
A medalha de condecoração como joia: o mérito que se usa ao peito e ao pescoço
A medalha nasceu para o peito, não para a gaveta. Um disco de metal sobre uma fita dizia num segundo a qualquer desconhecido: este mereceu-o. Foi dessa mesma ideia do sinal que se traz em cima que brotou, mais tarde, a moda do pendente redondo. Assim o mérito tornou-se joia antes da beleza.
Hoje a medalha de condecoração vive uma vida dupla. Uns guardam-na no estojo com a caderneta oficial e trazem-na cá para fora em datas assinaladas. Outros passam a medalha do avô para uma corrente, montam-na numa moldura, usam-na como um pendente com história de família. À volta disto surgem muitas perguntas: se se pode usar uma medalha como joia, se é de bom gosto pôr ao peito uma medalha alheia, em que difere uma medalha de uma moeda e de um medalhão, que também são redondos e também pendem do peito.
Vamos por partes: o que é uma medalha de condecoração e por que razão não é nem moeda nem medalhão, de onde vem o costume de trazer o mérito sobre o corpo, o que significa a medalha para uma família, onde está a fronteira ética da condecoração alheia, de que se fazem as medalhas e como transformar, com cuidado, esse disco de metal numa joia que se possa usar.
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O que é uma medalha de condecoração (medalha, moeda, medalhão e ordem)
A palavra «medalha» estica-se na fala do dia a dia para nomear tudo o que é redondo e metálico. Na verdade, são quatro coisas distintas com lógicas distintas, e a confusão entre elas gera metade das dúvidas sobre como usá-las.
A medalha é um sinal de mérito
A medalha de condecoração é uma distinção. Não se compra nem se troca: concede-se por algo concreto, pelo trabalho, pelo serviço, por uma vitória desportiva, pelos anos de carreira, pela participação num acontecimento. O valor da medalha não está no metal, mas no motivo da concessão. Um disco de prata por uma maratona e outro disco de prata idêntico saído de uma casa de penhores são duas coisas muito diferentes, embora pesem o mesmo em metal.
A medalha costuma ter três partes: o disco com relevo (anverso e reverso), o fecho ou a argola de onde pende e a fita. A fita não é um enfeite por puro gosto, é um código. Pelas cores da fita, quem a sabe ler reconhece de que condecoração se trata sem sequer olhar para o disco.
A moeda é dinheiro
A moeda nasce como meio de pagamento. Cunha-a o Estado, tem um valor nominal, circula de mão em mão como valor. Uma moeda antiga engastada numa joia vale como fragmento de história e como peça numismática: importa quem nela aparece, de que século é, de que casa da moeda saiu. Este assunto tratamo-lo a fundo no artigo sobre a moeda antiga na joalharia.
A diferença fundamental: a moeda é de troca e de dinheiro, a medalha é de mérito e de pessoa. A moeda pode ter passado por milhares de mãos ao longo de dois mil anos. A medalha teve-a nas mãos uma única pessoa condecorada.
O medalhão é uma cápsula ou um pendente redondo
O medalhão (do francês médaillon) é uma joia suporte. Na sua forma clássica é uma cápsula plana com dobradiça, no interior da qual se guarda um retrato, uma madeixa de cabelo, um bilhete minúsculo. Há também medalhões maciços sem oco, simples pendentes redondos com relevo ou gravação. O medalhão está pensado desde o princípio como joia e como depósito de memória. Temos um guia dedicado ao medalhão de prata.
A diferença face à medalha é simples. O medalhão enche-lo tu de sentido: metes lá a fotografia de um ente querido, gravas uma data. A medalha chega até ti já com um sentido, o que lhe atribuiu a instituição que a concedeu. O medalhão é um recipiente vazio para a tua memória, a medalha é um testemunho já feito do reconhecimento de outros.
A ordem é outro formato de condecoração
A ordem está ao lado da medalha, mas é uma categoria à parte. Historicamente a ordem é ao mesmo tempo um sinal (estrela, cruz, banda ao ombro) e um pertencer: o condecorado era admitido numa irmandade da ordem. A medalha é mais simples: é uma distinção sem entrada numa comunidade. Na hierarquia das condecorações, a ordem costuma estar acima da medalha. Por fora, a ordem faz-se quase sempre em forma de estrela, cruz ou sinal figurado com esmalte, ao passo que a medalha é sobretudo um disco redondo ou oval.
Recordá-lo é fácil. A moeda é valor. O medalhão é a memória que pões tu mesmo. A ordem é uma distinção alta de forma figurada e com história de irmandade. A medalha é o testemunho de um mérito em forma de disco sobre uma fita.
Anverso, reverso e o fecho
A medalha de condecoração tem o seu próprio vocabulário, e ele ajuda a entender a peça que tens na mão. O anverso é a face principal, normalmente com a imagem central: um perfil, um brasão, uma figura, uma cena. O reverso é o dorso, onde quase sempre se coloca a inscrição, o ano, o nome do condecorado ou o lema. O bordo é a orla do disco; nele marca-se por vezes o contraste ou o número.
O fecho é a chapa metálica sobre o disco, forrada com a fita, pela qual a medalha se prende à roupa. Nas condecorações antigas o fecho é pentagonal, noutras retangular ou figurado. Pela forma do fecho e pela fita, um olho experiente atribui logo a medalha a um sistema de condecorações e a uma época concretos. Quando uma medalha se transforma em pendente, o fecho costuma conservar-se à parte, porque é ele que carrega metade da informação identificadora.
O que significam as duas faces: a simbologia do anverso e do reverso
As duas faces da medalha não são um frente e um verso quaisquer, têm papéis distintos, e nisso há uma lógica. O anverso responde à pergunta «quem e em nome de quem»: aqui vai o perfil do soberano, o brasão, a figura do patrono, a imagem principal da condecoração. É a face do poder e da origem do sinal, diz quem dotou a peça da força do reconhecimento. O reverso responde à pergunta «porquê e a quem»: aqui vai a inscrição com o motivo da concessão, o ano, o lema, por vezes o nome do próprio condecorado. É a face da pessoa e da sua obra.
Essa divisão faz da medalha um pequeno relato de duas faces. Vira-la para um lado e lês a origem da honra, vira-la para o outro e lês o mérito. Em muitas condecorações as imagens dialogam entre si: no anverso uma figura alada da vitória, no reverso uma inscrição modesta sobre os anos de serviço, e juntas dizem que o trabalho de todos os dias também merece a glória alada. Quando a medalha se transforma em pendente, convém decidir de antemão com que face para fora se vai usar, e muitas vezes escolhe-se o reverso com o nome e a data, porque para a família o valioso é o «porquê» concreto, não o perfil oficial genérico.
Graus e leis das condecorações
Muitas medalhas eram emitidas em vários graus, e o metal indicava diretamente a categoria: o grau de ouro acima do de prata, o de prata acima do de bronze. É a mesma lógica do desporto, e vem da Antiguidade mais remota, onde o valor do metal se lia num instante. Por isso, ao ter na mão uma condecoração de família, pelo metal pode entender-se mais ou menos quão alta foi a distinção.
O que é um medalhão-medalha e por que se juntam
Por vezes fala-se de «medalhão comemorativo», e não é um deslize. Chama-se assim ao disco feito em forma de medalha mas destinado desde o princípio a pender do pescoço, não a prender-se com fecho à farda. Esse medalhão cunha-se para um aniversário, uma data assinalada, uma promoção, e leva logo uma argola para a corrente. Une dois mundos: por fora é uma medalha com relevo de anverso e reverso, mas pela sua forma de se usar já é um pendente. As oficinas de família faziam muitas vezes precisamente medalhões-medalha para um casamento ou um nascimento, para poderem trazer o mérito ou o acontecimento junto ao coração desde o primeiro dia, sem transformação. Se tens na mão um disco redondo com argola e sem fecho, o mais provável é que tenhas justamente esse híbrido: medalha pela forma, medalhão pela função.
Em que difere a medalha da ficha e do distintivo
Junto à medalha vivem a ficha e o distintivo, e convém distingui-los também. A ficha é um pequeno disco de metal que se entregava por participar ou como passe, não tem o peso do mérito que tem a medalha, está mais perto da lembrança comemorativa. O distintivo é um sinal plano de pertença: a uma associação, a uma escola, a uma profissão, diz «sou daqui», não «isto ganhei-o eu». A medalha pesa mais no seu sentido: prende-se a um motivo concreto de concessão. Por isso a ficha e o distintivo usam-se com ligeireza e sem reservas, ao passo que a medalha, sobretudo a alheia, vem rodeada de todo um círculo de perguntas sobre o direito e a oportunidade.
História: das faléras romanas ao ouro desportivo
A história da medalha é a história de uma só ideia: tornar visível o mérito. Mudou o metal, mudou a forma, mas o sentido manteve-se durante milhares de anos.
A Antiguidade: as faléras sobre a couraça do romano
O antepassado direto da medalha de condecoração é a falera romana (phalerae). Assim se chamavam os discos de metal, quase sempre de bronze ou de prata, que se fixavam às correias do peito sobre a couraça. As faléras concediam-se a legionários e centuriões pela bravura e por se distinguirem em combate. Não se traziam num estojo, mas diretamente sobre o corpo, nos desfiles e em formatura.
A lógica era exatamente a mesma de hoje: um olhar ao peito do guerreiro e via-se o que ele valia. Quantas mais faléras, mais mérito tinha o soldado. Os arqueólogos encontram jogos inteiros de faléras sobre a correaria, por vezes com retratos de imperadores. Daí vem, aliás, a palavra «falerística», nome da ciência que hoje estuda as condecorações.
Os gregos, antes dos romanos, honravam os vencedores de outra maneira: com uma coroa de oliveira nos Jogos Olímpicos, sem sinal de metal. Mas a ideia da distinção trazida sobre o corpo do atleta é também uma semente da futura medalha desportiva.
O Renascimento: a medalha retrato como arte
A medalha propriamente dita, tal como a conhecemos, como disco de relevo pelas duas faces, nasceu na Itália do século XV. O artista Pisanello fundiu por volta de 1438 uma medalha com o retrato do imperador bizantino João VIII Paleólogo. Considera-se o nascimento do género. No anverso o perfil da pessoa, no reverso uma cena alegórica ou um lema.
A medalha renascentista não era uma condecoração, mas uma declaração de estatuto. Soberanos, humanistas e banqueiros encomendavam a sua medalha retrato tal como hoje se encomenda um retrato de gala. Ofereciam-nas, colecionavam-nas, metiam-nas nos alicerces dos edifícios como mensagem à posteridade. Foi então que a medalha se tornou uma pequena obra de arte, onde cada milímetro de relevo tinha a sua importância.
É curioso que o disco retrato redondo do Renascimento tenha dado vida também ao medalhão de joalharia. A moda de trazer ao peito um relevo redondo com um rosto empurrou os mestres a fazer pendentes cápsula. Assim, a linha da condecoração e a do adorno separaram-se de uma raiz comum.
Convém acrescentar que a ideia da condecoração é mais antiga do que Roma. Já no mundo grego o vencedor das competições recebia uma coroa, não metal, e essa imagem entranhou-se tão fundo na cultura que chegou até às nossas joias: dela falamos no artigo sobre a coroa de louros na joalharia. A coroa e a falera são dois ramos antigos de um mesmo pensamento: tornar visível o mérito sobre o corpo. Um ramo foi pelo verde e pela fragilidade, o outro pelo metal e pela perdurabilidade, e com o tempo venceu o metal, porque a coroa murcha e o disco permanece.
O retrato de perfil da medalha renascentista também não surgiu do nada. Os mestres imitavam conscientemente as moedas antigas com perfis de soberanos e de deuses, aquela mesma composição severa que durante séculos trabalhara a escultura antiga. Esta ligação da medalha à grande tradição escultórica não é casual: o medalhista pensava tal como o escultor, apenas a uma escala minúscula. O perfil tem a vantagem de se reconhecer num instante e de encaixar com beleza no círculo, e por isso tornou-se quase obrigatório na medalha.
A Idade Moderna: o nascimento das medalhas militares e de condecoração
Por volta dos séculos XVII e XVIII a medalha regressou do gabinete do colecionador ao peito, agora como condecoração de massas. Os Estados perceberam que um barato sinal de metal motiva o soldado mais do que o dinheiro, porque o dinheiro gasta-se e a distinção fica com a pessoa para sempre.
Apareceram as medalhas comemorativas em honra de batalhas, coroações e vitórias. Aos poucos firmou-se um sistema: fita de uma cor determinada, fecho, graus da condecoração. A medalha passou a ser algo que se usava em público, sobre o uniforme, segundo regras estritas. O direito de a usar estava regulado, a falsificação era castigada.
No século XIX acabou de firmar-se a ideia da medalha de condecoração em massa para todos os participantes de uma campanha, não só para os heróis. Isto democratizou a condecoração: a distinção deixou de ser um privilégio dos oficiais.
Por essa altura assentou o costume de usar as medalhas com o fecho no lado esquerdo do peito, mais perto do coração. Surgiram as regras de precedência: quanto mais alta a condecoração, mais à direita ou mais acima se prende. Nasceram também as cadernetas de condecoração, o documento que confirmava o direito de uma pessoa a usar um sinal concreto. Sem a caderneta a medalha tornava-se um simples pedaço de metal, e com ela tornava-se comprovativo do mérito. Esse par de disco e documento chegou até hoje e é importante quando se fala de herança: junto à condecoração autêntica, a família costuma conservar também o seu papel.
Medalhas civis e ao trabalho
Em paralelo com as militares apareceram as condecorações civis: ao trabalho, ao salvamento, à ciência, à arte, aos muitos anos de serviço. A medalha ao trabalho mudou a própria ideia da distinção: agora reconhecia-se tanto o feito de um único dia como o longo esforço, a antiguidade, a lealdade ao ofício. Essas medalhas transformam-se com especial gosto em relíquias de família, porque por detrás delas está toda a vida laboral de uma pessoa, não um único episódio. A medalha do avô por trinta anos na mesma fábrica fala do caráter tanto quanto uma militar.
Medalhas desportivas: o renascer da ideia antiga
Quando, no final do século XIX, se ressuscitaram os Jogos Olímpicos, devolveu-se aos premiados a distinção que se traz em cima, agora em forma de medalha e não de coroa. O ouro, a prata e o bronze para os três primeiros lugares são já uma invenção moderna, assente no início do século XX.
A medalha desportiva é interessante porque une a ideia antiga (a distinção sobre o corpo do atleta) e a forma da condecoração (disco sobre fita). Hoje a medalha de meta pendura-se ao pescoço de todo aquele que termina uma maratona, e nisso há um eco direto da falera: chegaste, e o peito mostra-o.
Medalhas memoriais e de família
Um ramo à parte são as medalhas da memória. Cunham-se em honra de aniversários, efemérides, pessoas que partiram, acontecimentos importantes para uma família ou uma comunidade. Essa medalha pressupõe desde o princípio que se vai conservar e transmitir, não usar em formatura.
São precisamente as medalhas memoriais e de condecoração que mais vezes passam à categoria de joias. O neto pendura a medalha do avô numa corrente não porque queira exibir a condecoração, mas porque quer ter a memória da linhagem mais perto de si. Essa motivação aparenta a medalha à joia de luto e de recordação, de que falamos no artigo sobre a joalharia comemorativa após a perda de um ente querido.
Sinais comemorativos e de efeméride
À parte estão as medalhas comemorativas e de efeméride, que se cunham para datas redondas, para a inauguração de monumentos, para os aniversários de cidades e associações. Não condecoram um mérito pessoal, antes fixam um acontecimento. Esses sinais distribuíam-se muitas vezes pelos presentes numa celebração, e hoje nos estojos de família encontram-se especialmente muitos. São mais fáceis de transformar em joias sem reservas éticas: por detrás deles não há um feito alheio, há a lembrança de um dia. A medalha de aniversário da cidade ou da associação em que viveu um antepassado é um modo suave e discreto de trazer a geografia da família ao peito.
Uma medalha em corrente nua e nem um elo a mais. Um segundo pendente ao lado e o peito parece uma feira de velharias, não uma joia, e não discutas.
Com que usar a medalha de condecoração
Depois de anos de rodagens e provas de guarda-roupa passaram-me pelas mãos dezenas destes discos: a condecoração de um avô, medalhas de maratona, jetões de aniversário. Reúno aqui o que de facto funciona quando a medalha passa da gaveta ao peito.
Com que uso uma medalha pendente no dia a dia? Recomendo uma peça de uma só cor que não brigue com o relevo: branco, cinzento, grafite, azul-marinho. O disco é um objeto grande e gráfico, por isso pede um fundo tranquilo. A medalha de prata penduro-a no centro do peito sobre uma corrente lisa, e por baixo de um decote em V é onde melhor assenta. Uma camisa estampada e uma medalha são dois protagonistas num mesmo plano, e estorvam-se.
Uma só medalha ou acompanhada de outros pendentes? Sempre uma. A medalha manda, o resto cala-se. Se de facto queres camadas, aconselho dar-lhe o seu próprio comprimento e não deixar que o segundo pendente grande se aproxime a menos de um palmo. Dois discos pesados juntos convertem o peito num montra, não num conjunto.
Que comprimento e que corrente convêm ao peso do disco? Um disco pesado precisa de uma corrente firme de elo médio ou grosso, uma fina retorce-se sob o peso e desgasta-se. Escolho uma corrente curta, de 40-45 cm, quando quero um acento alto e recolhido por cima da roupa. Aconselho uma longa, de 50-55 cm, para que a medalha repouse sobre o peito e se leia inteira por baixo de uma camisa. A gravação do reverso, se a houver, pode renovar-se com cuidado ou completar-se com uma data.
Como uso uma condecoração que temo estragar? Uma medalha autêntica ou militar nunca a transformo em pendente. Aconselho uma cápsula transparente ou uma moldura de joalharia com argola: o disco não se fura nem se solda, e ainda assim se usa no dia a dia. Guarda a fita à parte, a seda velha destinge-se e desfia-se antes do metal. A tua própria medalha de maratona ou de recordação essa sim pode refazer-se num pendente de pleno direito.
Com que metal armo o resto do look? À medalha de prata apoiam-na anéis e brincos de prata, à de bronze com pátina aquece-a a metalística dourada, e essa pátina não a esfrego jamais, nela vive toda a idade da peça. À noite tiro o disco: o suor e os cremes aceleram o escurecimento, e a dormir uma medalha pesada dobra uma argola fina. Um só metal no conjunto luz mais caro do que uma mistura ao acaso de ouro e prata.

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Significado: mérito, memória, legado, orgulho da linhagem
A medalha é sentido comprimido. Sobre um pequeno disco assentam ao mesmo tempo várias camadas de significado, e cada uma à sua maneira a torna especial.
Mérito e reconhecimento
A primeira e principal camada é o reconhecimento do mérito. A medalha diz: a tua obra foi vista, foi valorizada, ficou fixada em metal. Ao contrário do elogio de palavra, a medalha não se evapora. É material, pode tomar-se na mão vinte anos depois e voltar a sentir aquele dia.
Essa camada explica por que razão as condecorações se guardam com tanto cuidado. Não se trata do metal, mas de que a medalha é a prova tangível do esforço vivido. A pessoa olha para ela e não vê um disco, mas o seu próprio caminho.
Memória da pessoa e do acontecimento
A segunda camada é a memória. A medalha está atada a um momento concreto: a um combate, a uma meta, a um aniversário, a uma pessoa. Funciona como âncora da lembrança. Por isso as medalhas de família não se querem vender nem nos tempos difíceis: não se vai o metal, vai-se uma parte da história da família.
Legado e vínculo entre gerações
A terceira camada é o legado. A medalha sobrevive àquele a quem foi concedida. Passa aos filhos e aos netos e torna-se um fio que une as gerações. Ao ter na mão a condecoração do bisavô, sente-se um vínculo físico direto com quem talvez nunca se tenha chegado a ver.
Por isso a medalha se transforma tantas vezes numa joia que se traz em cima. Uma corrente ou uma moldura permitem ter esse fio da memória junto a si, em vez de o fechar numa gaveta da mesa.
A medalha como medalhão com memória
Quando a medalha se muda para uma corrente, começa a funcionar como um medalhão, só que a memória já vem posta lá dentro. O medalhão corrente enche-lo tu: metes uma fotografia, uma madeixa, um bilhete. A medalha chega cheia de um destino alheio, e nisso está a sua força particular como sinal que se traz em cima. O neto que pendurou ao pescoço a condecoração do avô não traz uma joia, mas uma biografia enrolada em metal: um único disco sustenta ao mesmo tempo o dia da concessão, o caráter da pessoa e toda uma época às suas costas. Os psicólogos da memória dizem que uma coisa que se pode tocar e aproximar do corpo retém a lembrança com mais firmeza do que uma fotografia: o peso, a temperatura, o hábito de repousar sobre o peito fazem com que a memória seja corporal e não apenas visual. Por isso a medalha pendente cobre a mesma necessidade que o retrato num medalhão, e muitas vezes com mais força: à fotografia acrescenta-se o peso de um objeto real, por onde passou a mão daquele que se recorda.
A memória da linhagem, mais perto do corpo
Há também uma razão calada, quase física, para trazer a condecoração ao peito e não a guardar no estojo. A relíquia da gaveta existe à parte da pessoa, vai-se vê-la em datas. A relíquia ao pescoço vive contigo todo o dia, mexe-se com a respiração, aquece com o calor do corpo. Muitos dos que passaram a medalha de família para uma corrente descrevem-no do mesmo modo: a memória deixou de ser um acontecimento de datas assinaladas e tornou-se um fundo permanente, uma presença tranquila da linhagem ao lado. Não é um orgulho ruidoso nem um desafio aos outros, mas uma conversa interior que se mantém consigo mesmo, roçando de vez em quando o disco por baixo da camisa.
Orgulho da linhagem sem ostentação
A quarta camada é subtil: o orgulho. Aqui importa o matiz. Trazer uma condecoração militar alheia como um troféu é fanfarronice. E usar a medalha de família como sinal de respeito pela linhagem é natural e digno. A diferença está no motivo: mostrar «olhem o que eu sou» ou conservar «lembro-me de quem foram os meus».
Essa mesma lógica da honra e da dignidade vive na simbologia de outros sinais que se trazem em cima, por exemplo na espada como símbolo de honra e justiça.
Marco pessoal e prova perante si mesmo
Há ainda uma quinta camada, muito pessoal. Por vezes a medalha não é de todo sobre o reconhecimento alheio, mas sobre uma prova perante si mesmo. A medalha de meta da primeira maratona não é para o corredor um motivo de se gabar diante dos outros, mas um «consegui» tangível. Essa medalha usa-se como lembrete do próprio limite que se conseguiu atravessar. Este motivo explica por que razão as pessoas transformam as medalhas desportivas em pendentes do dia a dia: importa-lhes ter consigo a prova de que o difícil foi feito.
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Usar ou não uma medalha alheia ou herdada
Esta é a pergunta mais delicada do tema, e não há aqui um «pode-se» ou «não se pode» tácito. Há margens de decoro, normas culturais e senso comum.
A tua medalha: usa-a com tranquilidade
A tua própria condecoração tens o direito de a usar como quiseres: sobre o uniforme segundo as regras, ao peito num dia especial, numa corrente na vida corrente. É o teu mérito e o teu direito de dispor do sinal. A medalha desportiva, aliás, costuma usar-se logo depois de cruzar a meta, e nisso não há nada de discutível.
A medalha de família herdada: uma questão de motivo
A medalha do avô ou do bisavô, que te chegou por herança, ocupa um lugar especial. Usá-la como joia é admissível se o fizeres por respeito e memória, não como adereço para um look. Uma boa prática: saber por que razão foi concedida e estar disposto a contá-lo. Se usas a medalha do avô e conheces a sua história, é um ato de memória. Se a penduras só porque «brilha bonito», convém pensar duas vezes.
As condecorações militares exigem uma delicadeza especial. Na maioria das culturas, pôr ordens e medalhas militares alheias como próprias, fingindo que são tuas, considera-se inadmissível. Outra coisa é conservar e usar a condecoração de família como relíquia, sem a fazer passar pelo teu próprio mérito: isso é diferente e por norma não levanta dúvidas.
A medalha alheia da feira: só como objeto
A medalha comprada a um colecionador ou numa feira de velharias já não é testemunho do teu mérito nem do da tua família, mas um artefacto histórico. Pode usar-se como objeto de interesse, como um pedaço da história de outrem, mas é mais honesto tratá-la justamente assim, sem se apropriar do feito. Muitos colecionadores, aliás, não usam essas medalhas, antes as conservam e estudam.
Quando é melhor não a usar de todo
Há situações em que a medalha é melhor deixá-la em casa. As condecorações oficiais em vigor com regulamento de uso põem-se segundo as regras, não como um pendente para umas calças de ganga. As medalhas ligadas a uma tragédia ou a uma dor por vezes é mais oportuno conservá-las do que exibi-las. Aqui funciona uma regra simples: se há dúvida, pergunta aos mais velhos da família ou simplesmente atende ao sentido do tato.
Como usar o legado com oportunidade
Quando decides usar a medalha de família, uns poucos gestos suaves tornam-no digno. Usa-a com tranquilidade, sem desafio, como uma joia corrente e não como um sinal que reclama atenção. Está disposto a responder com brevidade de quem é a condecoração e porquê, se te perguntarem, sem ostentação e sem um discurso longo. Não a ponhas onde soaria falsa: numa festa ruidosa uma condecoração militar alheia não encaixa, e num dia de família de recordação encaixa na perfeição. E cuida do original: se a peça é valiosa, usa uma cópia ou guarda o disco numa cápsula protetora, para que a relíquia chegue à geração seguinte.
Quando é melhor entregar a condecoração do que usá-la
Por vezes o mais respeitoso não é usar a medalha um próprio, mas entregá-la a quem mais significa para ela. Se na família há alguém que guarda a memória do condecorado com especial cuidado, por vezes é mais lógico dá-la a essa pessoa. A condecoração, como qualquer relíquia, procura um guardião, não um dono. Convém usá-la quando de facto te tornas continuador dessa memória, e não quando recebes em herança um bonito disco de metal e nada mais.
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Materiais: de que se fazem as medalhas
O material da medalha fala da sua categoria, da sua época e da sua função. Entender as ligas ajuda tanto a avaliar uma herança como a escolher a forma de a usar.
Ouro e dourado
O grau mais alto de uma condecoração associa-se tradicionalmente ao ouro. Mas o ouro puro é mole e caro, por isso mesmo as medalhas olímpicas «de ouro» são basicamente prata com um fino banho de ouro. O ouro histórico das condecorações é muitas vezes bronze ou prata dourada. Ao transformar em joia uma medalha dourada há que protegê-la do atrito: o banho é fino.
Prata
A prata é o metal clássico das condecorações: brilho nobre, boa conservação, peso agradável. Muitas medalhas comemorativas e desportivas cunham-se em prata ou pratam-se por cima. A medalha de prata convive às mil maravilhas com uma corrente de prata, e a transformação em pendente fica compacta. Se queres perceber se a prata de uma herança é autêntica, ajuda-te a nossa análise da prata 925.
Bronze e tombak
O bronze é o material básico das medalhas de condecoração e comemorativas de massas. É resistente, barato, ganha uma bela pátina com o tempo. O tom quente do bronze agrada a muitos mais do que o frio da prata. Uma variedade de latão com alto teor de cobre (tombak) usa-se muitas vezes para medalhas comemorativas estampadas: segura bem o relevo.
Alpaca e cuproníquel
As ligas de cobre com níquel (cuproníquel, alpaca) empregaram-se muito no âmbito das condecorações do século XX. São baratas, resistentes e por fora lembram a prata. O inconveniente para as usar sobre o corpo: o níquel provoca em algumas pessoas irritação da pele, convém tê-lo em conta se pensas usar essa medalha como pendente.
Esmalte e fitas
O esmalte de cor aparece mais nas ordens e nos sinais do que nas medalhas, mas também os fechos de medalha podem ir esmaltados. O esmalte é frágil, teme os golpes e os lascados. A fita é de seda ou de moiré de uma cor determinada. As fitas antigas descoram e desfiam-se, por isso ao transformar a peça em joia substituem-se muitas vezes ou retiram-se, conservando o original à parte.
Como ler o metal numa herança
Quando a medalha chega por herança, o metal sugere muitas coisas ainda antes da peritagem. Um brilho branco frio sem amarelado e um peso agradável costumam ser prata ou cuproníquel. Um tom quente avermelhado dourado e uma pátina marcada são bronze. Um ligeiro amarelado sobre metal branco, sobretudo gasto nos relevos salientes, é prata dourada, onde o banho se desgasta primeiro. O íman quase nunca adere a uma medalha de condecoração autêntica, porque as ligas nobres e não ferrosas não são magnéticas, ao passo que as cópias baratas e tardias por vezes se denunciam pela atração. Estas pistas não substituem um avaliador, mas dão uma primeira ideia daquilo com que se está a lidar.
O que escolher para transformar em joia
Se a medalha vai a pendente, o material dita o cuidado. A medalha de prata é a mais amável: limpa-se, pule-se, dura muito numa corrente. A de bronze é melhor não a polir até tirar brilho, a sua beleza está na pátina, por isso usa-se tal como está. A dourada protege-se do atrito, ou o fino banho se gastará nos bordos. A medalha de liga com níquel, antes de a usar sempre sobre a pele, convém experimentá-la em si próprio: se a pele reage, o disco mete-se numa cápsula ou monta-se sobre uma base que não toque o corpo.
Cunhagem com cunho: como nasce o relevo
A maioria das medalhas de condecoração cunha-se. O mestre talha um cunho de aço com o relevo invertido e cavado, e depois, sob uma pressão enorme, imprime esse relevo sobre a peça de metal. O golpe do cunho compacta o metal, por isso a medalha cunhada sente-se densa e sonora. Quanto mais profundo e complexo é o relevo, mais golpes são precisos; por vezes a peça passa várias vezes pela prensa, recozendo-a entre golpes para que o metal não se fissure. O sinal principal da cunhagem é o fundo perfeitamente liso e os bordos nítidos das letras: o cunho repete o desenho em cada exemplar por igual, por isso as condecorações de massas se parecem tanto entre si.
Fundição: a medalha vazada em molde
As medalhas retrato do Renascimento, mais do que cunhar-se, fundiam-se. O artista modelava a peça em cera, com ela fazia-se um molde e vertia-se o bronze fundido. A fundição dá um relevo mais macio e pictórico, com um ligeiro granulado na superfície, e cada vazamento difere um pouco do vizinho, porque o molde muitas vezes se destruía ao extrair a peça. A medalha fundida costuma ser maior e mais pesada do que a cunhada, não tem essa lisura de espelho do fundo, mas sim um calor feito à mão. Se num disco antigo se veem poros pequenos, transições suaves e não há uma simetria perfeita, o que tens à frente é mais fundição do que cunho.
Gravação e inscrição com o nome
A gravação é um corte à mão ou à máquina sobre o metal já feito. A cunhagem fixa a imagem geral da medalha, igual para todos os condecorados, e com a gravação acrescenta-se o pessoal: o nome, a data, o número. Por isso a inscrição com o nome no reverso é para a família muitas vezes mais valiosa do que o próprio relevo, já que é a única parte de facto única do sinal. A gravação antiga reconhece-se pela linha irregular e viva e pelo modo como corta o fundo cunhado já existente. Ao transformar a medalha em pendente pode renovar-se com cuidado a gravação ou acrescentar a data própria, mas às inscrições históricas mais vale não lhes tocar, são parte da autenticidade da peça. Sobre isto é útil o nosso artigo sobre a gravação nas joias.
Pátina e envelhecimento nobre
A pátina é a fina película com que o metal se cobre com o tempo e o ar. No bronze puxa a um tom quente castanho, esverdeado ou quase negro; na prata, a um cinzento fumado. Os colecionadores valorizam a pátina velha e uniforme e procuram não a tirar, porque ao mesmo tempo protege o metal e serve de passaporte da idade: um disco recém-polido até ao brilho parece mais novo e perde autenticidade. Por isso o cuidado sensato de uma medalha antiga não é devolver-lhe o brilho de fábrica, mas conservar a nobre camada. Limpa-se apenas a sujidade e as manchas escuras ativas que corroem o metal, tudo o resto deixa-se como marca dos anos vividos.
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Medalhas que entraram na história e na arte
A medalha é ao mesmo tempo relíquia de família e parte de uma grande cultura. Uns quantos episódios mostram quão longe vai este tema.
A medalha como género na arte
A medalha retrato do Renascimento é uma arte de pleno direito, que se estuda a par da pintura e da escultura. Os mestres medalhistas assinavam as suas obras, eram valorizados como artistas. O pequeno relevo de duas faces exigia não menos talento do que um grande retrato: encaixar o caráter de uma pessoa num círculo do diâmetro de uma moeda é uma mestria à parte.
As medalhas na pintura e nos retratos
Nos antigos retratos de gala, as pessoas de linhagem aparecem muitas vezes com medalhas e sinais de ordem ao peito. Para o pintor era um modo de comunicar ao espectador, num segundo, o estatuto e os méritos do modelo. A medalha num retrato funcionava como rodapé da biografia: olhavas para o peito e entendias quem tinhas à frente. Os pintores reproduziam com esmero o brilho do metal e as cores das fitas, porque o cliente queria que a posteridade visse os seus méritos tão claros como os seus contemporâneos. Por esses retratos os historiadores reconstroem hoje que condecorações existiram e como se usavam, já que a pintura conservou o que não conservou o próprio metal.
Os formatos de condecoração mais conhecidos
Sem nomear marcas nem instituições modernas, pode falar-se de formatos que se tornaram genéricos. O ouro, a prata e o bronze olímpicos para os três lugares do pódio são uma imagem reconhecível em todo o mundo. A medalha «aos anos de serviço» é um formato de condecoração ao trabalho conhecido por todos. A medalha comemorativa em honra de um aniversário ou de um acontecimento é um género à parte, que cunham cidades, associações e famílias.
Medalhas que entraram na história
Algumas medalhas sobreviveram ao seu tempo e tornaram-se monumentos de uma época. O disco retrato de Pisanello com o perfil do imperador bizantino é a primeira medalha da Idade Moderna e, ao mesmo tempo, uma peça de museu com que se começa qualquer relato sobre o género. As medalhas renascentistas dos soberanos italianos, que estes enviavam aos seus aliados, chegaram até nós como pequenos retratos de gala de toda uma época, e por elas os historiadores reconstroem os rostos de pessoas cujas imagens pintadas não se conservaram. As medalhas comemorativas em honra de grandes batalhas navais e terrestres dos séculos XVII e XVIII leem-se hoje como uma crónica das guerras: nos seus reversos vão alegorias de vitórias e datas exatas. Um ramo célebre à parte são as medalhas em honra de grandes obras e descobrimentos, que se metiam nos alicerces para que a posteridade as encontrasse ao demolir o edifício. Todas essas medalhas famosas têm algo em comum: concebiam-se como uma mensagem, como um modo de falar com o futuro através do metal.
Deuses e heróis no disco de condecoração
A linguagem figurada da medalha apoiou-se durante séculos na mitologia antiga. A Vitória alada com a coroa, Minerva com o elmo como patrona do trabalho sábio, Hércules como símbolo da força e da superação: essas figuras percorrem os reversos das condecorações de século em século. Os medalhistas tomavam-nas porque ao espectador não é preciso explicar-lhe nada: uma donzela alada com coroa é a vitória, um herói poderoso com pele de leão é a coragem. Todo esse panteão de imagens veio da mitologia grega, de que falamos a fundo no artigo sobre os deuses do Olimpo e o panteão grego. Por isso, ao ter na mão uma velha medalha de condecoração com uma figura alada ou um herói com pele de leão, seguras um pedaço dessa mesma simbologia antiga que vive nas joias e na escultura.
A medalha como mensagem à posteridade
No Renascimento as medalhas metiam-se nos alicerces dos edifícios em construção como cápsula do tempo. Os construtores contavam com que um dia a casa fosse demolida e a medalha contasse à posteridade quem e quando a ergueu. É um caso raro em que a condecoração se fazia de propósito não para a usar, mas para o futuro, para uns olhos que a vissem ao cabo dos séculos.
Por que às pessoas importa trazer o mérito sobre o corpo
Por detrás de toda a história da medalha há uma psicologia simples. À pessoa não lhe basta saber que fez algo, importa-lhe que se veja e que perdure. As palavras esquecem-se, os sentimentos apagam-se, e o disco de metal retém a memória na mão. A distinção que se traz em cima cobre duas necessidades ao mesmo tempo: ser reconhecido pelos outros e não perder o vínculo consigo mesmo de antes, aquele que passou pelo difícil. Por isso a medalha migra com tanta teimosia do estojo ao peito mesmo décadas depois. O peito é o sítio mais honesto para um sinal: vê-o o interlocutor, está junto ao coração, mexe-se com a respiração. O antigo romano com as suas faléras e o corredor de hoje com a medalha de meta ao pescoço fazem, no fundo, o mesmo, respondem à antiga necessidade humana de tornar visível o mérito invisível.
Medalha face à moeda e ao medalhão: uma distinção clara
Como as três coisas são redondas e pendem do peito, confundem-se a toda a hora. Desmiudemos a diferença de uma vez por todas, para que saibas com certeza o que tens e como o usar.
Medalha e moeda: mérito face a dinheiro
A moeda é um meio de pagamento com valor nominal, é de troca e de valor. A sua importância é numismática: quem a cunhou, em que século, em que estado de conservação. A medalha é um sinal de mérito sem valor nominal, não se punha em circulação, concedia-se a uma pessoa por algo. Se o teu disco redondo circulou como dinheiro, é uma moeda, e sobre ela é melhor ler o guia da moeda antiga na joalharia. Se o disco se concedeu por um mérito e nunca foi meio de pagamento, é uma medalha.
Medalha e medalhão: sentido já feito face a cápsula vazia
O medalhão é uma joia suporte, quase sempre uma cápsula onde tu mesmo metes uma fotografia ou uma madeixa e a enches com o teu próprio sentido. A medalha chega com um sentido já atribuído pela instituição que a concedeu. O medalhão escreve-lo tu, a medalha concedem-ta. Se queres guardar ao peito a memória de um ente querido, escolhida por ti, o teu formato é o medalhão de prata. Se queres usar o sinal de um mérito alheio ou próprio, é uma medalha.
Medalha e ordem: disco face a sinal figurado
A ordem é historicamente superior à medalha e costuma fazer-se em forma de estrela, cruz ou sinal figurado, muitas vezes com esmalte, e liga-se à ideia de pertença a uma irmandade da ordem. A medalha é um disco ou oval sobre uma fita, uma distinção sem entrada numa comunidade. Regra grosseira: um disco redondo e liso sobre uma fita é uma medalha, uma estrela ou cruz figurada e esmaltada é uma ordem.
Nota rápida
Pergunta-te três coisas. Por que tem a peça a pessoa: por dinheiro em circulação (moeda), por uma memória posta pessoalmente (medalhão), por um mérito (medalha ou ordem). Que forma tem: um disco redondo sobre fita (medalha) ou uma estrela ou cruz figurada com esmalte (ordem). Se tem valor nominal: se o tem é moeda, se não, é condecoração. Três perguntas cobrem quase todos os casos.
Dados que surpreendem
O tema das medalhas está cheio de detalhes inesperados. Aqui vão uns quantos que mudam o olhar sobre o conhecido disco de metal.
O «ouro» olímpico quase não é ouro. As medalhas de ouro atuais fazem-se basicamente de prata com um fino banho de ouro, de ouro puro levam muito pouco. As últimas medalhas olímpicas de ouro maciço concederam-se há mais de um século.
A palavra «falerística», a ciência das condecorações, vem das faléras romanas, aqueles discos de peito dos legionários. Acontece que os colecionadores de medalhas têm o nome de uma condecoração militar da antiga Roma.
A fita importa mais do que o disco. Um falerista experiente muitas vezes identifica uma condecoração só pelas cores da fita, sem olhar para o metal. A fita é o código pelo qual se lê toda a história do sinal.
Considera-se primeira medalha retrato da Idade Moderna a obra de Pisanello de 1438 com o perfil do imperador bizantino. Com ela começou a medalha como arte, e dela, de forma indireta, saiu a moda dos pendentes retrato redondos.
No Renascimento as medalhas escondiam-se nas paredes. Metiam-se nos alicerces dos edifícios como mensagem ao futuro, contando com que a posteridade encontrasse o disco ao demolir a casa e conhecesse os seus construtores.
A medalha desportiva ao pescoço do vencedor é relativamente recente. Na Antiguidade ao campeão cabia uma coroa, e a cerimónia que conhecemos, com a fita passada pela cabeça, é uma invenção do desporto moderno.
O bronze envelhece mais belo do que a prata. Com o tempo a medalha de bronze cobre-se de uma pátina que os colecionadores valorizam e procuram não tirar: a pátina é o passaporte da idade da peça.
A medalha e o medalhão cresceram de uma mesma raiz. A moda renascentista de trazer ao peito um relevo retrato redondo empurrou os mestres a fazer pendentes cápsula, e a linha da condecoração e a do adorno separaram-se de uma origem comum. Assim, a confusão entre ambos tem causas históricas profundas, e não é casual.
As medalhas sabiam-se falsificar desde tão antigo como se concediam. Assim que a distinção começou a dar honra, apareceram os que queriam a honra sem o mérito, por isso em muitos países se castigava com dureza usar uma condecoração alheia ou falsa. O direito ao sinal protegia-se com a caderneta de condecoração, e o bordo do disco marcava-se por vezes com um número, para distinguir o original da cópia.
O perfil da medalha olha mais vezes para a esquerda. O costume de representar o retrato de perfil com a volta para um lado vem já das moedas antigas, e os medalhistas mantiveram durante séculos a mesma composição, porque o perfil se reconhece num instante e encaixa com beleza no círculo do disco.
O reverso conta mais do que o anverso. A face de gala é igual em muitas condecorações, mas o dorso com a inscrição, o ano e o nome é único. Por isso para a família é mais valioso justamente o reverso: nele está escrito o «porquê e a quem» concreto, aquilo mesmo que distingue a tua medalha de outras mil iguais.
Perguntas frequentes
Pode usar-se uma medalha de condecoração como joia?
A tua própria medalha podes usá-la como quiseres, é o teu direito. A medalha de família herdada é admissível usá-la como relíquia, por memória e respeito, conhecendo a sua história. Uma condecoração militar alheia não se pode fazer passar por própria, isso considera-se de mau gosto em muitas culturas.
Em que difere a medalha do medalhão?
O medalhão é uma joia cápsula, onde tu mesmo metes uma fotografia ou um objeto de recordação e a enches de sentido. A medalha é um sinal de mérito que te chega já com um sentido atribuído por quem a concedeu. O medalhão escreve-lo tu, a medalha concedem-ta.
A medalha e a moeda são o mesmo?
Não. A moeda é dinheiro com valor nominal, circulou no mercado, o seu valor é numismático. A medalha é um sinal de mérito sem valor nominal, nunca foi meio de pagamento, concedeu-se a uma pessoa por algo.
Como transformar uma medalha em pendente sem a estragar?
O modo mais cuidadoso é meter a medalha numa cápsula transparente ou numa moldura de joalharia com argola, assim não se toca no disco de todo. Se a medalha não é de colecionador, o joalheiro pode soldar uma argola ou pôr um suporte desmontável. Às condecorações autênticas e militares aplica-se apenas a moldura, sem transformação.
De que metal se fazem as medalhas de condecoração?
O mais frequente, de bronze e prata, com menos frequência de prata ou bronze dourados. No âmbito das condecorações do século XX usaram-se muito as ligas de cobre com níquel (cuproníquel). O ouro puro aparece raras vezes nas condecorações, pela sua moleza e o seu custo.
É de bom gosto usar a medalha do avô?
Sim, se a usas como recordação do avô e sabes por que razão foi concedida. É um ato de respeito pela linhagem, não uma apropriação do feito alheio. O importante é não fazer passar a condecoração pelo teu próprio mérito.
O que é uma falera?
A falera é o disco de condecoração da antiga Roma que se fixava às correias do peito sobre a couraça e se concedia aos guerreiros por se distinguirem. É o antepassado direto da medalha de condecoração atual, e dela vem a palavra «falerística».
Pode usar-se a medalha numa corrente todos os dias?
Pode, se a medalha o permitir pelo seu valor e o seu estado. Uma medalha desportiva ou de recordação usa-se numa corrente com tranquilidade. Uma condecoração autêntica é melhor cuidá-la e usá-la numa cápsula protetora, e guardar a fita à parte, para não a desfiar.
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Conclusão
A medalha de condecoração é uma peça rara, em que o metal é secundário. O principal nela é o motivo, a pessoa e o dia a que está atada. Por isso a medalha se transforma tão naturalmente em joia: numa corrente ou numa moldura não sustenta junto a ti o brilho, mas a memória e o mérito. Distingui-la de uma moeda e de um medalhão não é difícil: a moeda é dinheiro, o medalhão é uma cápsula para a tua memória, e a medalha é o testemunho de um reconhecimento que coube a uma única pessoa concreta. Pode e deve usar-se com respeito por aquele cujo nome está por detrás dela.
A memória que se traz ao peito
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A Zevira faz joias em que o sentido importa mais do que o brilho. Gostamos das peças com história: sinais, símbolos, relíquias que uma pessoa traz não para exibir, mas para si mesma. As nossas raízes estão em Albacete, a velha cidade do aço espanhol, e dessa herança fica o gosto pela lâmina bem feita e pelo sinal com significado. Se queres passar com cuidado uma medalha ou um disco comemorativo a uma joia que se traz em cima, temos molduras, engastes e pendentes de prata para essa tarefa.





























