a retaguarda coberta, uma sentinela segura ao lado. Tal pessoa valoriza a lealdade e a fiabilidade tanto nos outros como em si mesma, e encontra na figura recolhida do deus um sinal dessas qualidades. A estética escura e severa aqui não é de ameaça, mas da força serena daquele que guarda o posto e não abandona o que lhe é confiado. Anúbis é próximo das pessoas para quem a profundidade de sentido importa mais do que o brilho, e que escolhem uma coisa por aquilo que significa.
A quem assenta e a quem oferecer
Anúbis é um símbolo com carácter, e nisso está a sua força. Assenta a quem procura um sinal com profundidade, e funciona bem como presente com sentido e uma mensagem clara.
A quem assenta o símbolo de Anúbis
O símbolo de Anúbis é próximo das pessoas a quem atrai o antigo Egito, a sua mitologia e a sua estética. Assenta a quem valoriza os temas da proteção, da passagem e da honestidade interior, e não teme um símbolo sério. O sinal fica bem a uma pessoa que atravessa uma grande mudança, pois Anúbis é o deus do limiar e do acompanhamento no desconhecido. É próximo também de quem aprecia a lealdade e o serviço, e de quem é atraído pelo saber oculto e pelo esoterismo. A estética escura e gráfica de Anúbis atrai os amantes das joias severas e de peso, sem berraria. O sexo não importa aqui: uma imagem forte e recolhida assenta tanto aos homens como às mulheres.
Anúbis como presente
Como presente escolhe-se Anúbis com um sentido claro. Oferece-se como amuleto da passagem a quem está num limiar de mudanças: antes de uma mudança de casa, de uma mudança de rumo, de uma nova grande etapa. Oferece-se como sinal de proteção e acompanhamento seguro, com o desejo de não se perder num caminho difícil. Tal presente é apropriado também para uma pessoa apaixonada pelo Egito, colecionadora de símbolos, amante da história. A prata escura com Anúbis lê-se severa e séria, e a versão com ouro e ónix converte o presente num gesto solene. À joia convém acrescentar um par de palavras sobre que Anúbis é um guardião e um guia, não um deus da perdição, para que o sentido se desdobre como deve.
Anúbis e os símbolos vizinhos
Anúbis não vive em solidão, mas numa família de sinais egípcios, e ao seu lado o seu sentido vê-se com mais nitidez. A comparação ajuda a perceber em que é forte justamente a imagem do chacal entre os demais símbolos do Egito.
Anúbis e o anj
O anj é a cruz egípcia com um laço em cima, o sinal da vida e da existência eterna. A Anúbis representa-se muitas vezes com um anj na mão, e esta combinação é profundamente lógica: o deus da passagem segura o símbolo da vida, porque o seu labor leva não a um fim, mas a uma continuação eterna. Se Anúbis responde pelo caminho através da morte, então o anj, a cruz da vida assinala a própria meta desse caminho, uma vida que não se interrompe. Em par leem-se como a passagem e a sua recompensa.
Anúbis e o escaravelho
O escaravelho, o escaravelho sagrado que empurra a sua bola, era para os egípcios sinal de renascimento e de sol nascente. O seu sentido rima com Anúbis através do tema da ressurreição: ambos falam de uma nova vida após a escuridão. Mas os seus acentos são distintos. O escaravelho trata do renascimento em si, do sol da manhã que se ergue de novo, ao passo que Anúbis trata do caminho e da proteção nele. Juntos compõem-se num pensamento inteiro: o guia leva através da escuridão, e o escaravelho promete o amanhecer no fim.
Anúbis e o Olho de Hórus
O Olho de Hórus, o udjat, era um poderoso amuleto de saúde, integridade e proteção. Guardava do mal e restaurava o perdido. Junto a Anúbis vê-se a repartição de papéis: o Olho de Hórus, o udjat protege dos males e das doenças nesta vida, e Anúbis protege na passagem à seguinte. Ambos os sinais são protetores, mas trabalham em troços distintos, um no mundo dos vivos, o outro no limiar. Por isso usam-se muitas vezes juntos como uma dupla guarda, a diurna e a do limiar.
Anúbis e Bastet
Bastet, a deusa gata, está também ligada a uma forma animal, mas a sua esfera é a oposta. O gato e a deusa Bastet respondiam pelo lar, a alegria, a fecundidade e a proteção da casa, pelo calor da vida quotidiana. Anúbis respondia pela morte e pela passagem, pelo lado severo do ser. Juntos traçam a amplitude do panteão egípcio: desde o lar sob a pata do gato até ao limiar da eternidade sob a guarda do chacal. A comparação mostra que os egípcios não dividiam os deuses em bons e maus, antes repartiam entre eles as distintas regiões da vida e da morte.
A tabela torna patente a diferença: cada símbolo egípcio tem a sua forma, a sua região e o seu sentido, e Anúbis entre eles responde pela zona mais decisiva, a passagem e a proteção nela. Percebendo esta repartição de papéis é mais fácil compor um conjunto com sentido, onde os sinais se completam em vez de repetir uma mesma ideia. Anúbis com o anj é passagem e vida, Anúbis com o escaravelho é caminho e amanhecer, Anúbis com o Olho de Hórus é dupla proteção. Cada par soa à sua maneira.
Anúbis na cultura: de Hermanúbis aos nossos dias
A imagem de Anúbis não ficou fechada na religião do antigo Egito. Sobreviveu a essa própria religião, passou aos gregos e aos romanos, e depois chegou até ao nosso tempo como um dos sinais mais reconhecíveis do Egito.
Hermanúbis entre gregos e romanos
Quando o Egito entrou no mundo grego e depois romano, os deuses das duas culturas começaram a aproximar-se. A Anúbis, guia das almas, uniu-se o grego Hermes, condutor dos mortos, e à figura resultante chamaram Hermanúbis. Representavam-no ora como homem com cabeça de chacal com roupa grega, ora com os traços de ambos os deuses ao mesmo tempo, por vezes com um ramo de palma ou o báculo do arauto na mão. Hermanúbis venerava-se no Egito helenístico e entrou nos santuários romanos de Ísis, onde era conhecido como guardião e guia. Assim o chacal egípcio ganhou uma segunda vida já no panteão antigo, e o seu nome soava muito para lá do vale do Nilo.
Os papiros mágicos
O nome de Anúbis aparece muitas vezes nos papiros mágicos greco-egípcios dos primeiros séculos da nossa era, coleções de esconjuros e ritos. A ele se recorria como a um arauto e um guia, um intermediário entre o mundo dos vivos e o dos mortos, capaz de levar um pedido às outras forças. Estes textos mostram que mesmo no ocaso da antiga religião a Anúbis se recordava justamente como aquele que conhece o caminho na escuridão, e não como um castigador terrível. O papel de condutor e intermediário sobreviveu aos templos em que nasceu.
Como se lê a imagem hoje
Até nós Anúbis chegou antes de mais como emblema do antigo Egito, a par da pirâmide, do escaravelho e do anj, a cruz da vida. O seu perfil negro de orelhas afiadas reconhecem-no até quem não saberia nomear nenhum outro deus egípcio. Na joalharia, no gráfico e no design lê-se como sinal de mistério, proteção e ligação à antiguidade. Por trás desta reconhecibilidade está a mesma velha lógica: diante de nós há um guardião do limiar, não um espantalho, e é justamente o lado severo e recolhido da imagem que a torna um símbolo tão forte milhares de anos depois.
Mitos e confusões sobre Anúbis
Em torno de Anúbis cresceu muita afirmação segura mas inexata, sobretudo da cultura de massas, onde se converteu num temível «deus da morte» e num vilão. Convém separar com calma a imagem histórica da cinematográfica. Parte das confusões mistura épocas distintas, parte atribui a Anúbis um papel alheio, e parte simplesmente assusta onde os antigos viam consolo e ordem. Abaixo ordenam-se as mais frequentes, para que por trás da figura do chacal assome o verdadeiro deus egípcio, e não uma máscara de carnaval.
A diferença entre a imagem dos filmes e o Anúbis histórico é de fundo. Os egípcios não o temiam como a um monstro, antes lhe confiavam o mais querido, o destino de um ente querido defunto. A sua cor preta prometia renascimento, a sua balança significava justiça, as suas mãos preparavam o corpo para a eternidade. Quando uma pessoa moderna escolhe o símbolo de Anúbis, liga-se justamente a essa antiga lógica de proteção e passagem, e não às tardias histórias de medo. Perceber a diferença torna também com sentido o uso do símbolo: é o sinal de um guardião, não um espantalho.
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Factos que surpreendem
Anúbis acumulou ao longo dos milénios tantas histórias que algumas soam inesperadas mesmo para quem julga conhecer este deus.
Primeiro. A cor preta de Anúbis não significava luto, mas vida. Os egípcios associavam o preto ao lodo fértil do Nilo e à promessa do renascimento, por isso ao deus da passagem pintavam-no justamente com essa cor de esperança, e não do apagar-se.
Segundo. A fera de Anúbis talvez não seja um chacal. Durante muito tempo tomou-se por de chacal, mas as investigações modernas aproximaram o «chacal egípcio» do lobo dourado africano. Portanto o deus de cabeça canina pode resultar mais lobo do que chacal, e o debate a respeito continua.
Terceiro. Anúbis foi o deus principal dos mortos antes de Osíris. Na antiquíssima época das pirâmides foi dele o papel supremo no destino do defunto, e só mais tarde o assumiu Osíris, enquanto Anúbis passou a ser o seu ajudante e guia.
Quarto. Os sacerdotes do embalsamamento trabalhavam com máscara de Anúbis. Aquele que dirigia o rito envergava uma máscara com cabeça de chacal e nesse momento convertia-se, por assim dizer, no próprio deus. Tais máscaras chegaram até aos nossos dias e confirmam quão literalmente entendiam os egípcios a presença de Anúbis na oficina.
Quinto. O cérebro do defunto deitava-se fora, e o coração deixava-se. Os egípcios tinham o coração por sede do entendimento e da consciência, por isso guardavam-no no corpo para o juízo, ao passo que o cérebro, sem lhe verem valor, retirava-se e não se conservava. Foi o coração que depois se punha na balança diante de Anúbis.
Sexto. Ao perdedor do juízo esperava-o não o tormento, mas o desaparecimento. Se o coração inclinasse a pena da verdade, o monstro Ammit devorava-o, e isso significava a perdição definitiva, uma segunda morte sem eternidade. O inferno egípcio não era fogo eterno, mas a total não existência.
Sétimo. Os gregos uniram Anúbis ao seu Hermes. Na época em que o Egito e o mundo grego se misturaram, apareceu Hermanúbis, um deus guia das almas em quem se reconheceu o papel comum de condutor entre mundos. Assim o chacal e o arauto alado se fundiram numa só figura.
Oitavo. A Anúbis consagraram catacumbas com milhões de cães. Sob Saqqara os arqueólogos acharam galerias subterrâneas às quais durante séculos se levavam múmias de cães e chacais como dádiva ao deus, e contam-se aos milhões. Os peregrinos compravam tais múmias ao templo e deixavam-nas a Anúbis como súplica, e todo um ofício vivia desta piedade.
Perguntas frequentes
Quem é Anúbis em poucas palavras?
Anúbis é o deus egípcio do sepultamento, do embalsamamento e da passagem ao além, representado como um homem com cabeça de chacal ou como um chacal negro. Tinha-se por padroeiro dos embalsamadores e guia da alma ao além, e no juízo do defunto segurava a balança. Em essência é um guardião e um condutor no limiar entre a vida e a eternidade, não um «deus da morte» no sentido lúgubre.
Anúbis é um deus da morte ou não?
É mais exato chamar-lhe deus do sepultamento e da passagem do que da morte. O rei dos mortos para os egípcios era Osíris, ao passo que Anúbis respondia pelo lado prático: a preparação do corpo, o acompanhamento da alma pelo além e a honestidade do juízo. O seu papel é de guardião e de guia, por isso a imagem de Anúbis está mais perto de um guardião do limiar do que de uma encarnação da perdição.
Por que se representa Anúbis a preto?
A cor preta no Egito significava não luto, mas renascimento. Assim se via o lodo fértil do Nilo, que revivia os campos, e o corpo tratado com resinas no embalsamamento. Ambos os sentidos falavam de uma nova vida, por isso ao deus da passagem pintavam-no preto como sinal de ressurreição. Na joalharia esta simbologia transmitem-na a prata enegrecida, o ónix e a obsidiana.
Anúbis é um chacal ou um lobo?
Tradicionalmente tem-se por deus com cabeça de chacal, e assim se lhe chamou durante séculos. Mas as investigações modernas mostraram que a fera chamada «chacal egípcio» está mais perto do lobo dourado africano. Por isso, em rigor, a questão está em aberto, e a Anúbis pode chamar-se tanto deus chacal como deus lobo. Para a simbologia isto não muda a essência: o que importa é a imagem da sentinela atenta junto aos túmulos.
O que significa a pesagem do coração?
É a cena central do juízo do defunto. Num prato da balança colocava-se o coração da pessoa, no outro a pena da deusa da verdade, Maat. Se o coração não pesasse mais do que a pena, a vida tinha-se por justa e justificava-se o defunto. Um coração carregado de más obras condenava o seu dono, e devorava-o o monstro Ammit. Anúbis velava pela honestidade da balança, mantendo-se imparcial.
Pode usar-se o símbolo de Anúbis?
Sim, o símbolo de Anúbis usa-se como amuleto de passagem e proteção, sinal de interesse pelo antigo Egito ou emblema pessoal de lealdade e honestidade interior. Não está ligado a nada de perigoso nem de mau: dentro da sua religião Anúbis era um sustento e um defensor do defunto. Pode usar-se com qualquer atitude, desde uma funda paixão pela cultura egípcia até um puro amor por uma estética gráfica e forte.
A quem assenta uma joia com Anúbis?
Assenta a quem é atraído pelo Egito, pelos temas da proteção e da passagem, pela estética da prata escura e do ónix. Fica bem a uma pessoa num período de mudanças, pois Anúbis é o deus do limiar. É próximo também de quem valoriza a lealdade, a fiabilidade e o saber oculto. O sexo não importa aqui: uma imagem recolhida e severa assenta tanto a homens como a mulheres, e o formato, do pendente ao selo, escolhe-se ao gosto.
Em que se diferencia Anúbis de Osíris?
Osíris é o rei dos mortos, senhor do além, o deus ressuscitado que dava às pessoas esperança na vida eterna. Anúbis é o seu ajudante e guia, aquele que prepara o corpo, leva a alma pelo Duat e segura a balança no juízo. Antes o deus principal dos mortos era Anúbis, mas com a ascensão de Osíris cedeu-lhe o trono e passou a ser o administrador da passagem. Um reina, o outro acompanha.
É para oferecer? Cada peça chega pronta a entregar.
Caixa da Zevira e um cartão incluídos em cada pedido.Conclusão
Anúbis é um desses deuses antigos a quem a cultura de massas simplificou até uma máscara de medo, embora por trás dela haja uma figura muito mais subtil e humana. Os egípcios confiavam-lhe o mais frágil, a passagem do defunto à eternidade, e viam no chacal negro não a morte, mas um guardião e um guia seguro. A sua cor prometia renascimento, a sua balança significava justiça, as suas mãos preparavam o corpo para uma nova vida. Foi um sustento no momento em que o homem está mais indefeso.
Na joalharia Anúbis trabalha em todos estes níveis ao mesmo tempo. Para uns é um amuleto de passagem e proteção num limiar difícil. Para outros, sinal de lealdade, serviço e honestidade interior, essa mesma leveza do coração que se pesava no juízo. Para outros, simplesmente uma imagem gráfica e forte do antigo Egito, reconhecível de relance. A prata escura, o ónix e o ouro transmitem o seu espírito com a maior precisão, repetindo o par egípcio da cor do renascimento e da carne dos deuses.
O resumo honesto é simples. Anúbis não é um espantalho nem um senhor das trevas, mas um deus do limiar que conhece o caminho na escuridão e não deixa perder-se. Aquilo que puseres nesta imagem, proteção, lealdade ou amor pela história, será aquilo que ela significa, enquanto ele continua a ser quem foi há quatro mil anos: o silencioso e preciso guardião da passagem.
Prata, ouro, a simbologia das culturas antigas, amuletos protetores e conjuntos de par.
Sobre a Zevira
A Zevira trabalha em Albacete, Espanha, uma cidade de longa tradição na metalurgia artística. Os símbolos das culturas antigas fazem parte da nossa coleção, onde os sinais egípcios, os amuletos e as imagens mitológicas vivem em formas limpas de prata e ouro. Gostamos das coisas com uma história de milhares de anos e trazemo-la para o design moderno sem pathos a mais.
O que podes encontrar connosco perto do tema de Anúbis:
- Pendentes com simbologia egípcia em prata
- Peças em prata enegrecida para uma estética escura e gráfica
- Incrustações de ónix preto e obsidiana
- Anéis de sinete com gravação
- Versões banhadas a ouro com um tom quente
- Conjuntos de par e de presente com a simbologia da proteção e da passagem
É possível a gravação pessoal. Trabalhamos com prata de lei 925 e ouro de 14 a 18 quilates.































