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Pode-se oferecer um amuleto? O que diz a tradição, a quem oferecer e como entregar

Pode-se oferecer um amuleto? O que diz a tradição, a quem oferecer e como entregar

Em Lisboa, quando um namorado dava uma prenda à namorada, fazia às escondidas uma figa com a mão, para que o presente não apanhasse mau-olhado nem se perdesse pelo caminho. Registou-o o etnógrafo José Leite de Vasconcelos. Em Portugal, até a prenda tinha direito a proteção.

A pergunta «pode-se oferecer um amuleto?» costuma chegar com o embrulho já feito e uma dúvida de última hora: se dá azar, se é preciso pedir uma moeda em troca, se o olho grego «só vale» quando é oferecido, se uma mão de Fátima pode ofender uma amiga católica. As respostas vêm por esta ordem: o que diz a tradição portuguesa, em que casos convém pensar duas vezes, que símbolo serve a cada pessoa e a cada ocasião, como se entrega para que a peça acabe ao pescoço e não numa gaveta, e o que fazem outras culturas com o mesmo gesto.

Que amuleto oferecer nesta ocasião?
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O que está a acontecer a essa pessoa?

Resposta curta: pode, e em Portugal sempre foi assim

Pode. Nenhum dos costumes reunidos aqui castiga o gesto de oferecer proteção, e vários preferem-no à compra. A medalha do batizado, a figa de azeviche, a medalha trazida de Fátima e a ferradura achada no caminho são objetos que em Portugal passam de uma mão para outra. As reservas que existem são quatro e apontam para outro lado: o símbolo mal escolhido para a fé de quem o recebe, o objeto de devoção dado a quem não é devoto, a peça usada cuja história ninguém conta e o objeto com ponta entregue a alguém supersticioso.

Dá azar oferecer um amuleto?

O receio vem por contágio. Circula em Portugal uma lista comprida de prendas com má fama: a faca que corta a amizade, o relógio, as pérolas que trazem lágrimas, os lenços, os sapatos, a carteira vazia. Quem conhece essa lista desconfia de qualquer objeto carregado de significado, e um amuleto é dos mais carregados. Só que, nesse repertório, o amuleto aparece do lado contrário, entre as prendas que se dão sem reservas, porque o objeto já leva dentro o desejo de bem. O levantamento completo está no artigo sobre o que não se deve oferecer segundo as superstições.

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Existe um segundo receio, mais fino: que oferecer um olho ou uma figa equivalha a dizer ao outro «vejo-te em perigo» ou «há quem te inveje». Esse risco é real e não tem nada de mágico. Depende do que se diz ao entregar, e por isso este texto dedica uma secção inteira às palavras. Um amuleto dado com um «para que corra tudo bem em Londres» recebe-se como um abraço. O mesmo amuleto dado com um «bem precisas, com a gente que tens à volta» recebe-se como um diagnóstico.

Oferecido ou comprado: o que diz cada tradição

A frase «os amuletos têm de ser oferecidos» ouve-se muito e só é meio verdadeira. Depende do símbolo. O olho grego e a mão de Fátima compram-se para uso próprio sem problema nenhum: os guias do nazar e da hamsa explicam-no em pormenor, e em ambos o oferecido é tido como um pouco mais forte, sem que isso tire valor ao comprado. Com o corno napolitano a preferência sobe um grau: a tradição do cornicello conta a oferta entre as suas condições, embora muitos italianos comprem o seu. Do fio vermelho diz-se que segura mais quando é outra pessoa a dar o nó.

E a figa? No Brasil corre um ditado que resume a ideia: a melhor figa é a ganha, não a comprada. Em Portugal, o retrato é mais prosaico. Leite de Vasconcelos anotou que se vendiam figas baratas em todos os mercados e feiras, e que as cantigas populares falavam de figas dadas como prenda. Os dois caminhos conviviam, e o significado do gesto está contado no guia da figa. A ferradura junta uma terceira via: a que mais se estima é a que alguém encontra no chão por acaso. Achado, oferecido, comprado. Nenhum dos três estraga o amuleto. O que muda com a oferta é que a peça chega com o nome de alguém agarrado.

O amuleto como prenda na tradição portuguesa

Antes de olhar para Nápoles ou para Istambul, vale a pena abrir a gaveta da avó. Lá pode aparecer uma medalha com uma data gravada no verso, um punho negro minúsculo preso a uma fita, um terço trazido de Fátima, uma ferradura enferrujada que ninguém tem coragem de deitar fora. São peças que raramente alguém comprou para si: chegaram de uma madrinha, de quem voltou do santuário, de quem quis deixar dito qualquer coisa sem o dizer em voz alta. O amuleto português é menos um objeto de poder do que um objeto de parentesco, e a sua história conta-se melhor por quem o deu do que pelo que supostamente faz. Os casos que se seguem têm cada um a sua maneira de passar de mão em mão: um compra-se na feira, outro canta-se como prenda, outro benze-se no fim da missa, outro apanha-se do chão. Para os entender não é preciso acreditar em nada. Basta reparar em quem dá, em quem recebe e em que dia isso acontece.

A figa: vendida em todas as feiras, cantada como prenda

Pequeno amuleto de faiança verde-clara em forma de punho fechado com o polegar entre os dedos
Amuleto de faiança em forma de punho com o polegar entre os dois primeiros dedos, Egito, época romana, entre o século I e meados do século IV d. C. Museu Metropolitano de Arte, CC0.Amulet of fist with thumb thrust between first two fingers, The Metropolitan Museum of Art, ca. 1st-mid 4th century CE. The Metropolitan Museum of Art, Open Access (CC0 1.0)

O gesto é muito mais antigo do que Portugal: o punho com o polegar metido entre o indicador e o médio já se usava como amuleto em época romana. Quem o estudou a fundo entre nós foi José Leite de Vasconcelos (1858-1941), o etnógrafo que fundou em 1893 o Museu Etnológico de Belém. No estudo que dedicou à figa, escreveu que a crença de que ela livra da fascinação era «mais ou menos comum a todo o Portugal», e descreveu onde andava: no pulso de mulheres e crianças, ou ao pescoço, pendurada de um colar.

O retrato que deixou tem pouco de mistério e muito de comércio. As figas de coral, madrepérola e azeviche eram esculpidas, as de ouro e prata saíam de indústrias caseiras, e as mais baratas vendiam-se em todos os mercados e feiras. Para o etnógrafo, essa abundância era uma das razões por que a superstição não morria: sobrevivia sob a forma de berloque. Ao mesmo tempo, as cantigas populares que recolheu falam de figas dadas por prenda, e de uma versão para outra da mesma cantiga o metal da figa passa do bronze à prata e ao ouro. Comprada na feira para pendurar no próprio pulso ou levada como presente a alguém: em Portugal a figa fazia as duas coisas, e o estudo não regista nenhuma regra que obrigasse a escolher uma delas.

Coral, azeviche e osso: os amuletos das crianças de outrora

Chocalho de prata com apito, guizos e um ramo de coral vermelho na ponta
Chocalho com apito e guizos, prata e coral, Nova Iorque, 1735-1745. Museu Metropolitano de Arte, CC0.Rattle, Whistle, and Bells, The Metropolitan Museum of Art, 1735-45. The Metropolitan Museum of Art, Open Access (CC0 1.0)

Um livro português do século XVII, a Correcção de Abusos, queixava-se das velhas que punham às crianças, no ombro, no pescoço ou nas mãos, figas de azeviche contra feitiços e quebranto. Três séculos depois, Leite de Vasconcelos ainda descrevia um amuleto infantil de osso, usado entre nós, em que a uma figa se juntava, em simetria, um pequeno corno. A criança não escolhia nada disto. Recebia-o de quem cuidava dela.

A mesma lógica produziu em Inglaterra e nas colónias americanas do século XVIII um objeto que parece uma joia e era um brinquedo: o chocalho de prata com apito, guizos e um ramo de coral na ponta. Servia ao mesmo tempo de mordedor, de distração e de amuleto. Oferecia-se nos batizados e depois passava de geração em geração como relíquia de família. O coral tinha desde a Antiguidade fama de proteger as crianças, e aos guizos atribuía-se a virtude de afastar o mal, além de entreter o bebé durante a dor dos dentes.

Hoje nada disto se põe ao bebé. O chocalho de coral olha-se numa vitrina, e a figa de azeviche oferece-se aos pais e guarda-se até a criança crescer, pelas razões que se explicam mais abaixo, na secção sobre os recém-nascidos.

A figa e os namorados

O costume lisboeta que abre este texto merece ser contado por inteiro, porque funciona nos dois sentidos: o namorado que oferecia uma prenda à namorada, ou a namorada que a oferecia a ele, fazia uma figa às escondidas no momento da entrega. O objetivo não era proteger a pessoa, era proteger o presente. A figa servia para que a prenda não recebesse mau-olhado e não se extraviasse. Ou seja, até uma prenda vulgar precisava de amparo enquanto mudava de mãos.

Fora de Portugal, o mesmo estudo recolhe um costume que vai mais longe. Na Baviera, um rapaz que queria casar mandava à rapariga uma figa de prata ou de ouro como presente. Aí a figa já não acompanha a prenda: é a própria prenda, e anuncia o pedido que vem a seguir. Entre os dois costumes cabe quase tudo o que este artigo tem para dizer. O amuleto oferecido é um recado de quem o dá, e o resto da mensagem cabe nas palavras da entrega.

Medalhas de batismo e de Nossa Senhora de Fátima

A medalha de batismo faz em muitas famílias o papel de primeiro amuleto, ainda que ninguém lhe chame assim. Na divisão habitual das prendas, a cruz fica muitas vezes com o padrinho e a medalha com a madrinha: Nossa Senhora de Fátima, a Imaculada Conceição, o anjo da guarda ou o santo do nome da criança. No verso grava-se o nome e a data. Quem dá o quê, que metal escolher e o que gravar está explicado no guia de joias para o batizado.

A medalha de Nossa Senhora de Fátima tem uma particularidade que a torna boa prenda fora da pia batismal. É uma devoção portuguesa com nome de lugar, e quem a recebe sabe de onde vem. Serve a uma mãe que faz anos, a uma afilhada que sai de casa, a um avô que já não pode ir ao santuário. O panorama das medalhas de devoção, das mais antigas às mais recentes, está no guia de medalhas de santos e relicários.

Benzida ou não: a medalha que passa por Fátima

No Santuário de Fátima, a bênção dos objetos religiosos acontece todos os dias, no fim das missas do programa oficial. Uma reportagem da Lusa junto às lojas do santuário contava que os terços e as imagens são o que mais se vende e que muitos clientes perguntam se as peças já vêm benzidas. A resposta de uma das comerciantes era simples: qualquer padre, em qualquer sítio, as pode benzer.

Isto resolve uma dúvida frequente de quem oferece. Uma medalha comprada numa ourivesaria de bairro não é menos medalha do que a trazida de Fátima. Se a pessoa que a recebe faz questão da bênção, leva-a à sua paróquia. Se não faz, a medalha não precisa de nada para ser usada. A decisão é de quem a vai pôr ao pescoço, não de quem a compra, e por isso não convém oferecer a bênção como se fosse parte do embrulho a alguém que talvez não a queira.

A ferradura achada no caminho

A ferradura é um amuleto que se reconhece à primeira vista e que se embrulha mal. Em Portugal, como em Espanha e em Itália, vê-se sobretudo no campo e em casas antigas, por cima da porta. A fama de dar sorte pertence, segundo a tradição, à ferradura encontrada no chão, a que um cavalo perdeu e alguém apanhou. Quem a encontra não a comprou nem a recebeu: teve-a por acaso, e é esse acaso que a valoriza.

Isto deixa quem oferece numa posição curiosa. Uma ferradura comprada numa loja fica sem a parte da história que lhe dá fama. Por isso a prenda funciona melhor em forma de joia, como pendente ou berloque, onde o símbolo vale pelo desenho e não pela origem. A história e as variantes estão no artigo sobre a ferradura e o trevo.

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O que traz já ao pescoço?

O critério do estilista: um amuleto para usar, não para guardar

Um amuleto oferecido não falha pelo símbolo. Falha pela forma: grande demais, do metal que aquela pessoa não usa, num fio que não cabe em nenhum dos seus decotes. Essa peça põe-se uma vez à frente de quem a ofereceu e desaparece.

Por onde começa quando escolhe um amuleto para oferecer?

Pelo que a pessoa já usa. Olho para o pescoço e para os pulsos: que tom de metal, que comprimento de fio, se há alguma coisa que nunca sai. A quem usa fio dourado recomendo um pendente em tom quente que possa pendurar nele. A quem só usa prata, um amuleto dourado fica na caixa, tenha o significado que tiver. A peça que entra no que a pessoa já usa dura anos. A que obriga a refazer o conjunto inteiro dura uma tarde.

Que tamanho recomenda?

Escolho o tamanho pela gola da roupa, nunca pelo efeito no tabuleiro da montra. Na montra, o grande parece mais generoso. Ao pescoço, quem decide é o decote. Para quem vive de camisa abotoada e camisola de gola alta aconselho um pendente pequeno, da ordem da mão de 20 por 14 milímetros do catálogo, que fica por dentro e não pede explicações numa reunião. Para quem usa decote aberto recomendo uma peça maior e com fio próprio, porque sobre a pele um pendente mínimo perde-se. O erro que mais vejo é o olho grande oferecido a alguém que não mostra o pescoço de outubro a maio.

E se não conhecer o gosto da pessoa?

Aconselho um pendente sem fio e um bilhete a dizer «para pendurar no seu», desde que se saiba que ela tem um nesse tom. A pessoa decide onde vai, no fio, numa pulseira ou no porta-chaves, e a prenda passa a ser dela desde o primeiro minuto. O que não recomendo é o conjunto completo de brincos, pendente e pulseira com o mesmo símbolo: impõe um visual inteiro, e um amuleto tem de caber no estilo do outro. Mais soluções no artigo sobre a joia para oferecer quando não se conhece o gosto.

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Quando é melhor não oferecer um amuleto, ou oferecer outro

As reservas existem e convém levá-las a sério mesmo sem acreditar em nada, porque a prenda é recebida por outra pessoa e conta o que ela pensa. São quatro situações, e nenhuma proíbe o gesto: cada uma obriga a mudar de símbolo, de peça ou de maneira.

A quem pratica outra fé, ou nenhuma

Um amuleto leva sempre um símbolo, e muitos símbolos têm direção religiosa. A cruz, a medalha de Nossa Senhora, a mão de Fátima, a estrela de David ou a medalha de São Bento são transparentes para quem cresceu com elas e podem incomodar quem vem de outra tradição. O guia da hamsa lembra que algumas correntes do islão e do judaísmo não aprovam amuletos, de modo que nem sequer o símbolo «da própria fé» é seguro com uma pessoa muito observante. A regra é perguntar antes, de passagem, sem anunciar a prenda.

Quando não dá para perguntar, ficam os símbolos que não pertencem a nenhuma confissão: o sol, a rosa dos ventos, a ferradura, o trevo. O olho grego ocupa um lugar intermédio. Usam-no pessoas de religiões diferentes em todo o Mediterrâneo, mas fala de inveja e de mau-olhado, e a alguém muito racional pode soar a superstição. Para esse perfil funciona melhor um símbolo de rumo ou de luz do que um de defesa.

Objetos de devoção a quem não é devoto

Uma parte dos amuletos passa por um rito antes de chegar ao dono. O escapulário do Carmo pressupõe uma imposição, e a medalha que o pode substituir só faz sentido para quem já a recebeu. Esses objetos trazem, além do símbolo, a pertença a uma comunidade, e faz sentido oferecê-los a quem se sente parte dela.

A uma pessoa não crente, uma medalha benzida cria um problema que ela não tinha: não a quer usar e também não se atreve a guardá-la em qualquer sítio. O erro contrário também acontece. A um crente oferece-se um amuleto que a sua própria tradição vê com desconfiança, e ele fica preso entre a cortesia e a consciência. Nos dois casos a saída é a mesma: escolher a peça pela fé de quem a recebe e não pela de quem a compra. Se a dúvida persistir, um símbolo laico diz o mesmo sem pôr ninguém em apuros.

O amuleto usado, o herdado e o de antiquário

Sobre as joias que já tiveram dono pesa uma crença conhecida: a de que guardam alguma coisa de quem as usou. O artigo sobre superstições das prendas, citado acima, explica como se resolve. Para um amuleto, a questão é mais simples do que parece e reduz-se a saber se a história da peça se pode contar.

A medalha da bisavó conta-se: quem a usou, em que batizado se estreou, porque passa agora para esta neta. Essa peça ganha valor a cada passagem. Um amuleto comprado numa feira de velharias não se conta, e a uma pessoa impressionável a pergunta «de quem era isto?» estraga a prenda. Fica o caso do amuleto próprio, o que se traz ao pescoço. Não há inconveniente em dá-lo a um filho ou a uma afilhada, com a explicação junta. Com o corno napolitano o costume até o recomenda: o que já não se quer passa-se a outra pessoa em vez de ir para o lixo. Para tudo o resto, uma peça nova evita a pergunta.

Com ponta ou com gume: a moeda

Entre as superstições das prendas, a do gume é das que quase toda a gente ouviu em casa: facas, tesouras e alfinetes «cortam» a relação, e o costume desarma-os com uma moeda que o destinatário dá em troca. O mecanismo, e as situações em que uma navalha oferecida é sinal de confiança, estão no artigo sobre o que significa oferecer uma faca.

Alguns amuletos têm ponta: o corno, a seta, a miniatura de uma navalha. São símbolos e não ferramentas, mas a forma está lá, e quem decide é a crença de quem recebe. Se for das pessoas que batem na madeira, ponha a moeda dentro da caixa com um bilhete a dizer «esta é para me devolver». A moeda pode até chegar semanas depois, que cumpre na mesma. Se a pessoa não liga a isso, a moeda sobra. O gesto tem uma vantagem extra: transforma a entrega num pequeno jogo entre os dois, e quem não acredita em agoiros ri-se e devolve a moeda à mesma.

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A quem oferecer um amuleto, e qual

A escolha começa pela pessoa e não pelo símbolo: que idade tem, em que acredita, o que traz vestido no dia a dia. O mesmo olho azul que comove uma amiga grávida fica estranho na secretária de um chefe.

A um recém-nascido e aos pais

É a ocasião clássica e a que pede mais cuidado. A tradição prendia a figa à roupa da criança ou atava-a ao pulso; a pediatria de hoje pede outra coisa. A Academia Americana de Pediatria não recomenda que os bebés usem joia nenhuma, e em dezembro de 2018 a agência norte-americana FDA publicou um aviso oficial contra colares e pulseiras de dentição, depois de relatos de engasgamentos e da morte de uma criança de dezoito meses, estrangulada pelo colar de âmbar enquanto dormia. O risco é duplo: estrangulamento e asfixia se a peça se partir e a criança levar à boca o que se solta.

A saída respeita as duas coisas. O amuleto do bebé não se põe no bebé: nem ao pescoço, nem no pulso, nem preso à roupa, nem no berço, nem no carrinho. Oferece-se aos pais e guarda-se numa caixa com as primeiras coisas da criança, até ela ter idade de o usar sozinha. Gravado com o nome e a data, espera sem pressa.

A outra via é oferecer o amuleto à mãe ou ao pai. Um pendente que ela usa enquanto o filho é pequeno, e que lhe passa quando ele tiver idade para o trazer, cumpre o recado sem pôr nada em cima de um bebé.

A uma criança na Primeira Comunhão

A Primeira Comunhão é outra data em que a cruz e a medalha têm lugar natural, e aqui o destinatário já tem opinião. Nessa idade uma criança já sabe se a medalha lhe agrada, e vai usá-la ou não conforme lhe fica e conforme o que lhe dizem no recreio. Por isso convém uma peça pequena e resistente, que vá por dentro da camisola e aguente as correrias.

O esmalte fino e o vidro lascam-se com as pancadas, e uma prenda partida nessa idade dói mais do que a um adulto. Melhor metal liso, com a gravação no verso. Se a família não é praticante e a festa é civil, ou não existe, o mesmo papel cabe a um símbolo com uma história que a criança possa contar: um sol, uma rosa dos ventos, um olho de Hórus. Dá-lhe mais gozo dizer «é egípcio» do que «é para não me acontecer nada».

A uma amiga, a uma irmã, à companheira

Com uma mulher adulta manda a maneira como ela usa joias. Se tem um fio que nunca tira, ofereça um pendente para esse fio, o que é mais delicado do que impor um comprimento e um metal novos. No catálogo, o pendente mão de hamsá com coração vermelho mede 20 por 14 milímetros, tem a palma em esmalte branco, contorno dourado e um coração vermelho ao centro, e pendura com os dedos para baixo. Vende-se sem fio: serve se ela já tiver um dourado.

Se não usa nada ao pescoço e gosta de joias com cor, uma peça completa resolve melhor. O colar Nazaré traz o seu próprio fio, dourado e de elo grosso, e um pendente retangular de 25 por 35 milímetros com raios dourados em cima, a metade de baixo em esmalte fúcsia, pedrinhas coloridas e um olho branco de pupila turquesa. É uma peça que se vê ao longe: oferece-se a quem já usa joias vistosas e se sabe que gosta de fúcsia. Para uma amiga de gostos sóbrios, o pendente pequeno é a aposta segura. Entre um casal, o amuleto aceita uma data gravada ou um bilhete, e com isso deixa de ser um símbolo genérico.

A um homem

A um homem que já traz alguma coisa ao pescoço, seja um cordão de cabedal ou um fio, pode oferecer-se um pendente com presença. O pendente étnico de chifre castanho mede pouco menos de quatro centímetros e meio, é dourado de ponta a ponta, com a superfície martelada e uma pequena peça castanha junto à argola. É uma joia e nota-se: brilha. Vende-se sem cordão nem fio, por isso serve precisamente a esse homem, o que já tem onde o pendurar.

Ao que não usa joias nem se declara supersticioso, o amuleto tem de parecer um objeto antes de parecer um talismã, e não precisa de ir no corpo. Pode viver no carro, no porta-chaves ou na gaveta da secretária. A medalha de São Cristóvão no tablier é um exemplo conhecido. Mais ideias por tipo de peça no guia de joias para oferecer a um homem.

Aos pais ou aos avós

A uma pessoa mais velha o amuleto oferece-se a olhar para duas coisas: a devoção e as mãos. Se é crente, o natural é a devoção que já tem na mesa de cabeceira: a sua Nossa Senhora, o seu santo, a cruz da sua terra. Se não é, funcionam os símbolos de família, como uma árvore da vida ou uma medalha lisa com os nomes dos netos gravados no verso.

A segunda coisa pesa mais do que a primeira. Um fecho minúsculo não se abre com dedos que já não obedecem, e a peça acaba na caixa das joias. Um cordão comprido que passe pela cabeça ou um mosquetão grande resolvem o problema. Para um aniversário redondo da mãe há mais ideias no artigo sobre a joia para oferecer a uma mulher nos 50 anos.

A um colega de trabalho

No escritório, o amuleto contra a inveja é terreno escorregadio: oferecer um olho a um colega é insinuar que alguém da equipa lhe deseja mal, e essa leitura não se controla. A regra da prenda de trabalho é que a peça não diga nada sobre crenças. Servem os símbolos de rumo e de sorte: uma rosa dos ventos para uma transferência, um sol para um projeto que arranca. O caso completo, com o amigo secreto incluído, está no guia da prenda para um colega.

A um cético

Quem não acredita em amuletos aceita um sem resistência se lhe for dado como história e não como remédio. Ao cético interessa de onde vem a forma e quem a usou. O relato dos namorados lisboetas que faziam figas às escondidas, ou o da cápsula romana que se conta mais abaixo, transforma a peça num objeto com biografia. No cartão, troque «amuleto» por «símbolo», e a prenda deixa de soar a tentativa de conversão.

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Que amuleto oferecer em cada ocasião

A ocasião afina mais do que o destinatário. A mesma pessoa precisa de coisas diferentes quando muda de casa, quando faz um exame e quando sai de um ano mau.

Casa nova

A casa protege-se à parte da pessoa, e o amuleto de uma mudança pendura-se mais do que se usa. A ferradura por cima da porta já foi tratada acima, com o seu problema de origem. O olho de vidro à entrada e a mão aberta junto à porta fazem o mesmo papel, e ambos se compram e oferecem sem reserva nenhuma.

Se preferir oferecer alguma coisa que se use no corpo, a mão aberta é um símbolo de casa e de família que se lê sem explicação. E um conselho de ordem prática: espere que haja uma parede onde o pendurar. Um amuleto entregue no dia da mudança, entre caixotes, tem todas as hipóteses de se perder antes de se estrear.

Viagem ou emigração

O caminho tem padroeiro, e a medalha dele é uma prenda com destinatário claro: a de São Cristóvão dá-se a quem vai passar muitas horas na estrada ou parte para longe. Para quem oferece, é a maneira de despedir alguém com mais do que um «tem cuidado».

Para quem vai viver para fora e não é crente, a rosa dos ventos dourada diz «que encontres o rumo» sem apoio religioso. É uma medalha redonda e dourada de 34 por 38 milímetros, com a estrela em relevo e as iniciais dos pontos cardeais à volta. Vende-se sem fio, por isso convém se a pessoa já tem um do mesmo tom. Ofereça-a uns dias antes da partida e não no aeroporto: assim há tempo para a pôr e para se habituar a ela. Outras ideias para quem parte estão no guia de joias para a emigração.

Exames, concursos ou um emprego novo

Aqui o amuleto oferece-se como sinal de sorte e não de defesa. O que conta é que não atrapalhe na sala de exame nem na entrevista: algo que caiba no estojo ou no bolso do casaco, ou que fique em casa, em cima da secretária de estudo.

A quem passa meses agarrado à mesma matéria, seja para os exames nacionais ou para um concurso público, serve melhor um objeto que possa ver enquanto estuda do que um que só se põe no dia da prova. O pendente de sol do catálogo é um disco dourado com raios em relevo que partem do centro, onde leva uma pequena pedra vermelha. Tem forma de medalha e não de berloque mínimo: conte com que se veja. Vende-se sem fio. No cartão, seja concreto: «que este seja o último exame difícil» fica mais na memória do que «boa sorte».

Casamento

Os amuletos de casamento têm dois destinatários possíveis: a noiva ou o casal. A mão tem uma longa história como prenda à noiva entre os sefarditas, e o corno tem-na como prenda aos recém-casados no sul de Itália; os guias de cada símbolo, citados acima, contam os dois casos. Em Portugal não há um amuleto de casamento com esse enraizamento, e isso dá liberdade: vale o símbolo que fizer sentido para aquele casal.

Há só uma peça com lugar marcado. A aliança usa-se em Portugal no anelar da mão esquerda, e é ela que fala do casamento. Um amuleto oferecido aos noivos não precisa de lhe fazer concorrência na mão: vai melhor ao pescoço ou na pulseira. Se quiser oferecer algo para usar, duas peças iguais, uma para cada um, funcionam melhor do que uma só. E se algum dos noivos for supersticioso e o símbolo tiver ponta, a moeda resolve a dúvida antes de alguém a levantar.

Depois de uma doença ou de uma fase má

É das ocasiões em que um amuleto é mais bem recebido, porque a pessoa procura onde se apoiar. Encaixam os símbolos de luz e de recomeço, como o sol, e encaixa pior o olho, que fala de uma ameaça vinda de fora quando o que ela precisa é de um sinal de força própria.

Evite tudo o que lembre o mau bocado. Nada de alusões à saúde, nada de «para não voltar a acontecer». A prenda tem de olhar para a frente: um símbolo de caminho se a pessoa planeia uma viagem para celebrar, um de casa se finalmente regressa à sua.

Como entregar um amuleto

Num amuleto, a entrega pesa mais do que noutras prendas, porque o objeto sozinho não explica nada: quem o recebe não sabe se tem à frente um enfeite ou um desejo até lho dizerem.

O que dizer ao oferecer

Uma frase curta e concreta: «para que o caminho seja fácil», «para te acompanhar onde eu não chego», «para o exame». O discurso comprido sobre invejas e más energias assusta quem até ali não pensava em ameaça nenhuma, e põe a prenda do lado do medo.

Ajuda dar nome ao símbolo e à sua origem. «É uma figa, em Portugal vendiam-se em todas as feiras e davam-se aos namorados» interessa mais do que «é contra o mau-olhado», e dá à outra pessoa uma história para contar quando lhe perguntarem pelo pendente. Quem recebe uma mão de Fátima costuma querer saber o que significa recebê-la, e a resposta está do lado de quem a dá: o que lhe deseja com ela.

O cartão que acompanha

Se a entrega não puder ser em pessoa, o cartão faz de voz. E se puder, faz de memória: daqui a um ano ninguém se lembra da frase exata e o cartão continua dentro da caixa. Bastam três coisas: que símbolo é, de onde vem e o que se deseja com ele.

Escreva-o à mão. Se a peça for gravada, explique no cartão o porquê daquela data ou daquelas iniciais. E se o amuleto tiver ponta e a pessoa for das que acreditam, lembre no cartão a moeda que vai dentro da caixa: o pequeno rito cumpre-se quando ela lha devolver.

Quando oferecer: antes ou depois

O amuleto de viagem dá-se antes de partir, o de exame na véspera, o de casamento no casamento. A lógica é simples: a companhia faz falta enquanto dura a prova, não quando já passou. Num nascimento a ordem inverte-se, e o momento natural é a primeira visita a casa dos pais, ou o batizado, quando a medalha já tem destinatário com nome.

Para um aniversário ou um dia de santo não há regra especial: o próprio dia é o melhor. E se chegar atrasado, não faz mal. Um amuleto entregue com uma semana de atraso não perde nada, ao passo que um entregue à pressa e sem uma palavra perde quase tudo.

O embrulho

A um amuleto assenta bem um embrulho simples: um saquinho de pano, uma caixa pequena, um envelope. O estojo aparatoso transforma o símbolo numa prenda cara, e então a conversa gira à volta do preço e não do significado.

Que a caixa seja do tamanho da peça. Um pendente solto numa caixa grande chega riscado. Se a prenda viajar por correio, avise a pessoa com uma mensagem ou um telefonema em que diga o que diria em mão, e peça-lhe que abra o embrulho com o cartão à frente.

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Fora de Portugal: quatro costumes em que o amuleto chega de outra mão

Oferecer proteção não é uma singularidade portuguesa. O que cá é hábito de família, noutros sítios é regra com nome e data. Estas quatro tradições não têm origem comum: uma é romana e tem mais de dois mil anos, outra é chinesa e continua viva, a terceira celebra-se todos os anos a 1 de março na Bulgária e nos países vizinhos e a quarta é escocesa. Parecem-se num ponto concreto, que é o que interessa a quem vai oferecer: cada uma dá um lugar à parte ao objeto protetor que vem de outra mão, e na China e na Bulgária um amuleto comprado para si é a opção mais fraca ou simplesmente não é costume. Conhecê-las tem uma utilidade prática. Se o destinatário tem raízes numa destas culturas, a prenda já traz o seu dia, a sua forma e a sua frase feita, e não é preciso inventar nada. Se não tem, qualquer uma delas dá uma história para contar ao entregar a peça, e a história é metade da prenda. Nenhuma promete nada que se possa comprovar; o que as quatro ensinam é quem tomava conta de quem.

Roma: a bula que o pai pendurava ao nono dia

Bula etrusca de ouro: pendente redondo com figuras em relevo e um passador cilíndrico decorado
Pendente em forma de bula, ouro etrusco do século III a. C. Museu Metropolitano de Arte, CC0.Pendant, bulla (lentoid), The Metropolitan Museum of Art, 3rd century BCE. The Metropolitan Museum of Art, Open Access (CC0 1.0)

A criança romana recebia o primeiro amuleto no dia em que recebia o nome. Esse dia chamava-se dies lustricus e caía ao nono dia de vida para os rapazes; às raparigas dava-se o nome ao oitavo. Depois do rito de purificação, o pai pendurava ao pescoço do filho a bula, uma cápsula redonda que guardava lá dentro objetos protetores. A maior parte das que sobreviveram é de bronze, e só poucas famílias as encomendavam em ouro ou prata; alguns autores falam de uma tira de couro como substituto modesto. O sentido era o mesmo em todas: o pai reconhecia a criança e punha-a sob a sua proteção.

Os próprios autores romanos atribuíam a bula aos etruscos. O rapaz usava-a até vestir a toga de adulto, e nesse dia tirava-a e oferecia-a aos lares, os deuses da casa. A bula era também sinal de nascimento livre: aos filhos dos escravos era negada. A criança não a escolhia nem a comprava, e era isso que lhe dava valor: era a voz da família pendurada ao pescoço.

China: o vermelho do ano próprio oferecem-no os seus

De doze em doze anos chega a cada pessoa o benmingnian, o ano do seu próprio signo do zodíaco chinês. A tradição não o vê como um ano de sorte, mas de risco, e o remédio é usar vermelho junto ao corpo: roupa interior, cinto, meias. A condição é que essas peças vermelhas sejam oferecidas por familiares ou amigos. As que cada um compra para si, segundo a crença, valem menos.

Daqui sai um costume muito fácil de entender cá deste lado: quando começa o ano de alguém da família, os pais ou os amigos compram-lhe o vermelho. A mensagem dispensa tradução, porque é a de quem mete um pequeno sinal na mala de um filho que parte. Quem a recebe usa o vermelho durante esse ano.

Bulgária e vizinhos: a martenitsa que ninguém compra para si

Na Bulgária, a 1 de março, oferecem-se martenitsas, fios entrançados de vermelho e branco que se atam ao pulso ou se prendem na roupa. Na Roménia e na Moldávia chama-se mărțișor, na Macedónia do Norte martinka. Usa-se até se ver a primeira árvore em flor, uma andorinha ou uma cegonha, e então tira-se. Em dezembro de 2017 a UNESCO inscreveu a prática na lista do património imaterial, por proposta conjunta dos quatro países.

A regra que interessa aqui é taxativa: a tradição manda que a martenitsa se receba sempre como prenda e nunca se compre para si. Dá-se entre familiares, amigos e colegas, e também às crianças. Se houver no escritório uma colega búlgara ou romena, no 1 de março é ela própria que o explica, com um fio na mão.

Escócia: o coração coroado que passava da noiva para o filho

Broche de prata em forma de coração coroado, com o contorno coberto de granadas
Broche britânico de prata e granadas, cerca de 1770. Museu Metropolitano de Arte, CC0.Brooch, The Metropolitan Museum of Art, ca. 1770. The Metropolitan Museum of Art, Open Access (CC0 1.0)

Na Escócia, o amuleto foi um broche. Um coração debaixo de uma coroa, ou dois corações entrelaçados, quase sempre de prata, oferecido como penhor de amor e de noivado. Levava gravadas iniciais, datas e divisas curtas. O broche aparece na Escócia não antes do século XVII, e os exemplares que se conservam são dos séculos XVIII a XX.

O curioso vinha depois do casamento. O mesmo broche prendia-se à roupa do bebé para o livrar da desgraça, e às vezes usava-o a mãe enquanto amamentava, como amparo do leite. Daí o outro nome popular, broche da bruxa. Era um costume de outro tempo, hoje um alfinete não se põe a um bebé, mas a ideia ficou: uma prenda com duas vidas, primeiro sinal entre duas pessoas e depois escudo do filho de ambas.

Porque se usa mais tempo o amuleto oferecido

Tirada a camada de crença, fica uma explicação muito caseira, e é uma opinião, não uma regra de nenhuma tradição. Um amuleto que se compra é uma decisão própria e pode rever-se: no dia em que se deixa de acreditar nele, guarda-se. Um amuleto que alguém nos deu tem testemunha. Tirá-lo é um pouco tirar quem o pôs, e por isso fica ao pescoço mais tempo do que a fé no seu efeito. A avó que tocava na medalha antes de sair não estava a rezar a cada gesto: estava a confirmar que continuava ali o que a mãe lhe dera.

Há também uma questão de momento. Os amuletos oferecidos chegam em datas que a pessoa não esquece: um nascimento, um casamento, a véspera de uma viagem, o começo de um ano difícil. A peça fica presa a esse dia. Por isso, de todas as regras sobre oferecido e comprado, a que resiste melhor ao ceticismo é a mais modesta: o amuleto oferecido lembra que alguém pensou em nós quando era preciso.

O que devo oferecer?

Qual é a ocasião?

Se o amuleto lhe foi oferecido a si

Também quem recebe tem dúvidas: o que fazer se não gosta, se parte, se não o quer usar sempre. Os costumes são, nisto, mais flexíveis do que se pensa.

Se não gosta ou não é o seu estilo

Um amuleto oferecido não obriga a andar ao pescoço. O olho de vidro pendura-se à entrada de casa, a medalha prende-se no carro, o pendente pequeno passa para o porta-chaves. Muitos amuletos nasceram para estar num sítio e não num corpo.

Se não encontrar mesmo lugar para ele, guarde-o num sítio sossegado da casa. E se for um corno, a tradição napolitana permite passá-lo a quem lhe dê uso. Para quem oferece fica a lição contrária: na dúvida sobre o gosto, escolha uma peça que também possa ficar numa parede ou num porta-chaves.

Se parte ou se perde

Um amuleto partido assusta mais do que qualquer outro percalço com uma prenda, e a tradição lê-o precisamente ao contrário. Para o olho de vidro, para o fio vermelho e para a figa de azeviche a leitura coincide: a peça que parte acabou o seu trabalho, e o que há a fazer é substituí-la. Os guias de cada símbolo dão os pormenores. O que importa a quem a recebeu de prenda é outra coisa: nenhum destes costumes culpa quem a ofereceu nem vê na rutura um mau desejo.

Para o amuleto perdido, as tradições aqui reunidas não dão regra. Pode comprar outro ou contar a quem lho deu, que muito provavelmente vai querer repô-lo. Uma perda confessada a tempo é ocasião para uma segunda prenda, e escondê-la durante meses por vergonha é bem pior do que qualquer presságio.

Se o pode tirar

Depende de qual for. O vermelho chinês usa-se durante o ano do signo, e o fio vermelho deixa-se até se gastar sozinho, como conta o guia do fio vermelho. Para um olho, uma mão ou um sol ninguém pede tanto.

Com essas peças, a regra é a de qualquer joia: fora para dormir, para o ginásio, para a piscina e para trabalhos com as mãos. A prata escurece com o tempo e limpa-se sem dificuldade. Quando o tirar, deixe-o sempre no mesmo sítio. Assim não se perde, e assim não passa de símbolo a tralha esquecida no fundo de uma mala.

Como se despedir de um amuleto velho

Todo o amuleto tem um fim, e as tradições preveem-no com alguma cerimónia. O rapaz romano oferecia a bula aos deuses da casa. O amuleto japonês de pano, o omamori, dá-se por cumprido ao fim de cerca de um ano e devolve-se ao templo, onde é queimado num rito. E o guia do fio vermelho conta que na Índia o fio sagrado vai para o rio ou para a terra.

Para um amuleto inteiro que já não se usa, a prática doméstica tem três saídas. Guardá-lo como recordação, se foi oferecido por alguém que conta. Perguntar na paróquia o que se faz a uma medalha ou a uma cruz benzidas que não se querem conservar. Enterrá-lo, que é o que o costume napolitano aconselha para o corno. O amuleto partido é outro caso: segue a regra do seu símbolo, explicada acima, e quase sempre isso quer dizer substituí-lo. Seja qual for a saída, a um objeto que alguém deu com um desejo dá-se um destino pensado.

Amuletos para oferecer

Olho, mão, corno, sol, rosa dos ventos: as fichas do catálogo contam o símbolo de cada peça. Escolha o sinal pela pessoa e pela ocasião, e o cartão escreva-o à mão.

Ver amuletos

Que amuleto oferecer e a quem: oito símbolos
AmuletoA quem serveCom quem ter cuidadoO que verificar antes de comprar
Olho gregoPais recentes, amigas, quem está muito exposto ao olhar dos outrosUm colega de trabalho sem motivo: soa a aviso sobre invejasO vidro e o esmalte lascam-se: para uso diário, melhor base de metal
Mão de FátimaUm casal, uma família, quem estreia casaUma pessoa muito observante, sem ter falado antesDedos para cima ou para baixo: a mão tem duas leituras, veja qual lhe é próxima. A do catálogo pendura com os dedos para baixo
FigaOs pais de um recém-nascido, para a guardarem até a criança crescer; um adulto que goste de histórias portuguesasQuem conhece o gesto só como insulto: explique-lhe o amuleto ao entregá-loNum pendente para adulto, que o polegar entre os dedos se leia bem. Para a criança, nada se põe nela: a figa fica guardada
CornoQuem abre um negócio ou espera uma decisão importanteQuem acredita na superstição do gume: ponha uma moeda na caixaSe quer seguir a tradição napolitana, vermelho e curvo. Numa casa com bebé, guardado fora do alcance da criança, nunca nela
Cruz ou medalha de batismoUm afilhado, um familiar crenteUma pessoa não crente ou de outra féAo bebé não se põe: guarda-se com as suas coisas até ter idade de a usar. Para um adulto, um fio que aguente o uso diário
Medalha de Nossa Senhora de FátimaUma pessoa devota, quem não pôde ir ao santuárioQuem a veria como um rito alheioQue a imagem se reconheça bem no relevo. A bênção decide-a quem a recebe, na sua paróquia
Rosa dos ventosUm viajante, um emigrante, quem acaba o cursoSem reservas: é um sinal laicoQue as iniciais dos pontos cardeais se leiam à vista e que o tamanho combine com a roupa: é uma medalha grande
Fio vermelhoAlguém próximo a quem vá dar o nó com as próprias mãosQuem não usa pulseiras de tecidoQue sobre fio para os nós e que não aperte o pulso

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Perguntas frequentes

Dá azar oferecer um amuleto? Não há tradição que o diga. Na lista portuguesa de prendas de mau agoiro estão a faca, o relógio e as pérolas, não os amuletos. As cautelas que existem são de bom senso, e a primeira é de tato: não acompanhar a prenda de frases sobre invejas, porque então o que incomoda é o comentário e não a peça.

A figa só funciona se for oferecida? É um ditado brasileiro: a melhor figa é a ganha, não a comprada. Em Portugal, Leite de Vasconcelos registou as duas coisas ao mesmo tempo, figas baratas vendidas em todas as feiras e figas dadas por prenda nas cantigas, sem regra que proibisse comprar a sua. Oferecida, a figa tem a vantagem de trazer consigo o nome de quem a deu.

Pode-se comprar um amuleto para si próprio? Pode. O olho grego e a mão de Fátima compram-se sem problema, e a crença dá ao oferecido apenas um ponto a mais. Da ferradura, a que mais se estima é a achada no chão. As exceções conhecidas estão fora de Portugal: a martenitsa búlgara e o vermelho do ano chinês querem-se recebidos de outra pessoa.

O que significa receber uma mão de Fátima? Que quem a dá tem estima e deseja proteção e boa sorte: é a leitura comum do gesto. Não obriga a acreditar em nada nem a usá-la todos os dias. Se o símbolo incomodar pelas crenças de quem o recebe, diz-se com naturalidade: quem oferece uma mão quer cuidar, não pôr ninguém numa situação difícil.

Pode-se oferecer um amuleto que já foi usado? Pode, se a história for contada. Com nome e data: quem o deu, quanto tempo andou ao pescoço e porque passa agora para aquela pessoa. Limpe-o e troque o cordão se estiver gasto. O que convém evitar é entregá-lo em silêncio, como se fosse novo, a alguém que acredita que os objetos guardam memória.

Que amuleto oferecer a um bebé recém-nascido? Um amuleto para os pais guardarem, não para pôr no bebé. Nada ao pescoço, no pulso, preso à roupa, no berço ou no carrinho: a Academia Americana de Pediatria desaconselha joias em bebés e o risco é de estrangulamento e de asfixia. Uma medalha gravada com o nome e a data, guardada com as primeiras coisas da criança, espera até ela ter idade de a usar.

É preciso dar uma moeda em troca de um amuleto? Não. A moeda pertence às prendas com gume, e um amuleto entende-se como um desejo de bem que dispensa troca. Se a pessoa for muito supersticiosa e a peça tiver ponta, a moeda pode até ser dada semanas depois e cumpre na mesma.

O que fazer se o olho grego oferecido partir? Substituí-lo, sem drama. Não vale a pena colá-lo para continuar a usá-lo: uma peça de vidro rachada pode acabar de se partir ao pescoço. A quem o ofereceu pode contar-se sem embaraço, porque a tradição lê a rutura como um trabalho terminado, e é provável que essa pessoa queira ser quem dá o próximo.

Seis ideias sobre os amuletos oferecidos
A figa tem de andar escondida
Tap to reveal
Aos homens não se oferecem amuletos
Tap to reveal
Quanto mais caro, mais protege
Tap to reveal
Um amuleto tem de ser de material natural
Tap to reveal
A ferradura só dá sorte com as pontas para cima
Tap to reveal
Para oferecer, o olho grego tem de ser azul
Tap to reveal

Conclusão

Oferecer um amuleto não quebra regra nenhuma. Em Portugal é, aliás, a maneira como os amuletos circularam durante séculos: a figa vendida na feira e levada de prenda, a medalha que a madrinha traz ao batizado, a medalha que alguém trouxe de Fátima para quem ficou em casa. As cautelas são quatro e são de bom senso: olhar para a fé de quem recebe, deixar os objetos de devoção para quem é devoto, contar a história de uma peça usada e juntar uma moeda se o símbolo tiver ponta e a pessoa acreditar nessas coisas.

O resto resolve-se com atenção. O símbolo escolhe-se pelo que a pessoa acredita, o tamanho pelo que ela veste, e a ocasião pelo que lhe está a acontecer. Para conhecer o significado de cada sinal, o guia completo de amuletos de proteção e talismãs percorre-os um a um. O melhor amuleto oferecido é aquele que a outra pessoa põe no dia seguinte sem ninguém lho pedir.

Para oferecer

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ZeviraCaixa da Zevira e um cartão incluídos em cada pedido.
Embalagem de oferta incluídaCertificado de autenticidadeDevolução em 14 dias sem perguntas
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Sobre a Zevira

A Zevira reúne joias à volta de símbolos e das histórias que eles carregam: sinais de proteção do Mediterrâneo, de sorte, de viagem, medalhas e amuletos com passado. As fichas do catálogo explicam o símbolo de cada peça, para que a prenda se escolha a pensar numa pessoa concreta e o cartão se escreva sabendo o que se entrega.

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